PES (AyA)

PES (AyA)
Pesquisas e Experiências Subjetivas Anarkia y Ayahuasca Entre Parênteses

Nada como tudo que a gente queria (agosto 2008)

Nada Como Tudo Que A Gente Queria

A cada ano faço reflexões sobre o trilhar de minhas pesquisas e as publico em forma de manifesto na Internet. Este ano vou abordar dois assuntos inicialmente distantes entre si: o falecimento de Roberto Freire e o uso da ayahuasca. Quem sabe ao final deste texto eles se entrelacem.

Soube pela Internet do falecimento do escritor e criador da Soma, Roberto Freire. Fui amigo e companheiro do Bigode (apelido que carregou por grande parte de sua vida) por 13 anos, de 1990 a 2002, conhecendo-o primeiro como seu cliente, depois como formando e, por fim, como companheiro de trabalho. Nos últimos seis anos estávamos afastados por variados motivos, inclusive no ato de rompimento publiquei na Internet um texto que gerou polêmica: Morto Roberto Freire, Viva Roberto Freire, no qual explicitei nossa separação pessoal e minha continuidade com a técnica da forma que acredito. Ao me afastar do Freire e continuar a desenvolver a técnica que aprendi com ele, mudei o nome do trabalho e aos poucos vou deixando-a mais "a minha cara". Nos últimos quatro anos pontuo uma evolução a Soma que praticávamos de 90 a 2001 ao agregar, na teoria, a Biologia do Conhecer e, na prática, a retomada da pedagogia libertária mais agregada aos grupos de terapia. Sobre o Freire, divulguei e mantenho uma página pra linkar com obras suas e outras informações: http://teso.vilabol.uol.com.br/robertofreire.html

Meu rompimento com a pessoa não invalida o que vivenciei e aprendi com ele, inclusive dando continuidade a minha maneira. Sua forma de produzir e viver me influenciaram tanto quanto meus aprendizados técnicos da somaterapia e, hoje, comparo a influência que Freire teve pra mim na criação da Somaiê com a influência que a obra de Wilhelm Reich teve para ele. A SOMA sempre assumiu publicamente usar somente parte da obra de Reich, excluindo o início psicanalítico e o final orgonômico. Da mesma forma, a SOMAIÊ utiliza a pesquisa da SOMA e do Freire do período de 1990 a 2001, pois antes de 1990 há, além do período psicanalítico, a crise com o uso da capoeira angola. Assim, participei de uma fase em que implantamos e definimos a pesquisa da SOMA/capoeira angola.Além disso, também me afasto das últimas pesquisas da SOMA, com sua participação ativa na cultura acadêmica, em cursos de mestrados e doutorados, assim como a legalização de um instituto pra formar novos terapeutas. Mantenho minha preferência ativa na pedagogia libertária, que gera os cursos quadrimestras (agora semestrais) de Encontros de Te&So nas cidades onde acontece a Somaiê.

Também mantenho a formação de novos terapeutas como uma relação pessoal e informal (ilegal), que se explicita na Internet e possui a possibilidade de ser somente teórica, ou teórica e prática (http://teso.vilabol.uol.com.br/abc.html). Atualmente, são quatro participantes em formação e, pela primeira vez, sinto que alguns conseguirão avançar de etapa. Apesar de várias pessoas já terem iniciado esse processo anteriormente, vive-lo num autodidatismo prático não é tão simples. A grande maioria se vicia numa autoridade que irá cobrar seu desenvolvimento.

Assim, há diferenças entre a SOMA que pratiquei e a SOMAIÊ que pratico. Aqui exponho as que percebo, mas sob alguns aspectos mantemos os mesmos objetivos. Sob uma ótica possível, sou tão Freireano e somático hoje em dia como quando estava ligado ao Freire, e considero que a genialidade dele na criação da técnica antecipava posições que hoje defendo pela Biologia do Conhecer. Isto é, Freire continua atual na SOMAIÊ, e posso comparar que a SOMA é uma parte dela, tanto na palavra quanto na prática terapêutica que desenvolvo. Estamos sempre evoluindo, de forma que ambos os trabalhos de hoje (o meu e o do Brancaleone) são evoluções da SOMA da década de 1990: aquela que implantou a capoeira angola como recurso terapêutico dentro de um coletivo de atuação anarquista, e que faz parte dos anos de aposentadoria do Freire como terapeuta, deixando finalmente uma equipe assumindo seu papel.

Freire faleceu 40 anos depois do MAIO de 68. Se em 2002 anunciei sua morte na minha relação pessoal e profissional, assumindo meus pontos de discordância, agora o que interessa é que, além de evolução, pratico uma continuidade do trabalho e faço uma homenagem ao Roberto Freire que vi atuar e liderar. Se morto Roberto Freire, Viva Roberto Freire. Disse em 2002 e repito agora, pois o Bigode continua a me inspirar como profissional e pessoa pra fazer minha Somaiê.

E nesse meu fazer há novas pesquisas. Desde 2006, vivencio no meu cotidiano o uso da ayahuasca como um recurso de ampliação das minhas percepções e, neste ano de 2008, a incorporei às pesquisas de campo das Teorias da SOMAIÊ, chamando-a de PES (AyA) – Pesquisas e Experiências Subjetivas Anarquia y Ayahuasca entre Parênteses. A descoberta da AYAHUASCA como recurso terapêutico e como possibilidade de expansão da consciência e corporalidade é uma outra forma de abordar o Anarquismo entre Parênteses, mas atualmente as pesquisas não se misturam. A SOMAIÊ é uma técnica de 20 meses e NÃO usa a ayahuasca, o que não impede que alguns participem dos PES (AyA).

A Ayahuasca é uma bebida natural que, segundo o Conad e as as autoridades brasileiras, NÃO É ALUCINÓGENO, e pode ser utilizada com finalidades religiosas e terapêuticas. Foi aceita legalmente pela sua relação recente com a religião (Santo Daime e União do Vegetal, que também nomeiam a bebida), mas já é usada pelo homem há mais de 5000 anos. Afinal, é a junção e cozimento de um cipó e de uma folha.

O cipó possui os alcalóides B-Carbolina que inibem uma enzima do nosso corpo chamada de MAO (monoamina oxidase). Com a inibição química do cipó, ficamos vulneráveis a ação da DMT, dimetiltriptamina, substância presente na folha e que provoca os efeitos semelhantes ao ácido lisérgico (LSD), só que com uma química natural e uma substância do nosso corpo, o DMT. Inibidores de MAO são usado na medicina e psiquiatria como tratamento de depressão. Parte dos efeitos vem com o DMT e outro pela ampliação da Serotonina (mais detalhes no site PES - http://p.e.s.vilabol.uol.com.br/).

Essa forma "química" é simplificadora e pouco informativa, pois as mudanças de FEITIO da ayahuasca interferem na qualidade da bebida, com inúmeros outros componentes que alteram seus efeitos corporais. Isso se amplia e se modifica drasticamente conforme o RITUAL do USO da ayahuasca, além da influência da SUBJETIVIDADE de cada um no momento de ingestão da bebida.

Venho produzindo, desde o início de 2008, sessões de experimentação da ayahuasca chamadas de Ayahuasca no Rio Preto ou Pesquisas e Experiências Subjetivas. São inúmeras as possibilidades que começei a oferecer como pesquisa dos PES dentro do Te&So e, a partir do segundo semestre, expando para outras cidades, inclusive o meio urbano. Já aconteceram 12 sessões com 51 participantes no total, inclusive mais da metade destes experimentaram a ayahuasca pela primeira vez. 84 doses em oito meses, em sessões variadas que estão servindo de um rico laboratório de percepções subjetivas.

A ayahuasca se encontra com a SOMAIÊ ao mostrar como não vivemos numa REALIDADE e sim numa série de DESCRIÇÔES DE REALIDADE. A Biologia que defendo não é subsidiada por universidades nem governos, pois vai numa direção oposta as do reducionismo científico. Pra mim o indivíduo é a verdadeira unidade ontológica da evolução, e a natureza é constituída de PROCESSOS, e não de OBJETOS. Esses processos relacionais são sempre eventos dentro da esfera de ação de um observador.

Assim como a SOMAIÊ acontece há 7 anos, os PES e a pesquisa com a ayahuasca tem menos de 1 ano, mas em ambos é minha experiência como terapeuta e profissional, de 19 anos de somaterapia, que se ligam e se misturam. Assim como quem faz SOMAIÊ não usa a ayahuasca na técnica, quem participa dos PES não precisa conhecer ou ter feito SOMAIÊ, mas, em ambos os casos, as pessoas entrarão em contato com o que venho chamando de Anarquismo entre Parênteses, uma evolução do anarquismo somático que desenvolvi na minha época com o Bigode.

Uma coincidência interessante é que tanto a CAPOEIRA como a AYAHUASCA são considerados BENS IMATERIAIS DA HUMANIDADE. A Capoeira foi recentemente tombada pelo IPHAN, e a Ayahuasca está com o pedido em trâmite, sendo que no Peru já é considerada bem Imaterial. Não sei o que será das oficialidades, mas as Teorias da Somaiê (Te&So) já incorporaram essas práticas como benéficas e úteis ao desenvolvimento humano. Apareça e cresça, seja pra conhecer a SOMAIÊ com a capoeira angola ou os PES (AYA).

Outro dia eu estava me preparando pra uma sessão dos PES, tomando uma sauna com a minha namorada e minha filha Cecília, de cinco anos, que falou: "Papai, nada como tudo que a gente queria, né?" Acho que a obra do ex-amigo Freire propunha essa busca hedonista por um cotidiano agressivo e politizado: a ideologia do prazer no cotidiano, do sem tesão não há solução. Acho que no que a Ayahuasca mais me ajuda é a sentir e a me mover no viver cotidiano, propondo novas teorias a Somaiê. É essa a busca e aperfeiçoamento, um refinamento desse prazer. E a sensação de poder responder pra filha (ou pra qualquer outra pessoa): "...é, nada como tudo que a gente queria.".

Rui Takeguma, Maromba, agosto de 2008

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