PES (AyA)

PES (AyA)
Pesquisas e Experiências Subjetivas Anarkia y Ayahuasca Entre Parênteses

Capoeira e Ayahuasca (maio 2009)

Capoeira e Ayahuasca

Ambos foram proibidos no Brasil. Ambos hoje são considerados Bens Imateriais da Humanidade. Um nasce da cultura negra, outro da cultura indígena, e tanto a capoeira quanto a ayahuasca estão mescladas na globalizada cultura multicolor (que, no geral e injustamente, privilegia os de pele branca). Na Somaiê, a prática da capoeira angola é fundamental, e nas Teorias da Somaiê o uso da ayahuasca é uma possibilidade. Mas o que liga esses ambientes é a ampliação do viver: a capoeira por uma via corporal/física e a ayahuasca pela via mental/subjetiva (aqui cito o viés principal, mas logicamente ambas atingem inevitavemente a corporalidade como um todo) (*1).

Após me tornar um capoeirista e pesquisar a história de meus e de outros mestres, tornei-me professor de capoeira angola em 1995. Atualmente mantenho o Grupo (A) IÊ de Capoeira Angola com sede na Escola da Maromba (Visconde de Mauá/Itatiaia/RJ) e com rodas, no Espaço Cultural Tendal da Lapa (São Paulo/SP). Em 2002 criamos a FACA Federação Anarquista de Capoeira Angola, que já produziu 4 CD's e pretende até o final de 2009 finalizar 2 DVD's. A FACA mantém o projeto Memória da Capoeira, que já contou com os Mestres Ananias (SP), Russo (RJ), Primo (MG), Bacalhau (SP), além do Contra Mestre Nino Faísca (PE) e o professor Cenorinha (SP).

Após me tornar um ayahuasqueiro e pesquisar a história de meus e de outros mestres, tornei-me dirigente de sessões de ayahuasca em 2008. Desde então, organizo sessões de ayahuasca, começando em Visconde de Mauá, onde já foram feitas 20 sessões, e outras cidades como Conceição do Ibitipoca, São Paulo e Belo Horizonte, onde faço sessões ocasionalmente. Chamo essa vertente de PES (AyA) Pesquisa e Experiências Subjetivas Anarkia e Ayahuasca Entre Parênteses. Nesses últimos 15 meses foram 27 sessões, nas quais distribui mais de 180 doses entre 96 pessoas, sendo que 48 pessoas beberam ayahuasca pela primeira vez comigo.

Curioso como é possível traçar outros paralelos históricos entre capoeira e ayahuasca, além dos citados no primeiro parágrafo. Há uma relação entre o momento atual e a historicidade, misturados à confusão causada pelas denominações em seus ambientes. A capoeira está um pouco a frente nessa comparação, vejamos o porque.

A capoeira nasce das tradições negras e vive um primeiro período, que aqui chamarei de PRÉ-HISTÓRIA, que engloba desde a vinda da África até seu uso no Brasil na década de 1930. A PRÉ-HISTÓRIA da ayahuasca começou há mais de 5000 anos, com sua ruptura também na década de 1930. Coincidência??!! A passagem para a fase da HISTÓRIA, em ambos casos, se dá no contexto das oficialidades. Na capoeira, o mestre Bimba, Manoel dos Reis Machado (no contato com pessoas de classes mais abastadas, principalmente acadêmicos) cria uma Academia, e leva a capoeira a sua expansão, através do ambiente desportivo. Na ayahuasca, a oficialização se dá com a criação de uma Igreja pelo mestre Irineu, Raimundo Irineu Serra (Santo Daime), expandindo a ayahuasca através do ambiente religioso. Seria forçar a barra das coincidências comentar que ambos mestres eram negros e de porte físico avantajado??!!

A meu ver, tanto a capoeira quanto a ayahuasca utilizaram meios que diferem da sua origem para se expandirem, o ESPORTE e a RELIGIÃO. Como memes culturais que buscam formas de se modificar para ampliar sua área de atuação (*2). Em ambos casos considero marcante a ruptura com o ambiente inicial (negros e índios) para um ambiente mais eclético, e a questão da fusão de novos elementos ritualísticos que modificam a estrutura original. Outra semelhança é a argumentação da “autenticidade” e crítica aos grupos de outra origem que não a sua, gerando um tipo de concorrência e argumentos de legitimidades próprios.

Na capoeira, na fase HISTÓRIA, nascem outros grupos buscando outras formas de praticá-la, como o mestre Pastinha, Vicente Ferreira Pastinha, que é anterior na prática da capoeira porém posterior na questão da oficialidade, e que nomeou sua capoeira de angola, pra diferenciar da capoeira regional de mestre Bimba (angola é o termo geral usado pra designar a capoeira de mestre Pastinha, porém ele buscava traduzir na sua época os elementos antigos, da PRÉ-HISTÓRIA da capoeira - ver meu texto Qual é A Sua ? Angola, Regional ou Contemporânea? (*3)). Na ayahuasca, também na fase HISTÓRIA, nascem outros grupos com outras formas ritualísticas, como mestre Daniel (Barquinha), Daniel Pereira de Mattos e mestre Gabriel (União do Vegetal), José Gabriel da Costa, que além de ayahuasqueiro era capoeirista.

No século passado ambas as culturas se expandiram, tanto na geografia, quanto no perfil de seus participantes. Geograficamente a ayahuasca sai da região da Floresta Amazônica, vindo para o sudeste e, atualmente, em inúmeros países; a capoeira angola sai do Recôncavo Baiano para o restante do Brasil, e também em inúmeros países (*4). No perfil dos participantes, não há como enquadrar os tipos de pessoas que bebem ayahuasca ou praticam capoeira, pois independente da cor de pele, crença religiosa, ou classe econômica, elas se tornaram culturas globalizadas, e quem quiser tem acesso a elas.

Neste século ambas se tornam Bem Imaterial, a capoeira tombada pelo IPHAN e a ayahuasca em trâmite de tombamento, sendo que no Peru já foi tombada. Nesta etapa, surgem rupturas com quem gerou as primeiras rupturas. Na capoeira isso se dá com a maioria dos grupos em atuação, que nomeiam sua prática de capoeira angola e regional, numa tentativa de unir o antigo ao moderno. Porém, essa capoeira se afasta da capoeira angola e da capoeira regional, gerando uma capoeira que eu e alguns autores chamam de contemporânea (tantos nomes gerando tanta confusão, pois é claro que tudo que é feito hoje é moderno, contemporâneo e faz parte da história, mas assim como existem esses parênteses explicativos, o viver é feito dessas confusões semânticas, e aqui procuro fazer um texto geral, para os leigos na história da capoeira e da ayahuasca).

Na ayahuasca essa confusão também se dá: pois, há os grupos chamam sua ayahuasca de Daime, Vegetal e Oasca, além dos recentes grupos que buscam juntar a brecha legal do uso da ayahuasca conseguida no viés das religiões, com o uso antigo (indígena), ou com novas experiências como simplesmente um uso recreativo e social da bebida. (*5) Importante ressaltar o atraso das Leis em relação aos costumes. Juridicamente, os costumes é que primeiro geram as Leis e oficialidades, e sempre os que buscam uma nova forma de viver, rompendo com regras rígidas e ultrapassadas, normalmente numa desobediência civil e legal, acabam gerando as Leis do amanhã. Assim, por exemplo, somente em 1976 os centros de culto afro-índios-brasileiros foram liberados da obrigação de se cadastrarem e se submeterem à fiscalização das delegacias de costumes, o que acarretava as maiores arbitrariedades.

Aqui volto ao ponto de a capoeira estar um pouco a frente nesta comparação: pois a maior parte dos praticantes são os que se enquadram no uso competitivo/esportivo (daqui a alguns anos entrará nas olimpíadas), sem a exclusão do uso da capoeira para outros fins como a ludicidade ou a vagabundagem (não-esportiva).

Já na ayahuasca, a maior parte dos atuais bebedores são os que se enquadram no uso de rituais religiosos, mas não questiona a arbitrariedade das leis proibicionistas, muito pelo contrário, e algumas vezes se utiliza dessas leis para tentar controlar outros grupos com outros rituais (não-religiosos). Assim, por essa lógica, os índios tradicionais que não se filiassem às religiões também estariam ilegais no uso da ayahuasca, caso não fossem inimputáveis pela Lei brasileira. Ou seja, vivemos um momento em que as religiões ayahuasqueiras tentam autoritariamente (com apoio do Estado) impedir outras formas de uso da ayahuasca. É como se os capoeiristas esportivos (capoeira contemporânea que mantém competições) tentassem impedir o uso da capoeira por quem não quer competir, simplesmeste a usa como seu prazer, ou como eu, também como desenvolvimento pessoal.

Nesse âmbito de morar num país em que a maior parte da economia é informal, e o Estado segue uma visão proibicionista e reacionária, mas com fachada democrática (veja Proibicionismo na página 5), é interessante como se permitiu o uso, desde que “religioso”, dessa bebida natural (*6). Para mim, mais um paradoxo legal, temos liberdade religiosa de usar a ayahuasca, mas não temos a liberdade pessoal de usar a ayahuasca. Como capoeirista é fácil ver como este critério autoritário era o mesmo que a cultura branca utilizava através de métodos legais para impedir o desenvolvimento do negro e sua libertação. Pois a capoeira como luta ameaçava o status quo, e não dando certo sua marginalização, a opção foi sua cooptação através do esporte. A ayahuasca com seu poder de ampliação de consciência também ameaça os donos do poder, e seu caminho tem sido o da cooptação das religiões, outra forma de doutrinação e controle. Se os ayahuasqueiros, mesmo religiosos, aprenderem algo com a história da capoeira, descobrirão o caminho do anti-proibicionismo.

Como nas Teorias da Somaiê buscamos SER e não TER, e nossa busca de poder é a busca da autonomia individual, optamos em nomear de anarkia o nosso caminho; com uma base biológica da percepção humana, colocamos um parênteses nessarealidade limitada das religiões e esportes. E decretamos que, ao invés das leis elaboradas por corruptos no Congresso Nacional, procuramos seguir a Lei da sociedade alternativa de Raul Seixas:

Faze o que tu queres, há de ser tudo da Lei! (ver capa deste jornal= www.jornaltesao.blogspot.com )

o b s e r v a ç õ e s :

(*1) Isso será tema em texto futuro, mas adianto que ambos mexem com a couraça neuromuscular do caráter. A capoeira com seus efeitos bioenergéticos, e a ayahuasca com sua bioquímica (principalmente a DMT - n -dimetiltriptamina) produzem uma reorganização energética, onde um sintoma comum é a ânsia de vômito, além de outros efeitos neurovegetativos.

(*2) Aqui comparo essas culturas com as idéias de Richard Dawkins, nas quais ele formula as teorias dos Memes, em comparação biológica com os genes: assim como somos somente envólucros para a verdadeira vida que são os genes, as idéias podem ser consideradas “vivas” e se utilizam de formas para se propagar. Mais detalhes ver o já clássico livro deste autor, O Gene Egoísta.

(*3)Pode ser acessado em http://brancalulaleone.vila.bol.com.br/qualeasua.html

(*4) Existiu na fase PRÉ-HISTÓRIA uma forte capoeira no Rio de Janeiro, porém sem o uso do berimbau e que não produziu uma descendência como a capoeira baiana, esta sim, gerando a capoeira como conhecemos hoje.

(*5) A antropóloga Beatriz Caiuby Labate cunhou o termo NEO-AYAHUASQUEIROS para definir os usos urbanos desta bebida que derivam das religiões do Santo Daime e da União do Vegetal, mas se afastaram dela conforme associam suas crenças ao movimento da nova era. Sendo um movimento constante de afirmação do seu caráter terapêutico, medicinal, lúdico, espontâneo e, sobretudo “alternativo”, procurando negar os conteúdos e práticas religiosos ou rituais, tidos como tradicionais. (A reinvenção do uso da ayahuasca nos centros urbanos, editora Mercado de Letras, 2004). Discordo da Beatriz Labate, pois considero que as religiões ayahuasqueiras é que deram um sentido NEO, rompendo com o uso tradicional (indígena), e limitando a uma cosmogonia religiosa européia ou européia/africana. O que ela chama de NEO-AYAHUASQUEIRO, categoria na qual se enquadra minha pesquisa (PES (AyA)), eu chamaria de PÓS-NEO-AYAHUASQUEIRO. Pois pra mim, AYAHUASQUEIRO seriam os índios que ensinaram os primeiros mestres no século passado, e estes que criaram as religiões ayahuasqueiras: Santo Daime, Barquinha e UDV, estas sim, para mim, NEO-AYAHUASQUEIRAS. Assim, finalizando essa confusão semântica (que eu vim pra complicar), os ayahuasqueiros fizeram parte da PRÉ-HISTÓRIA, e os neo-ayahuasqueiros geraram a HISTÓRIA (legalidade). E hoje em dia, o uso da ayahuasca é compartilhada pelos 3 tipos de ayahuasqueiros: os ayahuasqueiros, os neo-ayahuasqueiros e os pós-neo-ayahuasqueiros. Adoto essa visão, pois os índios em nenhum momento pararam de beber ayahuasca, e utilizam ela de uma forma muito mais ampla que o uso religioso, inclusive para rituais de guerra.

(*6) Inclusive, considero ser muita hipocrisia beber ayahuasca e condenar quem usa maconha, ou outras chamadas “drogas”.

Rui Takeguma, Jornal TESÃO 7, maio de 2009

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