PES (AyA)

PES (AyA)
Pesquisas e Experiências Subjetivas Anarkia y Ayahuasca Entre Parênteses

62 PES (AyA) em Visconde de Mauá



Neste feriado de 1º de Maio, sábado, faremos em Visconde de Mauá, perto do Poção da Maromba, mais uma sessão de ayahuasca...
Interessados - (24) 9297-4065
http://p.e.s.vilabol.uol.com.br
a partir de agora, os ÂNCORAS (quem participa sem beber) pagam uma taxa de 10 reais para participar das sessões...
Novos - 50 reais (30 aya, 10 entrevista inicial e 10 para o espaço)
e para quem já bebeu nos PES (AyA) - 40 reais (30 aya e 10 para o espaço)

103 ex-virgens em Ayahuasca

103 Ex-virgens de Ayahuasca nos PES (AyA)

Como um dos critérios de pesquisa é saber se a pessoa que vai beber ayahuasca nos PES (AyA) já experimentou alguma vez a ayahuasca, tenho perguntado desde o início sobre o critério VIRGINDADE DE AYAHUASCA. Tenho anotado somente as pessoas que bebem comigo pela primeira vez, mas muitos também o fazem pela segunda ou terceira vez. Poucos das 191 pessoas que passaram pelos PES (AyA) são ayahuasqueiros experientes. Assim, meu ambiente de pesquisa se dá mais em como acontecem as reações primeiras em contextos variados.
Me interessa esse limite simbólico da perda da virgindade, em relação a essa bebida SOMAATIVA, pois como expectativa de uma bebida "alucinógena", "sagrada" o_u "mágica", esse transpor o limite da primeira experiência, para alguns, ultrapassa a expectativa em relação ao ato sexual, por exemplo, no que mais a palavra "virgindade" nos remete.
Assim, a principal característica de se perder a virgindade, se dá no conhecer algo, no aspecto prático e vivencial. Na sexualidade a maior parte das pessoas reproduz o que vive no cotidiano, um repetir monótono, após a perda da virgindade há pouco aprendizado ou crescimento da sexualidade, inclusive alguns viverão uma vida sexual inteira com pouca variação e novos conhecimentos. Como normalmente é o homem quem conduz o ato sexual, mulheres com pouca variedade de parceiros normalmente possuem muito mais conhecimento de formas de fazer sexo que um homem com grande variedade de parceiras que repete a cada nova parceira o "seu jeito". Apesar de esse "jeito individual" de cada um possuir variações, também possui uma forma padronizada e repetida, o que acaba gerando essa sensação de segurança, tornando muito diferente o ato sexual para um "virgem" e para um experiente. Um virgem pode até saber racionalmente o que pode e vai acontecer, mas ainda não viveu a experiência realmente. Quem já fez sexo pode estar mais aberto ou mais fechado a novas experiências, mas sabe a sensação da penetração e seus enlaces.
Vou agora comparar um pouco esse ato de adquirir um NOVO conhecimento com o aprendizado da capoeira angola.
Quando se deseja aprender a capoeira, já é pra estar na roda de capoeira, no jogo, canto e toques. Assim, existe a expectativa da primeira vez que se entra na roda, mas isso é minimizado no estilo angola, onde no primeiro dia o novato é convidado a entrar na roda, fazendo o que aprendeu no dia. No estilo contemporâneo, se cria a expectativa dos cordéis a serem conquistados em eventos com batizados. Mas o que marca a vida de um capoeirista é que cada roda em um local diferente, com mestres e pessoas diferentes, é uma NOVA roda. E que cada jogo que é feito com uma pessoa diferente é uma NOVA expectativa, e por mais que os jogadores sejam experientes, surge algo em que compartilham de uma virgindade, no caso, a primeira vez que jogam com aquela pessoa. Assim, na capoeira, é incentivado essa busca pelo novo, essa busca por jogar com pessoas diferentes, pois essas despertarão diferentes respostas em meu jogo e meu corpo.
Após esse navegar pela sexualidade e capoeira, volto ao tema proposto, a virgindade que observei em mais de 100 pessoas ao beberem ayahuasca. E, a partir da minha prática, que foi não só ver mais de 100 pessoas reagirem a ayahuasca em sessões que coordenei, mas acompanhar de dentro da mesma pesquisa algumas recorrências, como quem bebeu comigo pela primeira vez e depois bebeu mais 30 vezes, em 35 sessões que me viu coordenar, seja de pessoas que perderam a virgindade na ayahuasca comigo há 20 meses atrás e na sua segunda participação comigo já tiveram um experenciar de quase 10 vezes em ambientes diversos.
Assim, esse é um momento de refletir sobre o cruzar a fronteira na ayahuasca, no caso marcando o ocorrido com pessoas que vejo fazendo em vários níveis, e mesmo os que já haviam bebido a ayahuasca muitas vezes não tinham a liberdade pessoal e de contexto para melhor saborear seus efeitos. Assim, de certa maneira, todos somos virgens nas sessões dos PES (AyA), seja pela química da bebida na interação com os corpos, seja no contexto do espaço físico gerando expectativas e interações, seja no curso geral da sessão, suas músicas, falas e ocorridos com outros "navegantes", tudo influencia o aqui e agora das sessões e seu fluir.
Mas a ayahuasca se diferencia mais ainda dessas conjecturas teóricas que abordei, os extremos da percepção, seja por último numa visão filosófica de Heráclito, onde sabemos hoje via física quântica que nunca atravessamos duas vezes o mesmo rio, pois o fluir molecular sempre é novo, seja numa visão tradicional em que se vive uma vez, já se conhece as coisas conhecidas, perdendo a novidade. Ou seja, por mais que eu mude, ou as coisas mudem, transformo permanentemente as coisas em iguais (Wilhelm Reich denominou isso de couraça do caráter). Assim, no caso da ayahuasca, o beber SEMPRE é diferente, e por mais normopatas, encouraçados, e rígidos, a ayahuasca ultrapassa essa sensação de "controle" que pode ser sentido em outras situações de quebra da virgindade. Ou seja, na ayahuasca a relação expectativa versus vivência se mostra como um potencializador do VIVER. Não se pode antecipar a vivência, a experiência, a vida sempre se apresenta NOVA, Heraclitamente percebida ou não, a vida sempre é o novo, e sempre no aqui e agora.
Assim, a experiência química transforma nosso olhar e perceber mais apurado a ponto de sentirmos o que a física quântica ainda engatinha em suas percepções e possibilidades, a possibilidade de perceber como, primeiro, a experiência da "borracheira" é sempre única (borracheira é o nome que alguns ayahuasqueiros definem ser "estar sob os efeitos da ayahuasca"). Cada borracheira é a descrição prática e vívida de que sempre tudo MUDA e a mudança é o fluir da vida. Cada experiência aprendida numa borracheira pode não ser nunca mais esquecida, bem como não servir a nada como segurança para uma próxima borracheira e suas sensações. Assim, ao mostrar na prática como tudo é sempre novo, a experiência da virgindade ser superada não acontece no nível da expectativa da próxima vez, pois se sabe que tudo pode ser novo, e o fato de ter se perdido a virgindade não significa absolutamente nada, pois qualquer pessoa está vulnerável a PEIAS (bad's trips), sejam elas físicas ou racionais, se for possível essa separação.
Brincamos no ambiente ayahuasqueiro que SEMPRE é bom beber ayahuasca. Normalmente pela experiência, mas às vezes por parecer que SOBREVIVEMOS a ela. O que alguns chamam de Peias, podem ter uma expressão física imediata como enjoos, vômitos e caganeiras, bem como confusões mentais que podem ser mais internas ou externalisadas, muitas vezes incomodando o social de quem está próximo à experiência. Esse conhecer antecipado para quem vai beber a ayahuasca, somado a sua própria experiência, transforma o ato de beber em quase que um momento de sofrimento, seja pelo gosto da bebida, seja pela antecipação das possíveis peias advindas de sentir o gosto da bebida (ela entrando em meu ser e potencializando o que sou), como situações difíceis de engolir, isso se projeta antecipadamente para o momento de se beber a bebida. Assim, o gosto da ayahuasca se difere para os virgens dos não virgens. A primeira vez o novato experimenta o gosto da bebida ayahuasca, e da segunda vez em diante o gosto passa a ser da experiência ayahuasca - ou seja, a soma do gosto da bebida com o gosto do que ficou em meu ser.
Curioso que a única das 58 sessões que conduzi que denominei de sessão PEIA, foi devido a interação com uma pessoa que no início da sessão disse que era virgem na bebida, e no final comentou que já havia bebido em contexto religioso. E, por outro lado, uma situação que poderia se caracterizar como a mais problemática se mostrou um aprendizado dos efeitos da bebida e sua força, com um rapaz em BH que bebeu mais que o que lhe foi oferecido.
Enfim, houve momentos interessantes, pitorescos e variados, mas vejo como no geral e nos específicos os efeitos são benéficos. Seja em experiências totalmente internas, com pessoas que nem se mexem durante as 4 a 6h de sessão, como a de uma menina que riu e gargalhou por 4 horas, e no final analisou tudo como um grande orgasmo... Seja numa minoria que retorna e participa mais de uma vez nos PES (AyA), seja quem só participa uma vez, procuro estar atento a absorção e efeitos variados da ayahuasca em seus corpos. E, nesse quesito, é de 100% os efeitos produtivos, que vão desde um relaxar profundo muscular durante a sessão, e que em alguns se prolonga ao dia seguinte, passando por efeitos gastro-intestinais de limpeza e bem-estar e por aspectos emocionais mais superficiais, como sensação de bem estar, insights emocionais (tipo rever rancores e mágoas em situações específicas), insights terapêuticos (tomadas de decisões, ora importantes ou ora superficiais).
Mesmo eu, que estou em meu terceiro ano como coordenador de sessão, distribuindo chá para pessoas em geral, sinto que cada vez que faço alguma sessão ela possui alguma característica de novo. E nesse perceber e interagir entre o INTERNO (fluir da minha borracheira) e o EXTERNO (perceber e coordenar o fluir da borracheira da sessão) segue minha proposta de ARRISCAR pelo NOVO, me dispondo a ser um eterno virgem nesse quesito da segurança das sessões, em relação a fixar espaço, ritual, música, etc. Me arrisco a confiar sempre em como poderei responder a cada nova situação, e nisso incentivo a quem bebe ayahuasca comigo a descobrir e perceber para poder vivenciar e aceitar esse comando interno em meio ao caos externo.
Religiosamente chamamos isso de se conectar a Deus, ou deixar Deus vir a superfície, e nesse momento perdemos os medos e vem a entrega. Essa possibilidade numa sessão dos PES (AyA) acontece devido às entregas individuais, que são favorecidas pela sessão como um todo, mas é de cada pessoa a possibilidade de se entregar e gerar essa percepção da LUZ ou do chamado DIVINO. Muitas pessoas podem usar a ayahuasca e obterem resultados muito diferentes na avaliação da experiência, mas dependerá sempre PRIMEIRO da capacidade individual de se soltar e se entregar fisicamente a bebida e seus efeitos. Essa capacidade nem sempre tem a ver com o desejo de entrega, ou capacidade de entrega a outras situações do viver.
Assim, posso comparar o NOVO de cada sessão com o fluir das sessões passadas, que compartilho com as pessoas, e sobre as quais tenho escrito, incentivando também a escrita por outras pessoas. E anuncio também que, a partir de agora, vou atentar mais para essa minoria substanciosa que são os repetentes, pois apesar de eles constituírem pouco mais que 1/5 dos 191 participantes, são eles que geram eu ter distribuído 378 doses nessas 58 sessões (contagem líquida), ou seja, somando os âncoras (participantes que não bebem mas ficam na sessão), cheguei a 409 pessoas nos PES (AyA) (contagem bruta). Assim, essa diferença se deve a essas 44 pessoas que repetem mais 1x (16 pessoas), mais 2x (8 pessoas), mais 3x (8 pessoas), a pessoas que repetem os PES (AyA) de 5x a 35x (12 pessoas).
Por fim, registro que pessoas experientes na ayahuasca possuem uma forte tendência de gostar/preferir manter a forma inicial que aprendeu a beber ayahuasca. Pode ser por rigidez pessoal ou tendência geral a manter ritos, ou couraças, mas levanto esse quesito como ponto observado a ser registrado. Talvez com mais participantes com experiência em outros ritos eu possa enveredar por essa pesquisa, mas começo a perceber em pessoas que repetem a experiência somente nos PES (AyA) a também cristalizar desejos a partir de sessões anteriores, seja na via musical, ou na estrutura da sessão.
De qualquer maneira fica um marco, na segunda sessão alcancei 10 virgens, na sessão 58 alcanço 103 virgens, em que sessão alcançarei os 1000 virgens?

Rui Takeguma, poção da Maromba em 8 de abril de 2010.

site oficial - http://p.e.s.vilabol.uol.com.br
site de relacionamento - www.somaie.ning.com
blog - www.pesayahuasca.blogspot.com

observação pós publicação (28 de abril de 2010)
Acabei publicando este texto primeiro no NING e agora, 20 dias depois, publico neste BLOG.
Resolvi verificar nas estatísticas dos PES (AyA) essa relação entre VIRGENS na Ayahuasca e o "momento bola-da-vez" (deste início do ano, 3 revistas nacionais e semanais publicando matérias de CAPA, pela publicação no Diário Oficial e assassinato do Glauco). E se comprova o EFEITO POSITIVO da divulgação, pois aumentou a curiosidade e mais pessoas estão experimentando por si, a ayahuasca.
Neste ano de 2010, das 45 pessoas NOVAS que cadastrei, 33 eram Virgens (73 %). No ano de 2008, foram 16 virgens dos primeiros 45 (35%) e ano passado, 2009, foram 14 virgens dos primeiros 45 (31%). Vejam que a diferença não é pequena: DOBROU o número de pessoas que nunca haviam bebido a ayahuasca e tiveram comigo sua primeira experiência...
E neste final de Abril, atualizando os dados do texto acima, em 28 meses que distribuo a ayahuasca, distribuí 401 doses, para 198 pessoas (na contagem bruta, 434 participantes, pois houveram 33 âncoras nas 61 sessões).

61ª PES (AyA) - 8ª de Belo Horizonte





acontece dia 26 de abril, segunda,
as 20h30 na CasaSomática

www.somaie.ning.com

taxa de 45 reais para que nunca participou, sendo q 5 é pra CASA

taxa de 35 reais para quem já participou dos PES (AyA), sendo q 5 é pra CASA

(desconto de 5 reais para quem participa frequentemente, isto é algumas vezes e PARTICIPOU da última em BH)

Pesquisas testam potencial benefício da ayahuasca contra depressão e dependência


Pesquisas testam potencial benefício da ayahuasca contra depressão e dependência
Cristina Almeida,
Especial para UOL Ciência e Saúde

Cepa da alma. Este é o significado etimológico do nome dado à bebida obtida da fervura das plantas Banisteriopsis caapi e Psychotria viridis, a ayahuasca, ou hoasca, também conhecida como chá do Santo Daime. Permitida apenas em cerimônias religiosas, o composto tem sido alvo de pesquisas e pode vir a ser útil para o tratamento da depressão e até da dependência química.

O psiquiatra Jaime Hallak, professor da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) - Ribeirão Preto afirma que, apesar desse grande potencial, o que existe de concreto no momento são estudos preliminares que evidenciam alguns benefícios à saúde. “Os modelos experimentais com animais e os relatos esporádicos com humanos sugerem indicações como antidepressivo e ansiolítico”.

Hallak coordena pesquisas que investigam os princípios ativos da ayahuasca, além dos seus eventuais usos clínicos. Parte desses trabalhos prevê a observação de neuroimagens funcionais para identificar as áreas cerebrais estimuladas pela substância.



“Para pesquisadores em neurociências, a ayahuasca é um instrumento poderoso. Como psiquiatra, entendo que ela é uma rica fonte de estudos, especialmente por sua capacidade de provocar alterações nos estados da consciência”, diz.

“A meta é aprender mais sobre a mecânica biológica que permite ao cérebro criar ou modificar seu funcionamento, dando oportunidade ao surgimento dessas alterações”, acrescenta.

Meditação ou alucinação?
Na opinião do médico Wilson Gonzaga, psiquiatra integrante do grupo multidisciplinar do Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas (Conad), responsável pela resolução que regulamentou o uso religioso da ayahuasca no Brasil, essa é uma importante distinção a ser feita. “Ampliar a consciência não significa ter alucinação em seu sentido pejorativo", explica.

Segundo ele, ampliar a consciência é alcançar um estado mental que permite uma reflexão profunda, semelhante à meditação. Já a alucinação é uma percepção alterada da realidade.

Primeiros estudos
O primeiro e maior estudo realizado sobre a bebida, dirigido pelo especialista em ciências botânicas Dennis J. Mackeena, da Universidade de Minnesota (EUA), relatou que a possibilidade de ampliação da consciência já tinha sido observada antes pelo antropólogo Michael Winkelman, ex-professor da Universidade do Arizona, que definiu essa propriedade como "psicointegradora".

Essa pesquisa, publicada pela revista científica Pharmacologics&Therapeutics em 2004, mostrou que o uso da ayahuasca em comunidades religiosas visava também o tratamento de alcoolismo e abuso de drogas. Consta do estudo que a maioria das pessoas com histórico de dependência e recuperação, atribuía ao consumo do chá essa mudança comportamental.

Naquela ocasião, o pesquisador foi prudente em ressaltar que o fato poderia ser resultado do apoio social e do ambiente psicológico oferecidos pelas comunidades. Entretanto, um detalhe não escapou à sua observação: nos quadros de alcoolismo severo, há alterações nos níveis de serotonina. Concluiu-se, então, que fatores bioquímicos ligados à ayahuasca estariam envolvidos na modificação da qualidade de vida dos usuários. Para ilustrar o assunto, Mackeena referenciou uma notícia veiculada pela BBC News, que citava a ayahuasca como coadjuvante da psicoterapia no tratamento de dependências químicas numa clínica do Peru.

As pesquisas em curso hoje buscam saber como os componentes do chá atuam no organismo, qual é o perfil de seus consumidores, e quais são seus efeitos no comportamento e nas habilidades intelectuais e cognitivas, como diz o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, coordenador do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes (Proad) do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). “Sem resposta para essas questões, é impossível reconhecer a existência efetiva desses poderes curativos”, pondera. Apesar dessa convicção, o médico admite que diversas pessoas abandonaram um quadro de dependência química ao ingressar nessas seitas daimistas.

Riscos
Os especialistas são unânimes sobre o fato de que a bebida não deve ser consumida de forma deliberada. “Não é porque uma substância é natural que o abuso está autorizado. Exemplos disso são a maconha e o álcool”, observa Silveira. Como não se conhecem os possíveis efeitos tóxicos da ayahuasca, nem sua ação sobre o sistema nervoso central em formação, a bebida é contraindicada para crianças e grávidas.

De um modo geral, os especialistas contraindicam a bebida para pessoas com transtornos psiquiátricos. "A atenção deve ser redobrada se a pessoa é portadora de esquizofrenia ou transtorno bipolar, pelo risco potencial de agudização do quadro”, completa Hallak.

A ayahuasca também não deve ser consumida por quem usa antidepressivos. O psiquiatra Luís Fernando Tófoli, professor adjunto da Universidade Federal do Ceará (Ufce), e coordenador da Comissão de Saúde Mental da União do Vegetal, declara que existe um estudo que alerta sobre o risco potencial de uma reação grave, potencialmente letal, na interação entre a ayahuasca e certos inibidores de recaptação de serotonina, como o Prozac. Tófoli acredita que a advertência é exagerada, pois nunca se teve notícia de quadros graves. Por outro lado, faz uma recomendação específica: “A bebida jamais deve ser consumida com medicamento conhecido por tranilcipromina, um antidepressivo pouco utilizado, mas disponível no mercado”.

“Pessoas com doenças físicas graves devem receber quantidades reduzidas ou muito reduzidas, porque pode ocorrer aumento leve dos batimentos cardíacos e da pressão, além da ocorrência de vômitos ou, mais raramente, diarreia”, previne, ainda, Tófoli.

Outra precaução apontada por Hallak é evitar a bebida após o consumo de alimentos que contenham tiramina (queijos, chocolates, carnes em conserva, salsichas, bebidas alcoólicas, lentilha, amendoim etc.). A combinação das substâncias pode resultar no aumento da pressão sanguínea arterial. Quanto aos possíveis efeitos colaterais, o psiquiatra diz que as reações mais comuns são náuseas, vômitos e diarreia.

Indagado sobre quanto tempo ainda seria necessário para a conclusão dos estudos e da eventual comercialização de medicamentos à base da ayahuasca, o especialista declara: “É importante que a população entenda que um dos objetivos mais importantes das pesquisas é conferir segurança ao uso dessa substância. Como todos os estudos ainda estão em sua fase preliminar, estimo que ainda deveremos esperar ao menos 10 anos até que os princípios ativos da ayahuasca possam ser comercializados”, avisa.

SAIBA MAIS SOBRE A AYAHUASCA
O que é - A bebida é obtida através da combinação da planta Banisteriopsis caapi (mariri) e outras ervas que são maceradas ou aferventadas, como a Psychotria viridis (chacrona ou rainha)
Como funciona - A atividade farmacológica da ayahuasca é única, pois depende da interação das substâncias contidas nas plantas. A B. caapi contém os alcaloides harmina, tetra-hidro-harmina (THH) e, em menor quantidade, harmalina. A P. viridis, por sua vez, fornece a triptamina alucinógena de ação ultrarrápida, a N-dimetiltriptamina (DMT). A modulação da DMT é promovida pelos efeitos ativos da B. caapi). E essas substâncias têm como função mais conhecida bloquear a enzima monoaminooxidase (MAO), permitindo que o DMT seja absorvido pelo sistema digestivo. Como elas são psicoativas, possuem efeito sedativo semelhante ao harmano (também conhecido como passiflorina, alcaloide presente em uma outra trepadeira da família do B. caapi, o maracujá)
Efeitos - O consumidor do chá pode vivenciar percepções sensoriais sem estímulos externos. Na maioria das vezes, a pessoa permanece consciente de que está sob efeito da ayahuasca, e mantém controle de suas ações. Indivíduos que fazem uso da bebida regularmente descrevem capacidade de maior compreensão de aspectos espirituais de sua própria vida
Tempo de ação - o consumo de 100ml da bebida requer 30 minutos para entrar na corrente sanguínea e atuar sobre o cérebro. Esse efeito pode durar até quatro horas. Já a sensação de bem-estar e tranquilidade costuma se prolongar, segundo usuários

Fontes: Jaime Hallak, professor do Departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo - Ribeirão Preto (FMUSP-RP) e Luís Fernando Tófoli, médico psiquiatra e professor adjunto de Psiquiatria da Universidade Federal do Ceará (Ufce)

retirado de:
http://noticias.uol.com.br/ultnot/cienciaesaude/ultimas-noticias/2010/04/26/pesquisadores-testam-beneficios-da-ayahuasca-contra-a-depressao.jhtm

http://www.youtube.com/watch?v=IYgJH1U5p6c&feature=watch_response

Parte 1



Parte 2 e fim

Ayahuasca no Jô Soares, terça dia 20

Nesta terça-feira (20/04/2010), o Dr. Wilson Gonzaga será entrevistado por Jô Soares (TV Globo, por volta de meia-noite).

No site do programa (http://programadojo.globo.com/) já se vê a seguinte chamada:

"Nesta Terça-feira: Wilson Gonzaga da Costa, conhecedor e usuário há 27 anos da ayahuasca, participa do processo de legalização e legislação do uso da bebida. Detalhe: ele é médico psiquiatra e psicoterapeuta especializado em tratamento de dependência química. Wilson integra atualmente o Grupo Multidisciplinar de Trabalho do CONAD - Conselho Nacional de Políticas Sobre Drogas."

Divulguem, pois, finalmente, informações corretas sobre nossa preciosa ayahuasca estarão disponíveis na mídia nacional.
Alucinógenos têm médicos Tuning novamente
Por John Tierney
Publicado em: 11 de abril de 2010

Como psicólogo clínico aposentado, Martin Clark estava bastante familiarizada com os tratamentos tradicionais para depressão, Mas seu caso parecia intratável como ele lutava pela quimioterapia e outros regimes fatigante para câncer de rim. Aconselhamento parecia inútil para ele. Assim fez as pílulas antidepressivas que ele tentou.

Nada tinha qualquer efeito duradouro, até que, na idade de 65 anos, ele teve sua primeira experiência psicodélica. Ele deixou sua casa em Vancouver, Washington, para participar de uma experimento na Universidade Johns Hopkins da escola médica envolvendo a psilocibina, o ingrediente psicoativo encontrado em certos cogumelos.

Os cientistas estão tendo um novo olhar sobre os alucinógenos, que se tornou um tabu entre os reguladores após entusiastas como Timothy Leary promoveram nos anos 1960 com o slogan "Turn on, tune in, drop out". Agora, usando protocolos rigorosos e garantias, os cientistas obtiveram permissão para estudar mais uma vez o potencial das drogas para o tratamento de problemas mentais e iluminando a natureza da consciência.

Depois de tomar o alucinógeno, o Dr. Martin colocar uma máscara de olho e fones de ouvido, e se deitou em um sofá, ouvindo música clássica, ao contemplar o universo.

"De repente, tudo começou a evaporar familiar", lembrou. "Imagine você cair de um barco no oceano aberto, e você se virar, o barco e se foi. E então a água acabou. E então você vai embora. "

Hoje, mais de um ano depois, o Dr. Martin créditos que a experiência de seis horas, com a ajuda-lo a superar sua depressão e transformando profundamente seu relacionamento com sua filha e amigos. Ele classifica entre os eventos mais significativos de sua vida, o que faz dele um membro típico de um clube cada vez maior de sujeitos experimentais.

Pesquisadores de todo o mundo estão reunidos esta semana em San Jose, Califórnia, a maior conferência sobre ciência psicodélica realizada nos Estados Unidos em quatro décadas. Eles pretendem discutir estudos de psilocibina e outras drogas psicodélicas para tratar depressão câncer pacientes, transtorno obsessivo-compulsivo, Em fim de vida ansiedade, O transtorno de estresse pós-traumático e ao vício de drogas ou álcool.

Os resultados até o momento são encorajadores, mas ainda preliminares, e pesquisadores alertam contra leitura demasiado destes estudos em pequena escala. Eles não querem repetir os erros dos anos 1960, quando alguns cientistas que virou evangelistas exagerada a sua compreensão dos riscos das drogas e os benefícios.

Como as reações de alucinógenos podem variar muito, dependendo da configuração, os pesquisadores e as placas de revisão desenvolveram diretrizes para criar um ambiente confortável com monitores especializada na sala de lidar com as reações adversas. Eles estabeleceram protocolos padrão para que os efeitos das drogas pode ser avaliada com mais precisão, e eles têm também directamente observados efeitos das drogas por varredura dos cérebros de pessoas sob a influência de alucinógenos.

Os cientistas estão especialmente intrigados com as semelhanças entre as experiências alucinógenas e as revelações de mudança de vida relatada ao longo da história pelos místicos religiosos e aqueles que meditam. Essas semelhanças foram identificadas no neural estudos de imagem realizados por investigadores suíços e em experimentos conduzidos por Roland Griffiths, Um professor de biologia comportamental na Universidade Johns Hopkins.

Em um dos primeiros estudos Dr. Griffiths, envolvendo 36 pessoas com problemas graves físico ou emocional, ele e seus colegas descobriram que a psilocibina poderia induzir os sujeitos experimentais que descreveu como uma experiência espiritual profunda com a duração de efeitos positivos para a maioria deles. Nenhum deles tinha tido qualquer experiência anterior com alucinógenos, e nenhum deles estava mesmo certo que droga estava sendo administrada.

Para fazer o experimento duplo-cego, nem os sujeitos nem os dois peritos acompanhamento deles sabia se as pessoas estavam a receber um placebo, a psilocibina ou outra droga como Ritalin, nicotinaCafeína, ou um anfetamina. Apesar de veteranos da cultura psicodélica dos anos 60 pode ter um tempo difícil acreditar que, o Dr. Griffiths disse que mesmo os monitores de, por vezes, não podia contar a partir de reações de saber se a pessoa tomou psilocybin ou Ritalin.

Os monitores tinham às vezes para consolar as pessoas através de períodos de ansiedade, o Dr. Griffiths disse, mas estas foram geralmente de curta duração, e nenhuma das pessoas relataram qualquer efeito negativo grave. Em um levantamento realizado dois meses depois, as pessoas que receberam a psilocibina relataram melhorias significativamente mais em seus sentimentos e comportamento geral do que os membros do grupo de controle.

Os resultados foram repetidos em outra pesquisa follow-up, tomada 14 meses após o experimento. Nesse ponto, a maioria dos indivíduos psilocibina, uma vez mais expressa maior satisfação com sua vida e classificou a experiência como um dos cinco eventos mais significativos de suas vidas.

Desde Nesse estudo, que foi publicado em 2008, Dr. Griffiths e seus colegas passaram a dar psilocibina para pessoas que lidam com câncer e depressão, como o Dr. Martin, psicólogo aposentado de Vancouver. A experiência do Dr. Martin é bastante típico, o Dr. Griffiths disse: uma perspectiva melhor sobre a vida após uma experiência na qual as fronteiras entre o self e os outros desaparecem.

Em entrevistas, o Dr. Martin e outros assuntos descritos seus egos e órgãos desaparecendo como se sentiam parte de alguns dos maiores do estado de consciência em que as suas preocupações pessoais e inseguranças desapareceram. Encontraram-se analisar as relações do passado com os amantes e parentes com um novo senso de empatia.

"Foi uma mudança de personalidade como um todo para mim", diz Martin. "Eu não estava mais por muito tempo ligado ao meu desempenho e tentar controlar as coisas. Eu podia ver que as coisas realmente boas na vida vai acontecer se você simplesmente aparecer e compartilhe seu entusiasmo natural com as pessoas. Você tem um sentimento de sintonia com outras pessoas ".

Os relatórios dos sujeitos espelhado tão intimamente as contas dos religiosos experiências místicas, o Dr. Griffiths disse que parece provável que o cérebro humano é ligado a passar por estes "unitivo" experiências, talvez por causa de alguma vantagem evolutiva.

"Esta sensação de que estamos todos juntos nisso pode ter beneficiado as comunidades, incentivando a generosidade recíproca", disse o Dr. Griffiths. "Por outro lado, o amor universal nem sempre é adaptativa, quer."

Embora os reguladores federais retomaram a concessão de autorização para experimentos controlados com drogas psicodélicas, houve pouco dinheiro público concedido para a pesquisa, que está sendo realizado na Johns Hopkins, a Universidade do Arizona; Harvard; Universidade de Nova York; da Universidade da Califórnia, Los Angeles; e em outros lugares.

O trabalho tem sido apoiado por grupos sem fins lucrativos, como a Heffter Instituto de Pesquisa e MAPS, Da Associação Multidisciplinar para Estudos Psychedelic.

"Há uma aproximação entre ciência e espiritualidade", afirmou Rick Doblin, o diretor-executivo da MAPS. "Nós estamos esperando que o mainstream ea comunidade psicodélica podem se encontrar no meio e evitar outra guerra cultural. Graças às mudanças ao longo dos últimos 40 anos na aceitação social do hospício circulação e ioga e meditação, a nossa cultura é muito mais receptivo agora, e nós estamos mostrando que estas drogas podem proporcionar benefícios que os tratamentos atuais não podem. "

Os investigadores estão relatando o sucesso no uso de psilocibina preliminar para aliviar a ansiedade de pacientes com doenças terminais. Dr. Charles Grob S., Um psiquiatra que está envolvido em um experimento em U.C.L.A., Descreve-o como "medicina existencial" que ajuda a morrer as pessoas a superar o medo, pânico e depressão.

"Sob a influência de alucinógenos", Dr. Grob escreve, "as pessoas transcendem a sua identificação primária com seus corpos e estados experiência ego livre antes da época de sua morte física real, e voltar com uma perspectiva nova e profunda aceitação da vida constante : mudança. "

Uma versão deste artigo apareceu na imprensa em 12 de abril de 2010, na A1 página da edição de New York.

http://www.nytimes.com/2010/04/12/science/12psychedelics.html?th&emc=th (original)

traduzido no automático da barra de ferramentas do Google
Comentários Libertários sobre a Ayahuasca e seu momento "bola da vez" da mídia - (terceira e última parte - doenças mentais ou doentes mentais)


Vou procurar finalizar essa sequência de textos, sob o mesmo título, mas dividido em 3 partes. Comecei a escrever no contexto de revistas semanais falando absurdos que envolvem o ambiente ayahuasqueiro e que me afetam pessoal e profissionalmente. Este ano vou completar 20 anos que atuo no ambiente da Somaterapia, no meu viés chamada de SOMAIÊ, que utiliza do legado de médicos-psiquiatras criadores da Antipsiquiatria na década de 60. Esse viés alternativo da psiquiatria gerou, pela primeira vez na história, reversão de casos de esquizofrenia através de mudanças paradigmáticas na abordagem das chamadas "doenças mentais". Modificou inclusive a forma clássica de internamentos psiquiátricos, acabando com as prisões-chiqueiros que eram os locais destinados a "tratar" (leia-se isolar da sociedade e família) os "doentes mentais". O Pinel, no Rio de Janeiro, de nome de uma instituição virou sinônimo de loucura. Curioso como Philippe Pinel foi considerado um grande inovador da Psiquiatria por se opor a se acorrentar os "doentes mentais". (*1)
A antipsiquiatria mostrou que esta "doença" é uma resposta sensível a um condicionamento social e cultural de uma sociedade, esta sim podendo ser considerada doente. O poder político reacionário (direita e esquerda brigando por poder lá de cima, em vez de gerarem um poder que venha de baixo, do indivíduo pro social) somado ao poder econômico da indústria farmacêutica (que produz medicamentos que amenizam os efeitos dos inúmeros níveis de "doença mental"), foram fortes influências para que a força da antipsiquiatria fosse desviada de seus conceitos originais (questionar a doença e sociedade), e absorvida (muitas vezes equivocadamente, indo pro extremo oposto de tirar o apoio social para as famílias que precisam de um atendimento psiquiátrico paternalista) de forma superficial, que é a proposta antimanicomanial e outras mudanças no tratamento psiquiátrico.
O momento presente é sempre palco de evoluções e transformações tecnológicas mais avançadas que o passado. Porém, cada vez mais em menos décadas há mudanças mais radicais, assim, uma pessoa quanto mais velha, mais viu o nascimento de tecnologias novas e revolucionárias. No meu caso, meu pai viu o nascimento da televisão e seu poder de informação, eu vi o nascimento da Internet e sua rede mundial de trocas de informação e minha filha já nasceu nesse ambiente em que televisão e Internet já são seu passado. Três gerações que convivem e tiveram influências radicais em inúmeras áreas, seja no ver um homem andar pela Lua ou ver um robô sambar em Marte, mas que no quesito de ENTENDER O HUMANO, seu comportamento ou psiquê, ainda estamos numa sociedade que segue a oficialidade de conceitos criados há mais de 100 anos e que possuem inúmeros outros caminhos e abordagens que não são adotadas oficialmente. Acho compreensível, por exemplo, que pessoas e cultos considerem a televisão uma besta, coisa do diabo e argumentos por aí; isso é uma opção e direito individual, mas seria incabível um Estado considerar isso e criar leis impedindo a existência de conglomerados usando essa tecnologia (como essa idéia é tão obtusa, os Estados autoritários procuram censurar e controlar esses meios de circulação de informação, como a censura da TV na Venezuela e a censura da Internet na China). Mas, ao adotar uma visão oficial-legal sobre o homem e suas mazelas de comportamento delegando à PSIQUIATRIA o definir formas e abordagens oficiais é, como nessa comparação exagerada, perceber como se estivéssemos vivendo numa sociedade na qual a TV e a Internet fossem proibidas. (*2) Isso é a Psiquiatria atual: um equívoco do passado, que ainda é aceito. (*3)
Recomendo a todos que assistam o documentário The Corporation, dirigido por Mark Achbar, Jennifer Abbott e Joel Bakan. Este documentário descreve, com uma boa crítica e bastante detalhes, a história da corporação e vai mostrando seus mecanismos de atuação, do ponto de vista político. Como sou crítico a Psiquiatria tradicional, não gosto da opção do roteiro de comparar as corporações a pessoas, para daí fazer uma avaliação psiquiátrica. Mas aqui se torna um bom exemplo, pois o filme explicita, e em detalhes, como as corporações (não todas, mas a maioria absoluta) poderiam ser enquadradas como DOENTES MENTAIS, esquizofrênicas. Isto é, vivemos numa sociedade dividida, fruto de uma cultura dividida, por consequência de no processo da educação dividirmos nossos filhos, que mantêm e perpetuam esse mecanismo de divisão, de esquizofrenização. (*4)
Gosto do exemplo histórico de sobrevivência de Galileu Galilei frente ao poder de sua época, diferente do que aconteceu com Giordano Bruno. Em 17 de fevereiro de 1600, G. Bruno é queimado vivo pela Inquisição (leia-se religião católica) por sua trajetória herética e libertária, e por defender a visão de Copérnico (de que é a Terra que gira em torno do Sol, ao contrário do que a Igreja defendia). Quando em 1632 G. Galilei publica Um Diálogo sobre os Dois Principais Sistemas do Mundo, novamente defendendo a tese de Copérnico, é processado pela Inquisição e seu livro ficou no Index Librorum Proibitorum por mais de 200 anos.
Para fugir da morte, Galileu assina um documento no qual diz aceitar a tese de Ptolomeu, de que é o Sol que gira em torno da Terra. Mas o que me interessa desse processo, é que ficou na história o fato de depois de ter assinado, e na frente da Inquisição, ter dito que ele pode ter assinado, mas é a Terra que gira... Isto é, a Inquisição não queria a mudança de opinião pessoal, e sim a assinatura oficial de que ele mudou de opinião, mesmo que explicitamente não o tenha mudado. Essa divisão hipócrita que a Igreja aceitou é o que continua a se processar na modernidade. Culturalmente a sociedade aprendeu com esse exemplo que uma coisa é a crença e o viver individual, e outra é a sinceridade (ou falta de) do viver social/político.
Recentemente um senador americano saiu do armário, assumindo sua homossexualidade (não por desejo, mas foi flagrado saindo de uma boate gay com um jovem rapaz). O interessante é que em todas as votações ele se colocava contra a homossexualidade. ENFIM, relatar hipocrisias e falsidades, tanto históricas como recentes, seria INFINDÁVEL, pois vivemos numa sociedade hipócrita, que precisa de hipocrisia pra manter sua estrutura de desigualdade e injustiças. A questão é como criar contra estratégias no viver, o que venho fazendo e propondo há 20 anos dentro da Somaterapia/Somaiê, e agora (3 anos) também no ambiente ayahuasqueiro.

A atual Lei 11.343/06, que entrou em vigor no Brasil em outubro de 2006, é um exemplo jurídico dessa hipocrisia social. Juridicamente é uma lei ilegal, isso é, pra atender interesses secretos viola os princípios da lesividade (ou ofensividade), da proporcionalidade (ou razoabilidade), da isonomia, da culpabilidade pelo ato realizado, da legalidade, e viola a garantia do estado de inocência (ou presunção da inocência). Enfim, uma lei que repete violações a princípios e normas consagradas nas declarações universais de Direito e nas Constituições democráticas, como a Constituição Federal Brasileira, sendo afastadas a universalidade, a superioridade e a efetividade dos direitos fundamentais e de suas garantias. (*5) Mas, independente de conhecimento jurídico (que não possuo), vejam a situação:
- o Estado considera que quem esteja usando DROGAS, seja considerado DOENTE e DEPENDENTE. Se alguém é pego fumando maconha pela polícia, esta avalia a quantidade que se está portando. Se tem pouco, para consumo próprio, é liberado sem problemas (atualmente). Se tem muito, é traficante e vai preso. Mas porque ir preso por transportar ou vender algo a alguém doente?? Ou porque o Estado não faz esse papel (no próprio EUA que gerou essa política internacional proibicionista, isso acontece, a possibilidade da maconha para doentes - e maconha de melhor qualidade que a nossa)?? Isso é, não se pode plantar maconha (senão vai preso e se perde a propriedade do terreno e/ou casa em que se plantava), nem se vender, mas fumar pode?? De onde aparece a maconha que está em pouca quantidade?? De um ato mágico, ou de uma hipocrisia jurídica de que se pode usar algo que não se pode comercializar ou plantar... Isso é, voltando ao que comento na observação *4, estamos acostumados a ver as situações e não refletir/pensar sobre elas... (*6)
Gosto de citar a maconha, pois além de a usar por mais de 20 anos, sei que o maior problema que ela me deu foi a quantidade de vezes que subornei policiais por ser pego fumando. Sei que ela é a grande hipocrisia da vertente do Santo Daime que a aceitam, inclusive de forma sagrada, mas que oficialmente são obrigados a negar. Sei que ela é o grande bode expiatório das famílias brasileiras, mas devido a hipocrisia legal nem se pode ter estatísticas sérias de quantos a usam. Na reportagem da revista Veja, o avô do assassino do cartunista e Padrinho do Daime Glauco Vilas Boas cita que 90% dos jovens usa maconha. Mesmo que seja somente uma opinião pessoal, mesmo que pra tentar atenuar a sua hipocrisia de aceitar a idéia de que 90% sejam ilegais pra justificar a ilegalidade (de usar maconha) de seu neto, acho que no mínimo 50% usa ou experimentou e não vê problemas em seu uso (por conviver com usuários). Os reais responsáveis pelo tráfico de entorpecentes são os SENADORES e DEPUTADOS, pois poderiam mudar uma lei e DESLEGALIZAR as drogas, isto é, retirar das leis essa questão de uso e opções individuais de alimentação. Mas, começando pelas alianças políticas e subornos pessoais, tanto essa Lei quanto o nosso viver delegado a representantes são aspectos desse viver hipócrita que aqui denuncio. E a aceitação coletiva de leis hipócritas é que de uma certa maneira incentiva a esses políticos a manterem seus discursos e ações. A indústria do cigarro/tabaco não quer concorrência com a maconha, que faz muito menos mal a saúde, porém ainda se encontra, em nosso país, na categoria crime. Imagine a força econômica de subornos e apoios políticos. Se a maconha se liga ao restante da criminalidade é somente ao fato de serem os mesmos vendedores. Não uso e nem gosto da cocaína (e se não gosto é que já experimentei para dizer), porém considero ela na mesma situação de marginalidade. Imagino quanto desses jornalistas que estão criticando a ayahuasca na imprensa não fazem uso de drogas ilícitas, mas como o político americano que citei acima, não saem do armário (das drogas) por hipocrisia social. Temos de ver tantas mentiras vindo pela mídia o tempo todo, se um filho de um político famoso morre por excesso de uso de cocaína, como foi com o filho do Toninho Malvadeza (ACM), se compactua socialmente e midiaticamente e se publica que morreu do coração. Se uma pessoa não famosa, que morreria do coração por problemas de nascença, morre do coração, vão tentar culpabilizar uma bebida e ritual religioso que ele frequentava...

Retornei ao tema DROGAS ilícitas, pois, apesar de a Ayahuasca estar legalizada (e sempre procuro lembrar: ayahuasca pode e maconha não, isso é uma contradição legal e hipócrita), ela está sendo alvo de críticas que no fundo tendem a manter uma VERDADE LEGAL HIPÓCRITA e sem bases científicas. Como citei na primeira parte, o DMT (dimetiltriptamina) é considerado uma droga ilegal e proibida em inúmeros países. Mas é fabricada por nosso corpo. A maconha foi condenada por problemas de repressão à comunidade espanhola nos EUA e por questões econômicas com a Dupont, fábrica de tecidos sintéticos que queria tirar o uso do canhâmo da indústria têxtil. Nesse jogo político se constroem argumentos falsos para credibilizar essas falcatruas das Corporações e seus políticos comprados. (*7) Mas trago essas informações para trazer a TESE da SOMAIÊ, de que o problema das drogas não são elas e sim seus usuários. Como se usa e para que se usa.
A mídia gosta de sensacionalismo e em vez de somaativo, ou psicoativo, usa o termo alucinógeno pra nomear a ayahuasca. Mas o OXIGÊNIO também é alucinógeno, se usarmos essa mentalidade estreita da oficialidade que retrata uma visão mecanicista e reducionista da realidade e viver. Talvez alguns digam: - Mas como? Esse cara enlouqueceu, de onde tirou isso, nunca ouvi falar, qual revista ou canal de televisão mostrou isso?? Como as revistas e televisões trabalham com o que os anarquistas chamam de consenso fabricado, só se divulga o que interessa à manutenção dos sistemas hipócritas. Desde o estudo de Wilhelm Reich, que gerou a bioenergética e seus exercícios respiratórios (depois muito difundido por discípulos do OSHO - que bebeu da fonte em W. Reich), ou especificamente o psiquiatra Stanislav Grof que usou o LSD (ácido lisérgico, "alucinógeno" muito usado a partir da década de 60, conhecido pela juventude como Doce - apesar de hoje em dia os Doces possuirem muito mais anfetaminas que LSD) como tratamento terapêutico e pesquisa de expansão da consciência e depois substituiu a droga por uma forma de respiração, que denominou holotrópica.
Mas não precisa referências teóricas ou confiar nessas fontes, quem queira pode experimentar por si mesmo. Não recomendo a qualquer um fazer isso sozinho, mas de qualquer maneira a receita é muito simples: aumente muito a sua respiração, forçando a entrada de oxigênio a mais na corrente sanguínea que o necessário. Quando fazemos alguma atividade física forte nossa respiração se adequa e busca naturalmente essa respiração mais forte. Mas se, sem precisar, estando por exemplo sentado ou deitado sem esforço físico, começarmos a fazer esse tipo de respiração, EM POUCOS MINUTOS, atinge-se um estado que pode ser chamado de alucinógeno, com inúmeras respostas corporais e mentais, pois a hiper-ventilação pulmonar eleva o nível de oxigenação cerebral, daí seus efeitos. Muitas atividades físicas produzem "baratos" parecidos, seja danças, ou técnicas terapêuticas, inclusive a capoeira, sempre dependendo DA FORMA E CONTEXTO que é feita essa respiração. Será que divulgando isso, algum reacionário irá propor um controle sobre a respiração?? Ou a proibição do oxigênio?? Parece absurdo, mas vejam o que fizeram com a masturbação ou onanismo (*8), na história das ciências, no Adendum que acrescento no final.
Existem outras ervas naturais muito mais poderosas que a maconha, como a Sálvia divinorum, que, por estar fora da lei (como proponho para as drogas em geral), não é de uso ilegal, inclusive é possível comprar através da Internet. Ou o Kambô (ou kampô), conhecido veneno de sapo e usado por indígenas, também de uma psicodelia tremenda, porém alegal, ou deslegal, enfim, fora da lei. Ambas, e várias outras, tem tido um crescimento de seu uso em ambientes urbanos. A própria água (H2O), fonte de vida e fundamental para o nosso viver, se usada incorretamente pode matar: se forçar alguém a beber 7 litros de água no mesmo dia, é morte certa. Assim, como dois quilos de açúcar no mesmo dia (para uma pessoa de uns 80 kg) é mortal.
Assim, afirmo, a questão não está nas COISAS EM SI, como ayahuasca, maconha, oxigênio ou água. Mas como ME RELACIONO COM AS COISAS. Lembro da genial frase de Yoko Ono: "Droga pra mim, é o segundo copo de água, depois que o primeiro matou a sede". Essa é a chamada visão funcionalista (terminologia de Wilhelm Reich), ou visão sistêmica (terminologia de Humberto Maturana), ou ainda visão complexa (terminologia de Edgar Morin) e que coincide com os estudos da física quântica e suas conclusões de perceber a importância do OBSERVADOR no processo da observação.

Finalmente posso chegar no tema da antipsiquiatria somática em relação a doença mental. Não existe doença mental, pois a coisa em si não existe. Os nomes e terminologias psiquiátricas pra tentar definir e categorizar os comportamentos não passam disso: nomes e terminologias. Talvez no futuro as ciências cheguem a mesma conclusão na área da doença mental que hoje temos com a masturbação. Logo volto ao assunto.
Em 1967, um renomado psiquiatra, David Cooper, assume uma revolução na Psiquiatria com o livro Psiquiatria e Antipsiquiatria: "Não obstante, ainda é quase revolucionário sugerir que o problema não reside na chamada "pessoa doente", porém na rede de interações de pessoas, particularmente sua família, da qual o paciente admitido, por um truque de prestidigitação conceitual, já foi abstraído. Dito em outras palavras, a loucura não se encontra "numa" pessoa, porém num sistema de relacionamento em que o "paciente" rotulado participa: a esquizofrenia, se é que significa alguma coisa, constitui um modo mais ou menos característico de comportamento pessoal perturbado. Não existem esquizofrênicos. A abstração usual de uma "pessoa doente" do sistema de relacionamento em que se acha imediatamente presa deforma o problema e abre caminho à invenção de pseudoproblemas, classificados e analisados causalmente com absoluta seriedade, quando todos os problemas genuínos se esvaíram despercebidos, através dos portões do hospital (juntamente com os parentes que se foram)." A partir dessa linha se desenvolveu uma nova ciência que foi esquecida, tanto pela morte prematura de alguns antipsiquiatras, como pelo poder dos sistemas econômicos: se não existe a doença, que fazer com a indústria farmacêutica e seu poder nos Congressos e nas escolas de Medicina? Mais de 50% dos médicos de hoje são simples representantes indiretos dessa indústria poderosa, que inclusive MAIS GERA DOENÇAS, QUE AS CURA. Vejam a iatrogênese, isto é, as doenças causadas pela medicina.
É importante lembrar que afirmar que as doenças mentais e os pacientes insanos não existem não significa que não haja a conduta pessoal apresentada pelas pessoas classificadas como mentalmente doentes, ou algum tipo de perturbações sociais a eles atribuídos. Inclusive alguns casos de acertos entre medicações psiquiátricas e mudanças de comportamento são utilizadas a confirmar esse estigma da existência da doença mental. E a grande maioria se ilude com isso, passando por cima de ver com seus olhos os malefícios maiores produzidos por essa imensa "indústria da doença mental". Quem estuda a antipsiquiatria percebe facilmente esses mecanismos, mas como essa abordagem está afastada do consenso fabricado a se divulgar, as pessoas só conhecem as teses tradicionais da psiquiatria e medicina.

O exemplo de Galileu se torna importante pois vivemos num círculo vicioso: aprendemos para sobreviver a não confiar em nossa percepção e sentir, e acabamos delegando a profissionais que (muitas vezes ingenuamente) acreditam nessas formas autoritárias de controle e tratamento, que chamamos em geral de VIVER. Assim, na adequação social, aprende-se a HIPOCRISIA como a principal ferramenta de sobrevivência no social. Hoje em dia a ciência médica aceita com bons olhos a masturbação, inclusive incentivando a sua prática. Não só como forma de conhecimento de seu próprio corpo, mas que isso intensifica e melhora a produção hormonal. Mas, por mais de 200 anos foi considerada um MAL pela Psiquiatria e ciências oficiais. E por mais que a medicina tenha mudado de opinião, provando o contrário que acreditava, isso ainda não chegou totalmente ao senso comum, principalmente pela força reacionária das religiões no âmbito da sexualidade. Enfim, em pleno século XXI, vejo jovens que procuram a Somaiê e tem medos e preconceitos quanto a masturbação e sexo. Alguns ainda sentem peso da culpa, ou por se deixarem se iludir de que a masturbação tem de acabar quando se inicia a vida sexual adulta, e ocasionalmente alguns que não praticam sem perceber as forças pedagógicas que influíram nessa aberração: não aceitar, tocar e sentir prazer de seu próprio corpo.
Ano passado debati virtualmente (http://somaie.wordpress.com) com um ex-somaterapeuta que após formado resolveu mudar política e cientificamente, enfim, optou pela psicologia tradicional. Numa tentativa de argumentar suas ações, produziu um tratado de mentiras e absurdos (http://somaterapia0.wordpress.com). Acusa a SOMA de Roberto Freire de besteiras bem superficiais, e chega ao cúmulo de acusar a técnica de produzir surtos psicóticos. Sem falar que em seu texto reacionário defende inclusive o direito a virgindade, indo na contramão da revolução sexual. Pessoas como esse Fábio Veronesi são a oficialidade do reacionarismo hipócrita do sistema que aqui critico. São as pessoas que se consideram competentes pra lidar com a "doença mental". No meu ver, são esses profissionais que criam a "doença mental", para se manter profissionalmente a custa dela...
Falei da Masturbação, que é um exemplo da ditadura da MENTE racional versus o corpo sensorial (este quer prazer e aquela justifica motivos para não atender essas necessidades), mas é somente um exemplo a mais da clássica luta entre os poderes. O quanto o homem negro foi e ainda é inferiorizado pelo homem branco. O quanto o judeu foi execrado na história da humanidade e agora é o Estado de Israel que o faz em relação a Palestina. O quanto o homossexual foi condenado e agora, em alguns países, consegue direitos como os do heterossexual. Aproveito alguns dados históricos com esses temas ligados a DOENÇA MENTAL para que cada um possa ter mais informações sobre como a história da Psiquiatria se baseia em erros e equívocos, por isso acrescento um ADENDUM retirado de partes do livro A Fabricação da Loucura - um estudo comparativo entre a Inquisição e o movimento de Saúde Mental, do psiquiatra Thomas S. Szasz e que pontua alguns exemplos de Anti-semitismo sistemático na Espanha e na Alemanha, nas caças às bruxas na Europa, na escravidão negra e na perseguição moderna do mentalmente doente. Aqui um trecho do livro: "Existe uma semelhança fundamental entre a perseguição de indivíduos que praticam atividade homossexual consentida, e em particular, e as que ingerem, injetam ou fumam várias substâncias que influem em seus sentimentos e pensamentos - e a perseguição tradicional de homens por sua religião, como os judeus, ou por sua cor de pele, como os negros. O que todas essas perseguições têm em comum é que as vítimas são perseguidas pela maioria, não porque participem de atos manifestadamente agressivos ou destrutivos, como roubo ou assassinato, mas porque sua conduta ou aparência ofende um grupo intolerante com relação as diferenças humanas e é por estas ameaçado." Quem deseje mais informações, sugiro do mesmo autor O Mito da Doença Mental, em que procura mostrar como o conceito de doença mental é errado e enganador. Esse meu texto são somente comentários indignados de um ayahuasqueiro, maconheiro e punheteiro, que atua como somaterapeuta há muitos anos, mostrando em seu viver e para seus terapeutizados que um dos caminhos da saudabilidade é enfrentar as hipocrisias sociais e ter energia e estratégia para isso. Sou também professor de capoeira e acompanho as dificuldades do povo negro, bem como sou um heterossexual que aceita e defende a possibilidade da homossexualidade e pan-sexualidades.
Para não falar que só falei mal da Psiquiatria de antigamente, veja uma declaração de um psiquiatra alemão de 1859, Heinrich Neumann, que sustenta que não há vários tipos de doença mental, mas apenas uma, declara: "Finalmente, chegou o momento de deixarmos de procurar a planta, o sal ou o metal que (...) irão curar a mania, a imbecilidade, a insanidade, o furor ou a paixão. Nunca serão descobertos a não ser que se descubram pílulas que transformem uma criança desobediente numa criança de boas maneiras, um homem ignorante num artista hábil, um camponês grosseiro num cavalheiro gentil. Podemos esfregar os pacientes com óleos do mártir até (...) descobrir mais mártires do que a Inquisição espanhola - e ainda estaremos diante do fato de que não estamos sequer um passo mais perto da cura da insanidade. As atividades psíquicas do homem se transformam, não por remédios, mas por hábito, instrução e esforço."

Outro ponto é o uso político desse conceitos pra juridicamente fugir das prisões tradicionais em troca de manicônios, o que deve fazer a defesa do assassino que gerou essas matérias recentes na mídia (*9), recomendo sobre o tema, que se assista o filme Querem me Enlouquecer (no original Nuts) de 1987, com direção de Martin Ritt, com Barbra Streisand e Richard Dreyfuss, que mostra muito bem, além do mecanismo acima, o preconceito social à prostituição por opção, além de explicitar as mazelas ocultas de muitas famílias: abuso sexual no seio da família burguesa tradicional.

Este texto não se propõe a uma conclusão final. Quis comentar e trazer mais informações para cada um questionar seus caminhos, confirmando idéias ou se abrindo a mudanças (afinal a antipsiquiatria nasceu de psiquiatras). Na visão que sigo hoje em dia como somaterapeuta da Somaiê e como coordenador de Sessões de ayahuasca, proponho um pensar e perceber a importância da corporalidade, um buscar uma unidade entre o racional e o emocional, pois este está sempre no aqui e agora, e o racional foi, pelo contrário, educado a fugir desse aqui e agora. De certa maneira somos todos esquizofrênicos, isto é, divididos, pois somos fruto e mantenedores de uma sociedade dividida, como elos de uma corrente que se propaga. Fica a opção individual de se romper com esses elos, e isso acontece a medida que cada um começa a buscar a sua unidade, integridade biológica e energética.
Enquanto houver psiquiatras que acreditam em doença mental, haverá pacientes (ou família) que aceitarão esse rótulo. Assim como na Idade Média se acreditava em bruxas e feitiçaria (*10). Em vez de queimar vivo na fogueira, hoje em dia, se dão choques elétricos, insulínicos, além dos remédios que produzem os mesmos efeitos. O português Egas Moniz inventou a lobotomia pré-frontal na Psiquiatria em 1935, e chegou a receber o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina por esse tratamento com esquizofrênicos em 1955. Anos depois, a Academia do Nobel percebeu o erro e retirou o mérito, pela primeira vez recuando sobre uma premiação. Enfim, em 500 anos melhoramos um pouco, da morte à transformação em zumbis ou imbecis. Quem sabe na evolução futura da cultura do bicho homem isso melhore e se transforme, mas, a meu ver, um começo é perceber que a história ontológica de cada indivíduo se adequando ao meio social é quem produz esses desvios de comportamento, que muitas vezes se tornam crônicos e irreversíveis (incuráveis) devido ao tratamento psiquiátrico ATUAL.
Não é a ayahuasca quem produz surtos psicóticos, isso afirmo categoricamente. O que não impede que qualquer coisa, e em qualquer ambiente, alguém possa chegar num limite de comportamento e romper esse tênue limite que a psiquiatria e o senso comum chamam de loucura. O que também não impede que quem queira acreditar que a ayahuasca produzirá surtos isso não possa acontecer no universo daquela pessoa. Mas ao procurar ver, mas ver realmente - sem as máscaras hipócritas automáticas - o contexto e os motivos, possamos ter outro encaminhamento a essas pessoas.
Ciências e religiões são palavras. Palavras que servem de argumento para o racional humano justificar atitudes e formas de lidar com a realidade e seus semelhantes. A Inquisição teve seu tempo, foi poderosa e hoje é mal vista. Quem sabe essa visão psiquiátrica tradicional em breve terá o mesmo destino... (*11)

(fim da terceira e última parte)

Rui Takeguma, poção da Maromba em 16 de abril de 2010.

site oficial - http://p.e.s.vilabol.uol.com.br
site de relacionamento - www.somaie.ning.com
blog - www.pesayahuasca.blogspot.com


Observações:

(*1) Matéria no jornal O Estado de São Paulo, em 24 de março de 2010: "Serviços de saúde regulamentados em 2002 para substituir as internações em grandes hospitais psiquiátricos registram em São Paulo falta de profissionais e acompanhamento inadequado de pacientes, como ausência de planos individuais de tratamento e de controle sobre efeitos de medicamentos utilizados" por Fabiane Leite. Enfim, o que mudou nessa área marginal da cultura???

(*2) Lógico que mesmo em países democráticos a TV está na mão de quem tem o poder econômico, mas cito o exemplo da proibição da existência do meio TV, como se nem os poderosos pudessem ter acesso a isso. O que para quem entende o funcionamento da atual "democracia", percebe como isso seria impossível, pois é quem tem o poder econômico que comanda as eleições e seus eleitos. Ou, Citando Emir Sader na Revista Caros Amigos de janeiro de 2009: Transitamos da ditadura à democracia, do ponto de vista político, jurídico e institucional, mas a estrutura de poder no sistema bancário, na estrutura da industrial, comercial, agrária, midiática (grifo meu), não apenas não se democratizou, como se tornou mais concentrada, mais ditatorial.

(*3) Declaração de Brock Chisholm, secretário geral da Organização Mundial da Saúde das Nações Unidas em 1946: "Juntamente com outras ciências humanas, a Psiquiatria precisa agora decidir qual deve ser o futuro imediato da espécie humana. Ninguém mais pode fazer isso. E esta é a responsabilidade fundamental da Psiquiatria."

(*4) Existem inúmeras formas que isso acontece, mas basicamente passam por dois mecanismos: primeiro se divide o corpo, priorizando a mente racional acima da nossa disposição emocional para o agir; e com isso nos abrimos ao segundo ponto, de sairmos do aqui e agora do viver, e se perder em projeções futuras e passadas do mental. Isso acontece pela educação familiar, depois educação religiosa (que propõe uma nova divisão - o espiritual), por fim a sociedade e cultura se apóiam e mantém essa forma de iludir a realidade. O médico e psiquiatra José Ângelo Gaiarsa detalha isso muito em seus livros, mostrando como o processo se fortalece na diferença entre o OLHAR e o ESCUTAR. Desde crianças, acostumamos a ouvir coisas que não batem com nosso sentido da visão. Do seu livro Reich 1980, página 126-128, 3a edição:
"A sociedade nos obriga:
- A VER coisas QUE NÃO EXISTEM, como o interesse dos poderosos pelo povo, a pureza dos sacerdotes, a grandeza das mães, o mal da rebeldia, o prêmio da honestidade e tantas outras declarações semelhantes, cheias de incertezas e exceções, apesar disso propostas como verdades universais, eternas e incontestáveis. A força desta lição coletiva (da coação coletiva) está no acordo tácito dos demais, que se mostram dispostos, a julgar pelas aparências (pelo que é aparente, pelo que se VÊ) a agir de acordo com o orador, se as circunstâncias assim o exigirem.
- a sociedade nos obriga também a NÃO VER o que EXISTE. (...) Se o lacaio disser o que viu no Palácio, a Realeza deixa de ser Real. Se a doméstica disser o que viu na casa rica, o rico vira um qualquer. Se uma criança se propusesse a dizer tudo o que vê em casa, nas suas relações familiares, seria fortemente repreendida e castigada. Aquilo que mamãe acredita ser, que ela DIZ ser, que ela acha que DEVE ser, relaciona-se precária e aleatoriamente com aquilo que realmente ela faz.
Ponto crítico: as crianças, creio que entre os três e oito anos de idade, sofrem um dos conflitos mais fundamentais e mais angustiantes da vida (de todos): ACREDITO NO QUE VEJO (OLHOS) ou ACREDITO NO QUE ME É DITO (PALAVRAS)?
(...)Temos, pois, bem no coração do pacto social, uma hipocrisia coletiva, como diriam os radicais; ou uma conveniência, uma convenção ou um contrato (jurídico), necessário à organização dos grupos; esta a fórmula usada pelos moderados...
NADA MAIS LOUCO QUE O BOM COMPORTAMENTO"

(*5) Vejam texto de Maria Lucia Karan no livro (Editado pela Universidade Federal da Bahia e apoiado pelo Ministério da Cultura) Drogas e Cultura: novas perspectivas, de 2008, Organizado por Beatriz Caiuby Labate, Sandra Lucia Goulart, Mauricio Fiore, Edward MacRae e Henrique Carneiro.

(*6) Para quem questione meu argumento e coloque que também se aceita que se plante em pouca quantidade para consumo próprio (o que quase não acontece frente a paranóia que se mantém sobre a criminalização), eu continuo afirmando a contradição legal, de podermos usar algo que não pode ser comercializado...

(*7) em 1938, Harry F. Anslinger, comissário de narcóticos nos Estados Unidos: "A Seção de Narcóticos reconhece o grande perigo da maconha, pois nitidamente prejudica a mentalidade e o seu uso contínuo leva diretamente ao asilo de alienados." Curioso como hoje os EUA estão cada vez usando mais a maconha para usos médicos, e o Estado da Califórnia está pra fazer um plebiscito para legalizar a maconha, até a Organização das Nações Unidas (ONU) já percebem que o caminho é de acabar com esse bode expiatório da maconha ilegal.

(*8) por erros de tradução e interpretação onanismo é sinônimo de masturbação, mas o crime de Onâ na Bíblia era o coitus interruptus, seu crime não era a auto-satisfação sexual, mas a retirada do pênis da vagina antes da ejaculação, pois assim desobedecia à lei do levirato e evitava ter um filho com a viúva de seu irmão. Ver o Gênese, 38: 8-10.

(*9) início da jurisprudência na área:
1843 - Daniel M'Naghten, acusado de atirar em Edward Drummond, é libertado como "não culpado, por insanidade". Depois de libertado, é encarcerado em manicômios, onde morre em 1865. O seu caso estabelece um precedente, como a regra M'Naghten: "(...) para fazer uma defesa com base em insanidade, é preciso provar claramente que, no momento em que cometeu o ato, o acusado estava agindo sob uma tal deficiência da razão, de doença da mente, de forma que não sabia qual a natureza do ato que estava praticando; ou se sabia, não sabia que o que estava fazendo era errado"
1954 - Monte Durham, um homem acusado de violação de domicílio, é absolvido como "não culpado, em razão de insanidade", e confinado em manicômio. Seu caso estabelece precedente legal como a regra Durham: "A regra que hoje aceitamos (...) diz simplesmente que um acusado não é criminalmente responsável se seu ato contrário à lei foi o produto de doença mental ou deficiência mental."

(*10) Ainda em 1775 (mais de 500 anos depois do início da Inquisição), Sir William Blackstone, o Pai do Direito Inglês, dizia que "negar a possibilidade e, mais ainda, a existência real da feitiçaria e da bruxaria é, ao mesmo tempo, negar a palavra revelada de Deus (...) e, em si mesma, a coisa é uma verdade testemunhada por todas as nações do mundo." Logo a crença começou a ser discutida. No entanto, essa mudança não representou um avanço real da mente humana, Charles Williams observa amargamente que "Os homens ficavam aterrorizados com a possibilidade de se comportar de maneira diferente dos outros e aqueles que uma vez acreditaram em feiticeiras agora descrêem delas exatamente pela mesma razão - porque todo o mundo faz isso". Isso poderia dar o que pensar a todos os que aceitam a crença popular em doença mental.

(*11) as mudanças que acontecem com o tempo são interessantes, por isso acrescentei esse longo ADENDUM abaixo, veja Joana D‘Arc, que foi queimada viva como feitiçeira em 1431, e pela mesma Igreja que fez a Inquisição, foi canonizada como santa em 1920.

ADENDUM

HOMOSSEXUALIDADE
Em 1952 o congresso americano promulga a Lei McCarran que, entre outras coisas, diz que "os estrangeiros que tenham: a) personalidade psicopática não devem ser admitidos nos Estados Unidos." A partir de então, os imigrantes homossexuais são imediatamente classificados como "personalidade psicopática", e, se entraram no país depois da promulgação da lei, são deportados.
JUDEUS -
Quando acontece a peste bulbônica na Europa, em 1350, que mata mais de 1/3 da população, os judeus são acusados de causar a peste, na Alemanha muitos são exterminados e muitos fogem pra Polônia e Rússia. Em 1412 leis contra judeus e mouros se tornam uma parte aceita da sociedade espanhola. Em 1492, é ordenada a expulsão dos judeus na Espanha, essa ordem somente é declarada nula em 16 de dezembro de 1968, e no mesmo dia abre-se a primeira sinagoga construída no país.

MASTURBAÇÃO
Em 1716, surge em Londres a teoria de que a masturbação provocaria insanidades.
Em 1758, Simon-André D. Tissot publica Onanismo, ou um Tratado sobre as Doenças Provocadas pela Masturbação, com muitas autoridades médicas respeitáveis para justificar o conceito de "insanidade masturbatória"
Em 1812, Benjamin Rush (hoje considerado Pai da Psiquiatria Moderna, nos EUA) publica suas Pesquisas e Observações Médicas sobre as Doenças da Mente, o primeiro manual americano de Psiquiatria, nele declara "que masturbação provoca fraqueza do sêmem, impotência, disúria, tabes dorsalis, tuberculose pulmonar, dispepsia, fraqueza de visão, vertigem, epilepsia, hipocondria, perda de memória, manalgia, imbecilidade e morte"
Em 1816, Jean Esquirol afirma que a masturbação "é reconhecida em todos os países como uma causa comum de insanidade". Em 1838 acrescenta epilepsia, melancolia e suicídio como condições provocadas pela masturbação.
Em 1842, C. F. Lallemand, médico francês, adverte que se a masturbação se tornasse mais comum "ameaçaria o futuro das sociedades modernas; por isso, é urgentemente necessário que tentemos extirpar essa calamidade pública.
De 1850 a 1900 a doutrina psiquiátrica de que a masturbação provoca insanidade atinge seu ponto máximo, em 1855 um editorial do New Orleans Medical and Surgical Jounal afirma que: "... nem a peste, nem a guerra, nem a varíola, nem uma multidão de males semelhantes, foram mais desastrosos para a humanidade do que o hábito da masturbação; é o elemento destrutivo da sociedade civilizada."
Em 1863, David Skae, um médico escocês, introduz a expressão "insanidade masturbatória" para indicar a insanidade que, segundo se supõe, é causada pelo onanismo.
Em 1868, Henry Maudsley, considerado um marco da psiquiatria inglesa: "Um estádio posterior e ainda pior a que chegam esses seres degenerados (os masturbadores) é de auto-absorção soturna e insociável, e de perda extrema das capacidades mentais (...) Ficam intratáveis, quietos, etc. (...) Essa é, portanto, a história natural da degeneração física e mental provocada nos homens pela masturbação. É um quadro triste de degradação humana (...) Não tenho confiança em meios físicos para deter o que se tornou uma doença mental grave; quanto mais cedo cair para seu repouso degradado melhor para ele, e melhor para o mundo que se livra dele. Esta é uma conclusão limitada e triste, mas também inevitável."
Em 1869, Karl Ludwig Kahlbaum, um psiquiatra alemão famoso por ser um dos primeiros a classificar as doenças mentais, dá o nome de "catatonia" a uma síndrome que, segundo acreditava, "seria causada principalmente por masturbação prolongada ou excessiva."
Em 1876, T. Pouillet, médico francês, começa seu tratado "médico-filosófico" sobre a masturbação com as seguintes palavras: "De todos os vícios e de todos os erros que podem, corretamente, ser denominados crimes contra a natureza, que devoram a humanidade, ameaçam sua vitalidade física e tendem a destruir suas faculdades intelectuais e morais, um dos maiores e mais difundidos - ninguém o negará - é a masturbação.
Em 1882, Richard von Krafft-Ebing, professor de Psiquiatria da Universidade de Viena, e um dos mais notáveis psiquiatras de seu tempo, publica a Psychopathia Sexualis, o que o torna o fundador da moderna sexologia psiquiátrica. Acredita ele que a masturbação pode levar à homossexualidade."
Em 1890, Jonathan Hutchinson, presidente do Royal College of Surgeons, trata a masturbação através da circuncisão, e defende a idéia de que "medidas mais radicais do que a circuncisão, se a opinião pública permitisse sua adoção, seriam uma real caridade para muitos pacientes de ambos os sexos."
Em 1905, Bernard Sache, eminente psiquiatra de Nova York e autor de um Tratado sobre Doenças Nervosas das Crianças, recomenda o tratamento da masturbação, por cauterização da espinha e dos órgãos genitais."
Em 1918, Ernest Jones, um dos pioneiros da Psicanalise inglesa, sustenta que "verificar-ser-á que a neurastenia verdadeira (...) depende de onanismo excessivo ou ejaculações involuntárias.

VACINAÇÃO
Em 1772, o reverendo e teólogo Inglês prega contra a vacina antivariólica, publica que as doenças são enviadas pela Providência divina para castigo dos pecados e que a tentativa de impedir a varíola é "uma operação diabólica"
Em 1798, um grupo de sacerdotes e médicos de Boston, forma uma Sociedade Contra a Vacinação". Denunciam a vacinação contra a varíola como "desafios aos céus e até à vontade de Deus" e declaram que "a lei de Deus proíbe a sua prática"

NEGROS
O sexto recenseamento dos Estados Unidos revela que os negros livres do Norte tem incidência muito maior de insanidade do que a população branca da nação, ou do que os negros escravos do Sul. Sendo que os críticos desse recenseamento afirmam que, em algumas cidades, o número de negros arrolado como doentes mentais é superior ao número total de negros que aí vivem.
Em 1844, James M'Cune Smith, um negro livre nortista, desmente em cartas ao New York Tribune, a afirmação de que os negros livres sejam especialmente predispostos à insanidade: "É opinião difundida que a emancipação fez dos negros livres surdos, mudos, cegos, idiotas, insanos, etc. (...) A liberdade não nos deixou loucos, fortaleceu nossas mentes ao exigir que usemos nossos recursos, e nos ligou às instituições americanas com uma firmeza que apenas a morte poderá romper."
Em 1858, para rebater argumentos abolicionistas, o superintendente do Hospício do Estado da Luisiana, declara que "(...) muito raramente os nossos escravos ficam insanos (...) não se pode negar que a grande inserção dos escravos com relação à insanidade se deve à sua situação, a proteção que a lei lhes garante, à limitação de um estado suave de servidão, à liberdade com relação a todas as angústias ligadas a seus desejos presentes e futuros, à inexistência (em grande parte) de todas as bebidas alcoólicas, e todas as formas de excessos em que caem os negros livres."

HITLER
Em 1939, com o início da guerra, Hitler ordena a aplicação do "programa de eutanásia" do Partido Nacional Socialista: "As pessoas com moléstias incuráveis devem ter a mercê da morte." As primeiras câmaras de gás são construídas em hospitais psiquiátricos e começa a morte por gás de doentes mentais (e algumas outras pessoas com doenças crônicas). Durante os dois anos seguintes, aproximadamente 50.000 alemães (não-judeus) são mortos com gás de monóxido de carbono em quartos de morte, disfarçados, como mais tarde o foram em Auschwitz, como salões de chuveiros e banheiros." Em 1941 a morte por gás de doentes mentais na Alemanha é interrompida, e começa a morte por gás de judeus no Leste Europeu.
("O perigo específico que o judeu representa para a comunidade acompanhou as mudanças históricas no que a sociedade valoriza. Na Idade Média, o judeu era um traidor da cristandade; seus ancestrais, segundo se acreditava, mataram Jesus, e ele continuou a rejeitar a fé verdadeira e a autoridade da Igreja. No mundo moderno, o judeu é um traidor da Pátria e se opõe à ideologia política dominante. Dreyfus simboliza o judeu como traidor da pátria. A partir da revolução soviética, o judeu surgiu como o inimigo prototípico do capitalismo e do comunismo. No ocidente, a ideologia comunista era vista como inspirada pelos judeus, considerando Marx e Trotsky como seus símbolos principais. No Oriente, a ideologia capitalista é vista como inspirada pelos judeus, considerando--se os Rothschild e outros "banqueiros judeus" como seus principais símbolos." página 141, da 3a edição, A Fabricação da Loucura - um estudo comparativo entre a Inquisição e o movimento de Saúde Mental, de Thomas S. Szasz)



fotos da fachada da minha casa em Visconde de Mauá (RJ)

Comentários Libertários sobre a Ayahuasca e seu momento "bola da vez" da mídia - (segunda parte - LEIS naturais e políticas)

Comentários Libertários sobre a Ayahuasca e seu momento "bola da vez" da mídia - (segunda parte - LEIS naturais e políticas)


Da época que estudei Arquitetura e Urbanismo, recordo de uma história real que parece anedota. Um prefeito, com seu ímpeto de autoridade, que ao saber que por causa da lei da gravidade teria de mudar sua proposta urbanística, propôs que se revogasse essa lei, para que ele pudesse construir...
Dentro de nossa cultura e viver, aprendemos a separar as leis entre as NATURAIS e as POLÍTICAS. As naturais, como a da gravidade, independem do nosso querer, e estamos sujeitos a elas, independente de nossa vontade. As políticas, como por exemplo as que proíbem de fumar em ambientes fechados e de uso coletivo, e que dependem de nosso querer, caso não queiramos segui-las, podemos infringir e sermos culpados por isso, muitas vezes recebendo penas ou multas.
As LEIS NATURAIS nascem na distinção e nomeação que o homem faz ao nomear e tentar entender seu contexto biológico externo, e que chamamos de NATUREZA. Antes de um gênio ver uma maçã cair e nomear e entender que isso ocorre como um processo de atração entre os corpos, isso já ocorria, somente não havia essa explicação científica para o fenômeno.
As LEIS POLÍTICAS nascem na tentativa organizacional do homem com o homem. Buscando regras que na democracia dizem que serão adotadas privilegiando a maior parte dos homens, sobre a menor parte dos homens (*2).

ÁLCOOL - Bebidas alcoólicas têm sido usadas pelas sociedades humanas desde tempos remotos: há documentos delas entre os Sumérios por volta de 3200 a.C.. Também deste período, no Irã, análises químicas feitas em resíduos encontrados em recipientes do sítio arqueológico de Godin Tepe, mostram a presença de Vinho, que para alguns autores é anterior a cerveja, mais comumente considerada mais antiga. Da realeza Assírica, Egípcia, ou das diversas tribos indígenas brasileiras, as bebidas fermentadas (*3) vem sendo usadas como um forma de agregação social, mesmo que eventualmente se ultrapassem os limites, podendo favorecer rupturas sociais. De 1919 a 1933 nos Estados Unidos vigorou o Volstead Act, conhecida como Lei Seca, que visava proibir a produção, circulação, armazenagem, venda, importação, exportação e consumo de álcool em todo território estadunidense. Os resultados são bem conhecidos, em vez de acabar com o mercado e o consumo, simplesmente criou-se um mercado ilícito, no campo das ilegalidades, inventou-se um crime e, assim, novos criminosos.
TABACO (*4) - Também de uso ancestral, ainda é usado por indígenas brasileiros como uma forma de expansão da consciência. Também nos EUA aconteceu uma briga judicial contra a indústria do tabaco, que por anos deturpou pesquisas para omitir os malefícios dos cigarros. Depois de pagar multas bilionárias, se mantém com força as custas de muitos impostos. E recentemente vem sendo proibido seu consumo em locais públicos fechados em vários estados brasileiros.
AÇÚCAR (*5) - Depois de influenciar a economia mundial, e também a história brasileira com o Ciclo do Açúcar, esse composto químico puro (quando refinado) disfarçado de alimento_ está presente em nossa cultura alimentar SEM REGRAS E NORMAS. Não sou como alguns autores proibicionistas que propõem a proibição do uso do açúcar, porém proponho mais estudos, e também aviso ao público em geral de seu uso em excesso, como os avisos nas carteiras de cigarros. Seria interessante que deixasse de ser usado como acréscimo alimentar em inúmeros alimentos, como o molho shoyu, linguíça, mortadela, presunto, maionese, milho e ervilha em lata, até nos cigarros e na homeopatia. Enfim, em geral o consumo se dá 35% indiretamente incorporado na indústria, e 65% pelo consumo direto.
MACONHA - Bode expiatório do reacionarismo, programas sensacionalistas da mídia divulgam o uso e venda dessa erva no mesmo nível de produtos refinados, como a cocaína, ou de lixo químico como o crack. A cocaína é mais usada pela elite poderosa e o crack pela ralé popular, mas ambos possuem efeitos e possibilidades sociais muito diferentes da maconha. É por hipocrisia social da grande massa que se usa ou se tolera a maconha no seu cotidiano, mas também se aceita essas leis proibicionistas, arcaicas e que geram um ambiente de mercado grande e natural que se mistura a uma ILEGALIDADE burra, que serve somente a manter o tráfico e corrupções generalizadas (veja o exemplo da Lei Seca nos Estados Unidos). Liberar e legalizar drogas acabaria com o tráfico de drogas, separando-o por exemplo da criminalidade que trafica armas, criando um mercado agora lícito que pode ser regulado e controlado como o do álcool ou do cigarro. Talvez no caminho contra a hipocrisia, poderia haver como já o são o presidente Lula e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, uma visão antiproibicionista dos grupos ayahuasqueiros: da União do Vegetal por sinceridade do direito de uso de plantas naturais e solidariedade, e o Santo Daime, ainda mais para assumir e sair do armário no quesito de uso e muitas vezes de uso religioso.
AYAHUASCA - Bola da vez e justificativa dessa matéria. Ganhou na verdade um foco e atiçou a curiosidade em geral, e também o paradigma que se reafirma, não é a toa que várias religiões e caminhos estão surgindo a partir do consumo de ayahuasca, caminhos de melhora no viver individual dos que participam desses grupos e formas de consumo, inclusive servindo para curas de dependências químicas outras, como do álcool, do crack, etc. Não só no Brasil está sendo aceita e legalizada, mas em inúmeros outros países, inclusive um dos mais proibicionistas, os EUA, aceita o ritual da União do Vegetal (*6) para uso da ayahuasca.
DMT -

Fiz esse trilhar por alguns elementos que o bicho homem produz e usa com seus companheiros de espécie. Com certeza esses 5 elementos - bebidas, fumos ou aditivos - não se comparam a nossa necessidade de oxigênio e água. Mas qual o direito de qualquer um julgar sobre o outro o direito de consumir isto ou aquilo??
Minha visão explicitamente libertária rejeita esse direito legal ou justificativa para a existência (ou seja, a minha validação e consequente aceitação em meu viver) desse argumento, porém aqui faço um exercício pedagógico de propor um exercício mental de flexibilização do pensar e argumentar de quem pensa diferente do pensamento explicitamente ANARQUISTA, libertário, ou mais especificamente, libertário entre parênteses...
De forma mais ampla, independente e anteriormente ao uso e regulação da minha alimentação, discordo de LEIS PATERNALISTAS. Uma lei que me impede de "fazer mal" a alguém é diferente de uma lei que me impede de "fazer mal" a mim mesmo. Como anarquista, questionaria todo o aparato legal, mas para início de debate fica essa questão: aceito uma regulação em que eu possa atingir o direito de ser do outro, mas não do que o Estado considera melhor pra mim, com direito a punição.
Lei Paternalista é a do Cinto de Segurança. O Estado pode divulgar a necessidade, bem como os carros virem com explicações, mas para que existe uma lei que me punirá caso eu não esteja usando o Cinto? A lei existe para ter alguém que a regule, fiscalize e puna. E caso eu não use o Cinto, quem se prejudica? Eu mesmo... Se o Estado achar que uma determinada dieta alimentar fará bem pra minha saúde, como usar o Cinto, poderá daqui a pouco se colocar no direito de me multar caso eu não siga essa dieta... Tudo em prol de minha saúde, ou do que os legisladores acharem que faz bem à minha saúde...
Quem for idiota a ponto de não usar Cinto de Segurança em rodovia e sofrer um acidente, deve se responsabilizar por isso e não esperar que venha do Estado uma regulação e controle de como faço o uso de uma peça de segurança de meu carro. O Estado não deveria interferir no direito de uso de substâncias, somente no limite do controle de segurança, como já ocorre em medicamentos controlados ou uso e venda de álcool e cigarros.
No quesito cigarros e álcool, o público em geral aceita leis que determinem onde se possa fumar cigarro e/ou que impeçam de se beber álcool e dirigir, pois nesses quesitos a regulação é contra o outro, mas não impedem o exercício de seu uso (fumar tabaco e beber álcool). Esse mesmo público em geral, aceita a proibição da maconha e que se use a ayahuasca somente de forma religiosa. Um próximo passo numa evolução cultural é que quem beba cerveja e fume cigarros tire seus preconceitos, aceitando a maconha como uma variedade de cigarro, e a possibilidade do uso da ayahuasca além dos aspectos religiosos populares e seus ritos litúrgicos.
Enfim, entender que as LEIS nascem antes de tudo para atender a população e seus costumes e hábitos que mantém sua agregação social e existência individual, e acabar com essa HIPOCRISIA vivida na sociedade em relação às drogas é um passo importante para um crescimento da espécie e sua acomodação no planeta com menos contradições e paradoxos.
Acabar com Leis proibicionistas, deixar a regulação do uso por seus usuários e mercados, com menor interferência policial, faria com certeza uma mudança no paradigma da criminalidade e formas de lavagem de dinheiro e seus tentáculos na oficialidade. Exigiria coragem de uma ala da polícia que prefira uma mudança social em prol dessa sinceridade e melhor organização social, ao lucro imediato e corrompido de aceitação do inevitável, que chamo de hipocrisia social, que pessoas que usem tenham acesso a suas necessidades criadas em seu viver. Mas as pessoas fingem que não veem e se omitem dessa hipocrisia, muitas vezes considerando-a "mal menor" das mazelas e hipocrisias outras do viver.
Assim, voltando ao início do texto e idéia, o prefeito não conseguiu mudar a lei da gravidade e se adequou a ela. Tirar essa distorção de paradoxos a que fomos educados como naturais, em que não se discute a contradição em aceitarmos ou precisarmos de um Estado que nos deixe fumar, beber ou consumir ou que cada um entender e desejar ser o melhor pra si.
Se alguém comete um crime matando ou roubando, por exemplo, isso não se deve ao uso de drogas. Assim como se alguém faz uma ação altruísta como uma doação a caridade ou cuidado do outro, não se acusa a pessoa de ter bebido, ou fumado algo. Se alguém comete um crime, deve ser punido pelo pelo crime. Não pelo que usa, fuma ou bebe.
Aceitar que a maconha fique na ilegalidade é aceitar uma lei que não funciona na prática, como no primeiro caso, como se aceitássemos uma lei que revogasse a lei da gravidade. Poderia revogar no papel, não na realidade. Liberar e legalizar a maconha manteria o status e necessidade de uso policial de controle. SE DESLEGALIZÁSSEMOS, simplesmente tirando das leis, a polícia se preocuparia com o plantio e transporte de maconha como se fosse o açúcar hoje em dia. Acabaria a corrupção e tráfico, nascendo um mercado e comércio que se auto regularizaria, sem ligar consumidores com o mundo do crime e da ilegalidade. As drogarias manteriam a venda de medicamentos de tarja preta com controle médico, como seria a cocaína e o crack, como formas de diminuição da dependência, e talvez com um cadastro de seus usuários, mas que isso não não funcionaria como "lista negra", pois seria aceito como natural a possibilidade e uso de qualquer substância, desde que consciente de seus efeitos e sem causar danos a outras pessoas.
Deixo para a próxima semana a entrada na questão das ditas doenças mentais. Depois pretendo fazer também um texto específico, mas essa semana, na 58 sessão dos PES (AyA) ultrapasso a marca de 100 pessoas VIRGENS em ayahuasca que perderam sua virgindade em minha pesquisa. E já são 2 sessões que peço a assinatura dos participantes num termo de responsabilidade, totalizando já 21 cadastrados de 191 participantes, desde 2008.

(fim da segunda parte - LEIS naturais e políticas)

Rui Takeguma, poção da Maromba em 6 de abril de 2010.

site oficial - http://p.e.s.vilabol.uol.com.br
site de relacionamento - www.somaie.ning.com
blog - www.pesayahuasca.blogspot.com


OBSERVAÇÃO:
da segunda parte
(*2) Existe um jogo óbvio de que é a minoria dos poderosos políticos (senadores e deputados, em menor grau os vereadores) que escolhem e fazem as LEIS. Numa ilusão chamada de eleições, esses políticos são escolhidos pela população em geral, para que estes façam as leis que irão controlar seu viver, mas no disfarce do argumento, a população em geral acredita que controla quem os controla. E através de um processo de aperfeiçoamento histórico de manipulação das massas, a democracia quer se tornar aos olhos dos poderosos como o FIM DA HISTÓRIA. Como se chegássemos ao final da melhoria da organização social humana. Não desenvolvo nesse texto o aprofundar do viés anarquista, pois o foco específico é este contexto ligado as drogas. Mas desde que conheci a proposta anarquista a adotei no meu viver, primeiramente chamando de anarquismo somático, e hoje em dia de anarquismo-entre-parênteses.
Os anarquistas procuram trazer pro seu dia-a-dia o conflito de lidar com os conflitos entre comportamentos e desejos. Procuram sim aceitar LEIS, desde que por eles criadas em consenso com outras pessoas. Assim, um anarquista não escolhe representante para criar as leis que regulem seu viver. Simplesmente vive e, ao surgir a necessidade de regulação, cria sua lei em consenso com os seus semelhantes: pessoas que desejem conviver. Ainda estamos afastados de uma sociedade de tal maturidade entre seus semelhantes. Ou, observando de outra maneira, existem pessoas que preferem as formas violentas de imposição de seus desejos. Nisso, e independente de desejos e sonhos de construção e mudança, estamos imersos num espaço físico que se consolidou historicamente e possui nesse contexto pessoas assumindo inúmeras posições em seu viver, que criam leis e regras, além das pessoas que policiam e vigiam, e outras que prendem e torturam.

(*3) O Álcool etílico ou etanol é um excremento de levedura, um fungo com apetite voraz por coisas doces. Quando a levedura encontra mel, frutas, cereais ou batatas, por exemplo, libera uma enzima que converte o açúcar nesses materiais em dióxido de carbono (CO2) e álcool (CH3CH2OH). Este processo é conhecido por fermentação.

(*4) "Tabaco (Nicotiana tabacum) é uma erva nativa da América, pertencente à família das solanáceas, grupo botânico que também inclui plantas narcóticas como a Datura e plantas comestíveis como o tomate, a pimenta e a batata. O tabaco é extremamente importante nos sistemas médicos, religiosos e xamãnicos de diversos povos indígenas de ambos os continentes americanos. Existem trinta e sete espécies nativas de Nicotiana, sendo possivelmente a planta domesticada mais antiga da América. (...) Os Machiguenga (indígenas dos Andes Peruanos) consomem o tabaco de todas as formas imagináveis: fumado (nopenatakero) em cachimbo, bebido em forma líquida (oani), mastigado em forma de massa concentrada (opatsa) e soprado no nariz em forma de pó fino (opane)." Venenos Divinos: Plantas Psicoativas dos Machiguenga do Peru, por Glenn H. Shepard Jr. (O Uso Ritual das Plantas de Poder, 2005, pag. 197)

(*5) "A ingestão do açúcar altera o funcionamento das glândulas endócrinas, pâncreas, supra-renais, pituitária e até o fígado. Puxado pela hiperinsulinemia o sistema glandular endócrino, com o tempo, tende a se esgotar, e o pâncreas perde a sintonia fina que existe entre níves de glicose e doses de insulina, o glucagon e até a adrenalina entram nessa dança. E o abuso de oferta de insulina faz que, com o tempo, perca a eficácea. O equilíbrio ácido/base e o equilíbrio osmolar, também são alterados e há formação excessiva de radicais livres em seu corpo gerando estresse oxidativo. A glicação (ex glicolisação) que toma conta de proteínas do sangue, de órgãos, tecidos e células é algo semelhante a cupim atacando móvel de madeira ou ferrugem atacando uma maquina de ferro. O sistema imunológico e o metabolismo também são debilitados." por Fernando Antonio Carneiro de Carvalho (O Livro Negro do Açúcar, 2008, pag. 28)

(*6) Considero hipócrita que qualquer pessoa que use a ayahuasca, que possui fortes efeitos SOMAATIVOS, condene usuários de outras drogas como maconha e álcool. Cada um tem direito a se viciar a o que desejar em seu viver... SOMAATIVO é qualquer substância, como a AYAHUASCA, que mexem paralelamente com o corpo físico (sistema digestivo incialmente, passando por respiratório, sanguíneo, mental e energético) e o corpo mental (aqui surgido da base corporal neurológica, mas argumentado e nomeado em sensações espirituais e verbais, como pensamentos e sensações geradas virtualmente - em princípio diferentes das advindas das sensações externas ao sistema neurológico pelas conexões sensoras e efetoras)