PES (AyA)

PES (AyA)
Pesquisas e Experiências Subjetivas Anarkia y Ayahuasca Entre Parênteses

Comentário a matéria da Isto É (Fevereiro 2010)

Comentários sobre a matéria da revista Isto É sobre AYAHUASCA

Dia 25 de Janeiro de 2010 foi finalmente publicado no Diário Oficial da União a resolução do CONAD com uma regulamentação concluída desde 2006. A revista ISTO É aproveita o gancho do momento e ainda tenta, mas não consegue, vincular MORTES ao uso dessa bebida ancestral, através de uma matéria de capa.

Como há 3 anos desenvolvo uma pesquisa com o uso da ayahuasca, me interessa quando o assunto assume proporções nacionais. Moro na montanha, afastado de Banca de Jornais e Revistas, mas soube da reportagem pela Internet e logo depois li matérias criticando a da revista citada (abaixo coloco o link para todas).

MORTES

Se está vivo, pode morrer...

A tentativa do Hélio Gomes/Isto é de linkar MORTES com o uso da ayahuasca é frustrada em vários níveis. No próprio texto, sem precisar recorrer a informações externas a reportagem, ao ler com cuidado vemos formas de gerar confusão. Exemplo: No trato da primeira morte relatado na revista dessa forma:

"No penúltimo final de semana, Alexandre Viana da Silva, 18 anos, morreu afogado em um lago em Ananindeua (PA), depois de tomar o chá em um culto independente. Claro que não é possível afirmar que o alucinógeno levou o rapaz, que não sabia nadar, a enfrentar uma situação de risco sem medir as consequências. Mas a hipótese não pode ser ignorada."

O jornalista afirma uma coisa - que não é possível afirmar que a morte teve a ver com a bebida. E não só afirma como enaltece com a palavra "Claro", assim não só não é possível, como começa com claro que não é possível. Para, na frase seguinte, especular na base de teorias absurdas, de que alguma bebida faria alguém fazer algo que não desejasse (teoria paranóica de "lavagem cerebral", como a mídia e os poderes usam essa hipótese pra justificar sua proibição - recomendo que se assista o documentário GRASS, mostrando como o governo americano fez campanhas desse nível pra proibir o uso da maconha). Se o jornalista experimentar por si próprio a ayahuasca (e não ficar "viajando na maionese" com informações superficiais catadas na internet), verá que ela propicia uma "viagem lúcida", e que apesar das modificações comportamentais, a consciência se mantém, e depois de passada a experiência alucinógena, mantemos a lembrança de tudo que ocorreu durante a experiência. E se nenhuma hipótese pode ser descartada, já que ele pega casos que ainda não foram resolvidos na justiça: Claro que não é possível afirmar que o jornalista afogou o rapaz para dar um falso exemplo na revista. Mas a hipótese não pode ser ignorada. Assim, esse aparente paradoxo, é usado nesse contexto, a meu ver, como uma forma estratégica do jornalista citar algo que apurou como fato (que não se pode vincular a morte com o uso da ayahuasca) mas ao gerar a confusão (numa especulação "jornalística"), fica ao leitor menos atento a última impressão escrita (que pode haver uma hipótese não ignorável de que uma morte tenha vindo do uso da ayahuasca). Por isso pode ser lido como tendencioso no sentido de criar uma falsa polêmica (NO OLHAR dos ayahuasqueiros que conhecem a bebida, veja o texto crítico de Bia Labate no site da Caros Amigos, revista rival), como pode ser lido como uma boa reportagem esclarecedora (NO OLHAR de quem nunca tomou a bebida e segue uma visão OFICIAL no viver).

Enfim, num primeiro caso o jornalista traz um exemplo de afogamento (um excesso de beber água) e quer problematizar isso com o beber ayahuasca. No segundo caso, o jornalista se dá o direito de afirmar o que a diretora do Instituto de Criminalística ainda não pode afirmar e precisa de mais tempo e pesquisa pra afirmar: que a ayahuasca se liga a morte por coração de um rapaz que já possuia a Síndrome de Marfan (uma doença que justamente poderia matá-lo do coração, independente da ayahuasca). Faz um novo paradoxo, que explicitei no primeiro exemplo.

A meu ver, a matéria nasce de um paradoxo, tentar colocar algum problema em algo que está sendo aceito, justamente por ter sido bem pesquisado. O problema é um preconceito falso, aberto somente no final, a crença de que alguma substância possa corroer nossa sociedade. Maior paradoxo é o jornalista trazer o nome de renomados políticos nacionais defendendo a publicação e especular de forma a validar fofocas escrevendo "outras vozes levantaram a hipótese", sem citar as pessoas.

Desde que a ayahuasca ficou proibida no Brasil por 6 meses em 1985 (único momento na história em que isso ocorreu), ela vem sendo pesquisada exaustivamente e muitas vezes trazida de forma sensacionalista ao grande público, inclusive com denúncias de mortes, que terminaram na justiça. Esse jornalista só trouxe 2 exemplos incompletos (pois recentes e a espera de comprovações) pra tentar criar um vínculo anunciado no subtítulo. Veja a quantidade de pessoas que usam a ayahuasca, segundo a matéria 20 mil pessoas (suponho que o REAL seja muito superior em números que o relatado na matéria e é o OFICIAL que as religiões divulgam), e somente 2 exemplos? Isso por si só, a falta de exemplos em mais de 25 anos vigiada e controlada, mostra como a ayahuasca, diferente do que os médicos psiquiatras divulgam oficialmente, não é perigosa (veja texto da Associação Brasileira de Psiquiatria no site dos PES (AyA)). Os médicos em geral vivem muito mais um ato político de defesa profissional do que uma real preocupação com a saúde das pessoas (vejam as brigas pelo Ato Médico, e sua tentativa de poder sobre as outras profissões da área).

Como ayahuasqueiro há 6 anos, e como coordenador de sessões de ayahuasca há 3 anos, posso afirmar por experiência própria que a única ligação de mortes com o uso de ayahuasca é que a ayahuasca é bebida por pessoas vivas que podem morrer, não por beberem ayahuasca, mas por estarem vivas.

Na década de 90 me tornei professor de capoeira angola, o que continuo a fazer desde então. Como exemplificado na reportagem, na OFICIALIDADE se alguém quer fazer academia de ginástica é obrigado a passar por avaliação médica. Se alguém quer fazer capoeira angola comigo "deveria" passar por avaliação médica. Essa OFICIALIDADE é o jogo das maquinações políticas, o jogo do poder dos médicos, que conseguiram esse absurdo jurídico-paternalista: não sermos donos do nosso próprio corpo. Perante a lei, deveríamos ser considerados inocentes até que se prove o contrário. Essa intenção jurídica não se processa quando pensamos nas leis que regem o nosso corpo físico: sou considerado incompetente até que se prove o contrário (pela avaliação médica). Sou considerado doente, até que um médico me diga que sou saudável.

Por exemplo, no caso das academias de ginástica, em vez de deixar que cada um avalie sua competência e quem ache necessário procure uma avaliação médica, a lei considera PERIGOSO para a MINHA saúde eu fazer ginástica e necessito de uma autorização pra EU poder gerenciar MEU corpo. Depois volto ao assunto, mas aqui o absurdo está na existência de leis paternalistas que impedem que eu use livremente meu corpo. Mas esse é o lado OFICIAL da história, ao olharmos o lado REAL, vemos que quase ninguém faz avaliação médica pela exigência da LEI, e sim por duvidar de sua competência de se avaliar e necessitar da opinião médica. Eu, por exemplo, há 15 anos sou professor de capoeira angola, e NUNCA pedi avaliação médica a nenhum aluno, e nunca tive um aluno que morreu pela capoeira. Não é a toa que vivemos num país em que mais da metade do trabalho, da produção de riqueza, se dá a nível INFORMAL. O maior motivo é essa distância entre a OFICIALIDADE e a REALIDADE.

Se essa visão paternalista de que necessitamos de avaliação médica pra decidir sobre o nosso corpo se expandir, daqui a pouco precisaremos apresentar avaliação médica pra fazer sexo, ou pra quem quiser comer hóstia nos rituais católicos. Assim, sugiro uma possibilidade contrária ao que o jornalista sugere, em vez dos ayahuasqueiros precisarmos de avaliação médica, vamos todos pensar em acabar essa obrigatoriedade médica para as coisas.

O jornalista que vincular mortes com alguma religião, em vez de olhar as que usam a ayahuasca poderia olhar para história e atualidade internacional "de crenças seculares como o catolicismo, o islamismo e o judaísmo". Mas não o faz, pois ou gosta das intenções destas ou as aceita por estarem no consenso fabricado da cultura OFICIAL muito antes das religiões ayahuasqueiras, que só agora saem da marginalidade.

DROGA ALUCINÓGENA -

No ítem anterior (mortes) procuro desmitificar o texto pelo próprio texto. Fiquei na forma e não no conteúdo, pois a Bia Labate e o Rafael Guimarães dos Santos argumentam melhor e mais detalhadamente em seus textos as incorreções da Isto É/Hélio Gomes (links para seus textos no final do meu texto).

A revista se mantém no propósito de reforçar um discurso OFICIAL de PROIBIÇÃO que está nas nossas leis, o que chamamos de proibicionismo. É um consenso fabricado pela mídia para justificar que não podemos escolher com o que vamos alimentar nosso corpo. Há cerca de um século que acontece esse movimento político de proibição do uso de certas substâncias pelo público em geral, permitindo somente o acesso a poucas pessoas. Sejam médicos, sejam cientistas, alguém tem de manipular pra decidir que é proibido os outros manipularem. Lembrando que falo do OFICIAL, pois no REAL quem possui recur$$os tem acesso a quase tudo que desejar. Afinal, quantos políticos, jornalistas, enfim, usam no REAL substâncias proibidas pelo OFICIAL??

A reportagem termina com a paranóia de que existe um "rol de substâncias que corroem nossa sociedade". A qual sociedade o jornalista se refere? Obviamente a sociedade OFICIAL. Enfim, esse assunto é extenso, e explicitamente me coloco como anti-proibicionista, consequência de não aceitar leis paternalistas, consequência de não aceitar leis absurdas, seguindo e gerando o que afirmei antes, a existência de um duplo social, o OFICIAL e o REAL. Luto como anarquista pra aproximar esses lados do meu viver, atuando no social para que ele se aproxime do meu ideal pessoal. Assim optei em viver minhas desobediências civis, e depois explicitar elas, produzindo inúmeros cúmplices nesse viver REAL e não OFICIAL.

DROGAS ALUCINÓGENAS existem infinitas. O próprio oxigênio, de acordo como utilizado, se torna uma droga alucinógena (ver a respiração holotrópica). Ingerir mais de 8 litros de água num dia se torna letal para o bicho homem. Se aplicássemos as leis paternalistas proibitivas a tudo que a ciência já comprovou, o açúcar de nossas mesas só seria fornecido por traficantes, pois é comprovado que o açúcar é um tipo de veneno (categorizado pela Merck com DL 50 oral rat (mata 50% de ratos testados) - de 29,7 gramas de açúcar), ou seja, 2 kg matariam um homem adulto de 80kg.

DROGAS se vendem em DROGARIAS, assim respondo a pergunta que o jornalista faz na própria reportagem; e como ayahuasca não se vende em farmácia (ainda), então ayahuasca não é droga. Alucinógeno é um argumento variável a cada ponto de vista, pois o que é alucinação pra alguns pode não ser para outros. Os que acreditam na fé católica, acreditam que uma pessoa morreu e 3 dias depois ressuscitou, e não se acham alucinados, chamam isso de fé. Enfim, alguns católicos podem achar (ainda mais quem conheça pela matéria) que beber ayahuasca pode levar a ter alucinação, mas o mito de Cristo não é questionado. Os católicos alucinaram tanto em seus argumentos que nem mais questionam sua alucinação. Brinco com o assunto, pois o termo alucinógeno, como comento em meu texto sobre o assunto EU SOU DEUS (link aqui: ), é de um uso político. Nessa área cada um nomeia a ayahuasca como bem atende seus interesses, prefiro assim dizer que a ayahuasca, Daime, Hoasca ou Vegetal é um SOMA-ATIVO.

Dou esses exemplos pra contextualizar os preconceitos. Cada corpo/pessoa tem o direito de viver como quiser. De beber o que quiser, de fazer o que quiser. Criamos leis pra regulamentar esse fazer e impedir que o fazer de um incomode ou se sobreponha ao fazer de outro. Nesse caso, a necessidade de organizar o social é biológica, pois fazemos nascer esse social, então podemos gerencia-lo como bem entendermos. O problema surge que nesse processo nascem gerenciamentos que ultrapassam o senso de proteção do outro, ultrapassam o direito que a lei cria de gerenciar os conflitos entre as pessoas e gera o suposto direito de que alguém saberá o que é melhor para a minha pessoa, mesmo em momentos em que não há o risco de incômodo social.

No consenso fabricado das revistas do tipo Isto É, o problema do tráfico é dos usuários e vendedores, chamados de traficantes. Aprofundando um pouquinho se percebe que o problema do tráfico é da contradição entre os 3 poderes, enfim, um problema de deputados, policiais e governantes. A publicação no Diário Oficial do uso da ayahuasca por grupos ditos religiosos é importante como alertado pelo jornalista na questão do tráfico. Pois ao legalizar o uso da ayahuasca, o governo elimina a possibilidade do tráfico, com a melhor medida e que espero que se expanda para outras situações e psico-ativos.

No subtítulo da matéria em questão, a chamada é esta: "O governo legaliza o uso religioso do chá alucinógeno, mas peca ao deixar que mortes ocorram e ao abrir uma brecha jurídica que pode estimular o tráfico." A superficialidade do conhecimento e pesquisa do jornalista se mostra fraca desde este início. Numa frase usa um dado específico - a oficialização do uso da ayahuasca, com uma abstração paranóica-sensacionalista - de que o governo PECA ao deixar ocorrer o inevitável (mortes naturais), pra concluir de uma forma reacionária e proibicionista - que se abre uma brecha jurídica que pode estimular o tráfico. Como disse, ao oficializar some o comércio ilegal, chamado de tráfico, e aparece o comércio legal. Ou, de outra forma, o OFICIAL e o REAL podem coincidir.

Assim, o governo propicia uma validação do direito das pessoas de regularem suas vidas, permitindo que elas façam uso do que lhe é de direito biológico e terreno, de usarmos e nos alimentarmos do que desejarmos. No caso, o uso de duas plantas que geram um chá natural, isso pode ser usado e aceito como qualquer outra mercadoria de nosso sistema de trocas/vendas/compras.

Se aplicássemos isso a outras substâncias, acabaria o NARCOtráfico. Possibilitando que os produtores, vendedores e consumidores de substâncias psico-ativas como maconha, cocaína, heroína, ácido lisérgico, etc, possam ser tratados como os produtores, vendedores e consumidores de substâncias psico-ativas como cigarros, charutos, cachimbos de quaisquer fumos, qualquer bebida alcoólica, drogas e outros fármacos encontrados em drogarias, café, açúcar e temperos, bem como ervas em geral. Acabaria o tráfico e os governantes teriam de escolher alvos reais ou outros bodes expiatórios na sua argumentação em prol de manutenção do OFICIAL e suas desigualdades sociais e políticas. No caso de uso irregular em decorrência da forma de se utilizar, que possa prejudicar outras pessoas, haveriam as mesmas sanções e aplicações que já existem, por exemplo, no uso das bebidas alcoólicas.

No caso do tráfico, ele pode ser estimulado a medida que se proíba o uso da ayahuasca, ou que se use o argumento religioso como forma de exercício de poder e preconceitos. Por exemplo, ao se aceitar os argumentos de alguma religião nos moldes que geraram a regulamentação, meu trabalho não-religioso pode ser encarado como um processo também religioso, pois também temos argumentos em relação ao viver e como e para que o uso da ayahuasca, e principalmente um ritual de controle do uso.

A meu ver, minha pesquisa se dá num âmbito de estudar os efeitos sensoriais subjetivos e como isso se modifica com a musicalidade, e conversar, além dos contextos outros do social e espaço físico da sessão. Comparo as sessões de 4 a 6 horas de duração com uma terapia que trabalho há 20 anos e que se dá num período de 18 meses com uso de outras técnicas, a SOMAIÊ, uma variação da Somaterapia de Roberto Freire. Talvez aos olhos de um religioso, eu esteja pecando ao conduzir sessões sem ser mestre ou sem ser subordinado a nenhum grupo religioso, e por isso deva ser impedido. Talvez aos olhos de um conhecido de alguém que conheça a ayahuasca comigo, eu esteja fornecendo uma droga alucinógena fora de ritual religioso, e por isso deva ser impedido. Talvez. Ou Talvez aconteça o que venha acontecendo, que é eu ter a resposta imediata das pessoas que bebem a ayahuasca a cada sessão, e isso me incentivar a continuar e questionar essa estrutura política, principalmente, fazendo meu trabalho.

RELIGIÃO

Vou em breve fazer um texto em que ampliarei essa questão. Em 2008 me coloquei como ALEGAL, para não dizer ILEGAL. Na virada do ano de 2009 pra 2010, publiquei EU SOU DEUS, explicando como respeito as religiões e seu uso da ayahuasca, mas prefiro, ao invés de chamar de ritual religioso, outras nomeações para meu ritual.

Por ora, manifesto minha solidariedade aos índios tradicionais que usam a ayahuasca de uma forma mais ampla que a religiosa, pois estes também se tornam marginais junto comigo. Ou seja, escrevo sobre uma bebida MILENAR, que possui citação em relatos arqueológicos variados que indicam ser a ayahuasca, bem como relatos de mais de 200 anos e com a certeza de ser a ayahuasca. Uma bebida que, além de natural e de estar tendo um crescimento de participantes e expansão geográfica internacional com as Religiões Ayahuasqueiras, possui a característica de manter inúmeros grupos indígenas que usavam essa bebida ancestralmente (inclusive há os grupos que incorporaram à sua tradição, pela influência das Religiões Ayahuasqueiras) e grupos alternativos outros - como a pesquisa que desenvolvo - que não seguem uma doutrina religiosa para nortear o uso da ayahuasca.

Assim, apesar da conquista política no universo das drogas proibidas, em que a aceitação/legalização de uma bebida que muda as percepções pode ser um passo em direção a leis anti-proibicionistas, e por consequência do fim do narcotráfico, o limite dessa atual legislação está em também PARADOXALMENTE incentivar a pesquisa científica, porém restrita ao uso religioso. Enfim, somente médicos e cientistas ligados a religiões podem usar a ayahuasca.

Como me preocupo mais com o REAL que com o OFICIAL, entro no meu terceiro ano de pesquisa de uso da ayahausca. Sempre assumi meu viés NÃO-RELIGIOSO, explicando através do site na Internet, através de conversas anteriores a sessão, e muitas vezes na sessão os meus argumentos e a visão de mundo do Anarquismo Entre Parênteses, que desenvolvo a partir da minha experiência como terapeuta corporal da somaterapia/somaiê. Assim, deixo para cada participante do PES (AyA) a decisão de aceitar a minha coordenação em consenso ao que proponho, e não descarto utilizar a nomeação religiosa para, estrategicamente, manter sem problemas a minha forma de produção. Venho fazendo essa comparação com os participantes deste ano (em 2008, 86 pessoas beberam ayahausca comigo; em 2009 foram mais 66 pessoas novas, e já em 2010, em menos de 2 meses, 24 pessoas NOVAS beberam ayahuasca no PES (AyA)).

Quem, como eu, não aceita esse limite (o religioso) para o uso da ayahauasca, tem a possibilidade de arriscar comigo e com inúmeros outros grupos que possuem uma competência no trato de uso da bebida, mas que não se limitam ao OFICIAL, e vivem um REAL uso da ayahuasca sem ritual religioso. Mas não contem isso para o jornalista da Isto É, pois ele se limita a pesquisar no Google. Ele confunde na matéria o fato de alguém comprar ayahuasca conseguindo um contato por site de busca na Internet com o fato de alguém pesquisar na Internet a possibilidade de comprar ayahuasca. Ele somente pesquisou na net e reproduz a imagem na revista, não efetuou a compra na prática (também por aí se vê a profundidade da matéria, qualquer jornalismo de qualidade falaria de fatos e não de virtualidades). Falo isso pois há uma confusão nesse consenso fabricado do "perigo das drogas", com o real interesse das pessoas pelas ditas drogas. E esse interesse fazem as pessoas comprarem ou chegarem ao que querem, independente do OFICIAL proibir ou não.

Quem quiser experimentar e depois usar recorrentemente qualquer substância tem o direito biológico de fazê-lo. O limite da biologia é a morte, o fim da autopoiese, o fim da auto-produção-de-mim-mesmo. Um veneno, se usado com competência, produz a morte e não pode ser usado mais de uma vez. Mas se estamos vivos e somos donos do nosso corpo, podemos e vamos alimentá-lo como quisermos. Seja para sua manutenção básica, seja para sua experimentação e possibilidade de crescimento (uma forte corrente evolucionista explica o "elo perdido" da evolução humana pelo uso de cogumelos alucinógenos), o uso de substâncias variadas é de direito de cada ser. As leis que nasceram pra que cada indivíduo tenha sua liberdade de ser, sem ser tolhido nessa liberdade pelo ser livre de outros indivíduos se invertem na legislação proibicionista, em que a própria lei começa a servir para tolher as liberdades. E veja, não liberdades que estão incomodando outros indivíduos, simplesmente liberdades de experimentar e vivenciar as possibilidades de seu próprio corpo, no caso, com o uso de um alucinógeno natural.

Assim, voltando ao ponto, o real interesse das pessoas pelas ditas drogas não é afetado pela lei e pela publicação no Diário Oficial, quem se interessa e toma ayahausca continuará a tomar, quem não, também não. Revistas como Isto É e Caros Amigos pegaram e continuarão a pegar esse gancho do momento enquanto isso vender revista, dar polêmica, trazer pontos de vistas diferentes, como faço aqui também. A publicação traz pouco de novo, a não ser facilitar que o assunto se torne gancho de momento da publicidade, digo, do jornalismo desse tipo de revista, que tem seu lado positivo ao divulgar o uso da ayahausca. E que isso potencialize a aprovação dela enquanto Patrimônio Imaterial da Cultura Brasileira (como os Peruanos já fizeram) e diminua o preconceito em geral de substâncias marginalizadas por políticas econômicas e de interesses escusos.

LEGISLAÇÃO

Assim como o viver cotidiano se dá nesse equilibrar o OFICIAL com o REAL, considero positivo quando acontecem iniciativas anti-proibicionistas como essa, mesmo que exclusivas ao argumento da religiosidade. Com o fato de ser finalmente publicado no Diário Oficial, o uso da ayahausca assume um caráter inédito na legislação nacional e pode influenciar outras legislações com esse avanço parcial. Mas considero mais importante no nível REAL que se processará uma melhor aceitação da ayahuasca no cotidiano das pessoas, e isso poderá aumentar ainda mais seu uso. E quem bebe ayahuasca sabe que seus benefícios, além de pessoais, físicos e internos, se ampliam pro social, com mais afetividade, solidariedade e amor, com menos rancor e mágoas.

Enfim, em 2010 os bebedores de ayahuasca vinculados as Religiões Ayahuasqueiras poderão se sentir mais protegidos legalmente e socialmente em seus usos e costumes, legitimaram seu REAL no OFICIAL.

Mas anarquistas como eu, mesmo percebendo essa evolução na legislação não se preocupam muito com o OFICIAL (somente quando esse pode atrapalhar nosso REAL), e continuaremos nesse caso da ayahuasca, a beber de forma escondida ou a ter de fingir ser religioso, mas manteremos nosso OFICIAL diferente do REAL, pois acreditamos que quem se limita ao OFICIAL perde a distinção e consciência do que é seu REAL. E nas sociedades em que o padrão paternalista se extende a legislação, temos de aumentar nosso jogo-de-cintura de desobediência civil com muita consciência, pois, ao se acostumar com o consenso fabricado, pode-se chegar a um grave caso de normopatia, em confundir o seu REAL com o OFICIAL para todos.

Além da minha esperança de que agora mais pessoas aceitem a ayahuasca como um uso social brasileiro, como um chopp na praia, ou a cerveja depois do serviço, também tenho a esperança dos ayahuasqueiros religiosos perderem seu medo dos que não são religiosos e apóiem nosso uso dessa bebida mágica. E se lembrem que muito antes de suas religiões se tornarem tradicionais, muito antes de Mestre Irineu e Mestre Gabriel, e de Mestre Daniel e Padrinho Sebastião, outros seres humanos bebiam de outras formas a ayahuasca, inclusive possibilitando surgirem seus mestres e ritos.

PES (AyA)

Aproveito esse texto e momento para criar um BLOG dos PES (AyA). Alguns já publicaram comentários sobre sua experiência nos PES (AyA) dentro do NING (somaie.ning.com), mas como lá depende de um cadastramento prévio para postar comentários e acessar, pretendo facilitar as trocas virtuais com um BLOG próprio.

Blog http://pesayahuasca.blogspot.com uma voz dos PES. Vamos blogar...

Rui Takeguma, 18 fevereiro de 2009

53 sessões em 26 meses. 340 doses servidas para 177 pessoas, 94 eram virgens em ayahuasca.

LEGAL (julho 2008)

LEGAL

Um amigo e ex-assistente que reside nos EUA atualmente me questionou de eu estar me expondo com site na Internet divulgando o uso da ayahuasca. Esta questão levanta diversos pontos, seja no cruzamento político entre as minhas atitudes pessoais e uma legalidade que nos cerca no âmbito jurídico, seja no uso específico de uma substância que pode, na observação de alguns, ser considerada alucinógena e, por conseqüência, ilegal.

Deixo para outro momento a discussão mais ampla sobre meu comportamento pessoal e as leis brasileiras que me cercam. Mas quem pesquisar na própria Internet e em outros textos meus poderá ter uma idéia da questão.

Especificamente ao uso da AYAHUASCA, sei que:

1. A ONU (Organização das Nações Unidas) através da INCB (International Narcotics Control Board) afirma que não só a ayahuasca, bem como as espécies vegetais que a compõem, NÃO são objeto de controle internacional.

2. No Brasil, há uma legislação que protege o uso RELIGIOSO da ayahuasca, mas condena a utilização terapêutica, que deve ser vedada, até que se comprove sua eficiência por meio de pesquisas científicas realizadas por centros de pesquisa vinculados a instituições acadêmicas, obedecendo às metodologias científicas. Desse modo, o reconhecimento da legitimidade do uso terapêutico da Ayahuasca somente se dará após a conclusão de pesquisas que a comprovem.

Enfim, pode ser usada desde que sob o controle governamental, seja o governo decidindo o que é religião (e que religiões estão registradas, carimbadas e autorizadas - quem lembra/conhece plunct, plact, zum! de Raul Seixas), seja apenas por meio de centros de pesquisas e instituições acadêmicas autorizados, registrados e carimbados pelo governo.

Quem desejar conhecer os PES entrará em contato com nossa visão de mundo, que passa pela Biologia do Conhecer. Um dos impactos desta área do conhecimento no meu viver e ver a realidade é perceber que não existimos numa realidade, e sim vivemos numa série de descrições de realidade. Enfim, chamo isso de Teoria do Multiverso, que expande a visão convencional de que vivemos num Universo.

Nesse meu devir pessoal, sempre fui crítico as religiosidades, não às espiritualidades e crenças, mas contras as instituições e religiões. E com a pesquisa científica da Biologia do Conhecer descobri que TUDO, inclusive as metodologias e pesquisas científicas, não passam de crenças. Eu que era contra a religião, descobri que de certa maneira, a própria ciência e seus métodos são formas de religião.

Com essa desconstrução, busco não mais criticar as religiões, pois não só cada um possui o direito de escolher sua religião, bem como a própria escolha não deixa de ser um ato de fé da subjetividade humana. Prefiro a definição de O QUE È RELIGIÃO de Rubens Alves na Coleção Primeiros Passos, do que o Governo Brasileiro e o CONAD (Conselho Nacional Anti-Drogas) acham do que seja USO RELIGIOSO.

Posso brincar dizendo que meu uso da ayahuasca é religioso, pois religiosamente tomo ayahuasca mensalmente. Mas minha brincadeira principal tem sido VIVER BRINCANDO e essa realidade que crio pra mim e proponho com a SOMAIÊ, Te&So e agora com os PES, ou Ayahuasca no Rio Preto, não passa por esperar uma autorização de órgãos governamentais que decidam como devo viver minha realidade.

Assim, exponho aqui na net simplesmente o meu fluir, o meu viver, e convido outros a compartilhar essa realidade. Não vejo como isso possa ser prejudicial a alguém, pois trabalho com a liberdade de decisões individuais. Meu paradigma de uso terapêutico da ayahuasca se aproxima mais das experiências de Timothy Leary com LSD na Universidade de Havard, do que desse bla-bla-bla oficial acerca de cientificismo.

Pra quem não sabe: Leary no início da década de 1960 experimentou e pesquisou o uso da LSD para a expansão da mente. Na época, outros pesquisadores insistiam pra que Leary trabalhasse DENTRO DO SISTEMA. Suas mensagens era: "A sociedade permitiu a administração de drogas pelos profissionais médicos para a cura de doenças. Qualquer um que não seja médico e forneça ou tome drogas é um traficante ou um viciado. Jogue com o sistema. Use a profissão médica da mesma forma que Freud"."Seguindo a tradição das escolas esotéricas da Antiguidade, esses sábios e intelectuais também nos advertiram no sentido de que mantivéssemos o movimento num limite intelectual, elitista, e à parte da política e do público(...)". "A mensagem era clara. Vamos manter essa descoberta pra nós mesmos". "Não a torne pública, senão você atrairá a ira dos guardiões da sociedade." Leary, apoiado por Allen Ginsberg (conhecedor da ayahuasca), optaram nessa encruzilhada por DIFUNDIR e EXPLICITAR suas pesquisas. Curiosamente, o CONAD recomenda que os grupos religiosos constituam-se em organizações formais com pessoa jurídica, e considera que o ritual responsável é incompatível com a publicidade. Dessa forma, se considerarem que esse site é publicidade, podem considerar que o ritual dos PES não é responsável. Mas como também não sou pessoa jurídica, fica tudo no mesmo saco: posso ser considerado Alegal. (acho mais legal alegal que ilegal, pois não busco estar enquadrado nessa lei, simplesmente não aceito ela, ignoro essa legislação hipócrita)

Explicito isso aqui, pois como já mais que dito, penso numa outra forma de descrever a realidade, e viver meu universo de observador nesse multiverso que é a comunicação de descrições das percepções humanas. Assim, não espero uma autorização para fazer os PES, nem pra trilhar meu viver. Simplesmente vivo e explicito para quem deseje conhecer, experimentar essa possibilidade em seu viver. Sou terapeuta e não vivo dos PES, e sim de meus grupos de SOMAIÊ. Se os PES possui taxas, é que vivemos num capitalismo de mercado e preciso pagar o feitio e transporte da ayahuasca que coordeno. Não conheço e nem nunca participei de rituais do Santo Daime e da União do Vegetal, mas bebo e comungo a ayahuasca com quem trouxe a ayahuasca para o Estado de São Paulo há mais de 35 anos (muito antes de se falar em proibir a ayahuasca). Não me interessam essas religiões que usam a ayahuasca, pois não me interesso por nenhuma religião, mas agradeço a elas por existirem e criarem esse paradoxo para o governo de liberar uma droga poderosa e alucinógena, argumentando que se é ritual religioso tudo pode... Quem sabe não criamos uma religião que use a maconha (muito mais fraca que a ayahuasca, no meu perceber) pra evitarmos de ter que subornar policiais a toda hora pra não sermos novos Bichos-de-Sete-Cabeças, ou bodes expiatórios de uma política ultrapassada e reacionária, e ainda sem nenhum embasamento científico como eles tanto defendem..

Rui Takeguma, poção da Maromba, em 6 de julho de 2008

observação: curioso que um dos "mestres" dessas religiões ayahuasqueiras, o José Gabriel da Costa, foi capoeirista. E tanto a capoeira como o uso da ayahuasca pretendem ser tombados como Patrimônio Imaterial da Cultura Brasileira. Ampliando essa curiosidade, a capoeira já foi prática ilegal, e hoje é considerada o esporte nacional, inclusive representando a cultura brasileira nas Olimpíadas. Se a capoeira deixasse de ser praticada por ser ilegal não teria todo esse status, e nem chegaria aos dias de hoje.

Capoeira e Ayahuasca (maio 2009)

Capoeira e Ayahuasca

Ambos foram proibidos no Brasil. Ambos hoje são considerados Bens Imateriais da Humanidade. Um nasce da cultura negra, outro da cultura indígena, e tanto a capoeira quanto a ayahuasca estão mescladas na globalizada cultura multicolor (que, no geral e injustamente, privilegia os de pele branca). Na Somaiê, a prática da capoeira angola é fundamental, e nas Teorias da Somaiê o uso da ayahuasca é uma possibilidade. Mas o que liga esses ambientes é a ampliação do viver: a capoeira por uma via corporal/física e a ayahuasca pela via mental/subjetiva (aqui cito o viés principal, mas logicamente ambas atingem inevitavemente a corporalidade como um todo) (*1).

Após me tornar um capoeirista e pesquisar a história de meus e de outros mestres, tornei-me professor de capoeira angola em 1995. Atualmente mantenho o Grupo (A) IÊ de Capoeira Angola com sede na Escola da Maromba (Visconde de Mauá/Itatiaia/RJ) e com rodas, no Espaço Cultural Tendal da Lapa (São Paulo/SP). Em 2002 criamos a FACA Federação Anarquista de Capoeira Angola, que já produziu 4 CD's e pretende até o final de 2009 finalizar 2 DVD's. A FACA mantém o projeto Memória da Capoeira, que já contou com os Mestres Ananias (SP), Russo (RJ), Primo (MG), Bacalhau (SP), além do Contra Mestre Nino Faísca (PE) e o professor Cenorinha (SP).

Após me tornar um ayahuasqueiro e pesquisar a história de meus e de outros mestres, tornei-me dirigente de sessões de ayahuasca em 2008. Desde então, organizo sessões de ayahuasca, começando em Visconde de Mauá, onde já foram feitas 20 sessões, e outras cidades como Conceição do Ibitipoca, São Paulo e Belo Horizonte, onde faço sessões ocasionalmente. Chamo essa vertente de PES (AyA) Pesquisa e Experiências Subjetivas Anarkia e Ayahuasca Entre Parênteses. Nesses últimos 15 meses foram 27 sessões, nas quais distribui mais de 180 doses entre 96 pessoas, sendo que 48 pessoas beberam ayahuasca pela primeira vez comigo.

Curioso como é possível traçar outros paralelos históricos entre capoeira e ayahuasca, além dos citados no primeiro parágrafo. Há uma relação entre o momento atual e a historicidade, misturados à confusão causada pelas denominações em seus ambientes. A capoeira está um pouco a frente nessa comparação, vejamos o porque.

A capoeira nasce das tradições negras e vive um primeiro período, que aqui chamarei de PRÉ-HISTÓRIA, que engloba desde a vinda da África até seu uso no Brasil na década de 1930. A PRÉ-HISTÓRIA da ayahuasca começou há mais de 5000 anos, com sua ruptura também na década de 1930. Coincidência??!! A passagem para a fase da HISTÓRIA, em ambos casos, se dá no contexto das oficialidades. Na capoeira, o mestre Bimba, Manoel dos Reis Machado (no contato com pessoas de classes mais abastadas, principalmente acadêmicos) cria uma Academia, e leva a capoeira a sua expansão, através do ambiente desportivo. Na ayahuasca, a oficialização se dá com a criação de uma Igreja pelo mestre Irineu, Raimundo Irineu Serra (Santo Daime), expandindo a ayahuasca através do ambiente religioso. Seria forçar a barra das coincidências comentar que ambos mestres eram negros e de porte físico avantajado??!!

A meu ver, tanto a capoeira quanto a ayahuasca utilizaram meios que diferem da sua origem para se expandirem, o ESPORTE e a RELIGIÃO. Como memes culturais que buscam formas de se modificar para ampliar sua área de atuação (*2). Em ambos casos considero marcante a ruptura com o ambiente inicial (negros e índios) para um ambiente mais eclético, e a questão da fusão de novos elementos ritualísticos que modificam a estrutura original. Outra semelhança é a argumentação da “autenticidade” e crítica aos grupos de outra origem que não a sua, gerando um tipo de concorrência e argumentos de legitimidades próprios.

Na capoeira, na fase HISTÓRIA, nascem outros grupos buscando outras formas de praticá-la, como o mestre Pastinha, Vicente Ferreira Pastinha, que é anterior na prática da capoeira porém posterior na questão da oficialidade, e que nomeou sua capoeira de angola, pra diferenciar da capoeira regional de mestre Bimba (angola é o termo geral usado pra designar a capoeira de mestre Pastinha, porém ele buscava traduzir na sua época os elementos antigos, da PRÉ-HISTÓRIA da capoeira - ver meu texto Qual é A Sua ? Angola, Regional ou Contemporânea? (*3)). Na ayahuasca, também na fase HISTÓRIA, nascem outros grupos com outras formas ritualísticas, como mestre Daniel (Barquinha), Daniel Pereira de Mattos e mestre Gabriel (União do Vegetal), José Gabriel da Costa, que além de ayahuasqueiro era capoeirista.

No século passado ambas as culturas se expandiram, tanto na geografia, quanto no perfil de seus participantes. Geograficamente a ayahuasca sai da região da Floresta Amazônica, vindo para o sudeste e, atualmente, em inúmeros países; a capoeira angola sai do Recôncavo Baiano para o restante do Brasil, e também em inúmeros países (*4). No perfil dos participantes, não há como enquadrar os tipos de pessoas que bebem ayahuasca ou praticam capoeira, pois independente da cor de pele, crença religiosa, ou classe econômica, elas se tornaram culturas globalizadas, e quem quiser tem acesso a elas.

Neste século ambas se tornam Bem Imaterial, a capoeira tombada pelo IPHAN e a ayahuasca em trâmite de tombamento, sendo que no Peru já foi tombada. Nesta etapa, surgem rupturas com quem gerou as primeiras rupturas. Na capoeira isso se dá com a maioria dos grupos em atuação, que nomeiam sua prática de capoeira angola e regional, numa tentativa de unir o antigo ao moderno. Porém, essa capoeira se afasta da capoeira angola e da capoeira regional, gerando uma capoeira que eu e alguns autores chamam de contemporânea (tantos nomes gerando tanta confusão, pois é claro que tudo que é feito hoje é moderno, contemporâneo e faz parte da história, mas assim como existem esses parênteses explicativos, o viver é feito dessas confusões semânticas, e aqui procuro fazer um texto geral, para os leigos na história da capoeira e da ayahuasca).

Na ayahuasca essa confusão também se dá: pois, há os grupos chamam sua ayahuasca de Daime, Vegetal e Oasca, além dos recentes grupos que buscam juntar a brecha legal do uso da ayahuasca conseguida no viés das religiões, com o uso antigo (indígena), ou com novas experiências como simplesmente um uso recreativo e social da bebida. (*5) Importante ressaltar o atraso das Leis em relação aos costumes. Juridicamente, os costumes é que primeiro geram as Leis e oficialidades, e sempre os que buscam uma nova forma de viver, rompendo com regras rígidas e ultrapassadas, normalmente numa desobediência civil e legal, acabam gerando as Leis do amanhã. Assim, por exemplo, somente em 1976 os centros de culto afro-índios-brasileiros foram liberados da obrigação de se cadastrarem e se submeterem à fiscalização das delegacias de costumes, o que acarretava as maiores arbitrariedades.

Aqui volto ao ponto de a capoeira estar um pouco a frente nesta comparação: pois a maior parte dos praticantes são os que se enquadram no uso competitivo/esportivo (daqui a alguns anos entrará nas olimpíadas), sem a exclusão do uso da capoeira para outros fins como a ludicidade ou a vagabundagem (não-esportiva).

Já na ayahuasca, a maior parte dos atuais bebedores são os que se enquadram no uso de rituais religiosos, mas não questiona a arbitrariedade das leis proibicionistas, muito pelo contrário, e algumas vezes se utiliza dessas leis para tentar controlar outros grupos com outros rituais (não-religiosos). Assim, por essa lógica, os índios tradicionais que não se filiassem às religiões também estariam ilegais no uso da ayahuasca, caso não fossem inimputáveis pela Lei brasileira. Ou seja, vivemos um momento em que as religiões ayahuasqueiras tentam autoritariamente (com apoio do Estado) impedir outras formas de uso da ayahuasca. É como se os capoeiristas esportivos (capoeira contemporânea que mantém competições) tentassem impedir o uso da capoeira por quem não quer competir, simplesmeste a usa como seu prazer, ou como eu, também como desenvolvimento pessoal.

Nesse âmbito de morar num país em que a maior parte da economia é informal, e o Estado segue uma visão proibicionista e reacionária, mas com fachada democrática (veja Proibicionismo na página 5), é interessante como se permitiu o uso, desde que “religioso”, dessa bebida natural (*6). Para mim, mais um paradoxo legal, temos liberdade religiosa de usar a ayahuasca, mas não temos a liberdade pessoal de usar a ayahuasca. Como capoeirista é fácil ver como este critério autoritário era o mesmo que a cultura branca utilizava através de métodos legais para impedir o desenvolvimento do negro e sua libertação. Pois a capoeira como luta ameaçava o status quo, e não dando certo sua marginalização, a opção foi sua cooptação através do esporte. A ayahuasca com seu poder de ampliação de consciência também ameaça os donos do poder, e seu caminho tem sido o da cooptação das religiões, outra forma de doutrinação e controle. Se os ayahuasqueiros, mesmo religiosos, aprenderem algo com a história da capoeira, descobrirão o caminho do anti-proibicionismo.

Como nas Teorias da Somaiê buscamos SER e não TER, e nossa busca de poder é a busca da autonomia individual, optamos em nomear de anarkia o nosso caminho; com uma base biológica da percepção humana, colocamos um parênteses nessarealidade limitada das religiões e esportes. E decretamos que, ao invés das leis elaboradas por corruptos no Congresso Nacional, procuramos seguir a Lei da sociedade alternativa de Raul Seixas:

Faze o que tu queres, há de ser tudo da Lei! (ver capa deste jornal= www.jornaltesao.blogspot.com )

o b s e r v a ç õ e s :

(*1) Isso será tema em texto futuro, mas adianto que ambos mexem com a couraça neuromuscular do caráter. A capoeira com seus efeitos bioenergéticos, e a ayahuasca com sua bioquímica (principalmente a DMT - n -dimetiltriptamina) produzem uma reorganização energética, onde um sintoma comum é a ânsia de vômito, além de outros efeitos neurovegetativos.

(*2) Aqui comparo essas culturas com as idéias de Richard Dawkins, nas quais ele formula as teorias dos Memes, em comparação biológica com os genes: assim como somos somente envólucros para a verdadeira vida que são os genes, as idéias podem ser consideradas “vivas” e se utilizam de formas para se propagar. Mais detalhes ver o já clássico livro deste autor, O Gene Egoísta.

(*3)Pode ser acessado em http://brancalulaleone.vila.bol.com.br/qualeasua.html

(*4) Existiu na fase PRÉ-HISTÓRIA uma forte capoeira no Rio de Janeiro, porém sem o uso do berimbau e que não produziu uma descendência como a capoeira baiana, esta sim, gerando a capoeira como conhecemos hoje.

(*5) A antropóloga Beatriz Caiuby Labate cunhou o termo NEO-AYAHUASQUEIROS para definir os usos urbanos desta bebida que derivam das religiões do Santo Daime e da União do Vegetal, mas se afastaram dela conforme associam suas crenças ao movimento da nova era. Sendo um movimento constante de afirmação do seu caráter terapêutico, medicinal, lúdico, espontâneo e, sobretudo “alternativo”, procurando negar os conteúdos e práticas religiosos ou rituais, tidos como tradicionais. (A reinvenção do uso da ayahuasca nos centros urbanos, editora Mercado de Letras, 2004). Discordo da Beatriz Labate, pois considero que as religiões ayahuasqueiras é que deram um sentido NEO, rompendo com o uso tradicional (indígena), e limitando a uma cosmogonia religiosa européia ou européia/africana. O que ela chama de NEO-AYAHUASQUEIRO, categoria na qual se enquadra minha pesquisa (PES (AyA)), eu chamaria de PÓS-NEO-AYAHUASQUEIRO. Pois pra mim, AYAHUASQUEIRO seriam os índios que ensinaram os primeiros mestres no século passado, e estes que criaram as religiões ayahuasqueiras: Santo Daime, Barquinha e UDV, estas sim, para mim, NEO-AYAHUASQUEIRAS. Assim, finalizando essa confusão semântica (que eu vim pra complicar), os ayahuasqueiros fizeram parte da PRÉ-HISTÓRIA, e os neo-ayahuasqueiros geraram a HISTÓRIA (legalidade). E hoje em dia, o uso da ayahuasca é compartilhada pelos 3 tipos de ayahuasqueiros: os ayahuasqueiros, os neo-ayahuasqueiros e os pós-neo-ayahuasqueiros. Adoto essa visão, pois os índios em nenhum momento pararam de beber ayahuasca, e utilizam ela de uma forma muito mais ampla que o uso religioso, inclusive para rituais de guerra.

(*6) Inclusive, considero ser muita hipocrisia beber ayahuasca e condenar quem usa maconha, ou outras chamadas “drogas”.

Rui Takeguma, Jornal TESÃO 7, maio de 2009

Nada como tudo que a gente queria (agosto 2008)

Nada Como Tudo Que A Gente Queria

A cada ano faço reflexões sobre o trilhar de minhas pesquisas e as publico em forma de manifesto na Internet. Este ano vou abordar dois assuntos inicialmente distantes entre si: o falecimento de Roberto Freire e o uso da ayahuasca. Quem sabe ao final deste texto eles se entrelacem.

Soube pela Internet do falecimento do escritor e criador da Soma, Roberto Freire. Fui amigo e companheiro do Bigode (apelido que carregou por grande parte de sua vida) por 13 anos, de 1990 a 2002, conhecendo-o primeiro como seu cliente, depois como formando e, por fim, como companheiro de trabalho. Nos últimos seis anos estávamos afastados por variados motivos, inclusive no ato de rompimento publiquei na Internet um texto que gerou polêmica: Morto Roberto Freire, Viva Roberto Freire, no qual explicitei nossa separação pessoal e minha continuidade com a técnica da forma que acredito. Ao me afastar do Freire e continuar a desenvolver a técnica que aprendi com ele, mudei o nome do trabalho e aos poucos vou deixando-a mais "a minha cara". Nos últimos quatro anos pontuo uma evolução a Soma que praticávamos de 90 a 2001 ao agregar, na teoria, a Biologia do Conhecer e, na prática, a retomada da pedagogia libertária mais agregada aos grupos de terapia. Sobre o Freire, divulguei e mantenho uma página pra linkar com obras suas e outras informações: http://teso.vilabol.uol.com.br/robertofreire.html

Meu rompimento com a pessoa não invalida o que vivenciei e aprendi com ele, inclusive dando continuidade a minha maneira. Sua forma de produzir e viver me influenciaram tanto quanto meus aprendizados técnicos da somaterapia e, hoje, comparo a influência que Freire teve pra mim na criação da Somaiê com a influência que a obra de Wilhelm Reich teve para ele. A SOMA sempre assumiu publicamente usar somente parte da obra de Reich, excluindo o início psicanalítico e o final orgonômico. Da mesma forma, a SOMAIÊ utiliza a pesquisa da SOMA e do Freire do período de 1990 a 2001, pois antes de 1990 há, além do período psicanalítico, a crise com o uso da capoeira angola. Assim, participei de uma fase em que implantamos e definimos a pesquisa da SOMA/capoeira angola.Além disso, também me afasto das últimas pesquisas da SOMA, com sua participação ativa na cultura acadêmica, em cursos de mestrados e doutorados, assim como a legalização de um instituto pra formar novos terapeutas. Mantenho minha preferência ativa na pedagogia libertária, que gera os cursos quadrimestras (agora semestrais) de Encontros de Te&So nas cidades onde acontece a Somaiê.

Também mantenho a formação de novos terapeutas como uma relação pessoal e informal (ilegal), que se explicita na Internet e possui a possibilidade de ser somente teórica, ou teórica e prática (http://teso.vilabol.uol.com.br/abc.html). Atualmente, são quatro participantes em formação e, pela primeira vez, sinto que alguns conseguirão avançar de etapa. Apesar de várias pessoas já terem iniciado esse processo anteriormente, vive-lo num autodidatismo prático não é tão simples. A grande maioria se vicia numa autoridade que irá cobrar seu desenvolvimento.

Assim, há diferenças entre a SOMA que pratiquei e a SOMAIÊ que pratico. Aqui exponho as que percebo, mas sob alguns aspectos mantemos os mesmos objetivos. Sob uma ótica possível, sou tão Freireano e somático hoje em dia como quando estava ligado ao Freire, e considero que a genialidade dele na criação da técnica antecipava posições que hoje defendo pela Biologia do Conhecer. Isto é, Freire continua atual na SOMAIÊ, e posso comparar que a SOMA é uma parte dela, tanto na palavra quanto na prática terapêutica que desenvolvo. Estamos sempre evoluindo, de forma que ambos os trabalhos de hoje (o meu e o do Brancaleone) são evoluções da SOMA da década de 1990: aquela que implantou a capoeira angola como recurso terapêutico dentro de um coletivo de atuação anarquista, e que faz parte dos anos de aposentadoria do Freire como terapeuta, deixando finalmente uma equipe assumindo seu papel.

Freire faleceu 40 anos depois do MAIO de 68. Se em 2002 anunciei sua morte na minha relação pessoal e profissional, assumindo meus pontos de discordância, agora o que interessa é que, além de evolução, pratico uma continuidade do trabalho e faço uma homenagem ao Roberto Freire que vi atuar e liderar. Se morto Roberto Freire, Viva Roberto Freire. Disse em 2002 e repito agora, pois o Bigode continua a me inspirar como profissional e pessoa pra fazer minha Somaiê.

E nesse meu fazer há novas pesquisas. Desde 2006, vivencio no meu cotidiano o uso da ayahuasca como um recurso de ampliação das minhas percepções e, neste ano de 2008, a incorporei às pesquisas de campo das Teorias da SOMAIÊ, chamando-a de PES (AyA) – Pesquisas e Experiências Subjetivas Anarquia y Ayahuasca entre Parênteses. A descoberta da AYAHUASCA como recurso terapêutico e como possibilidade de expansão da consciência e corporalidade é uma outra forma de abordar o Anarquismo entre Parênteses, mas atualmente as pesquisas não se misturam. A SOMAIÊ é uma técnica de 20 meses e NÃO usa a ayahuasca, o que não impede que alguns participem dos PES (AyA).

A Ayahuasca é uma bebida natural que, segundo o Conad e as as autoridades brasileiras, NÃO É ALUCINÓGENO, e pode ser utilizada com finalidades religiosas e terapêuticas. Foi aceita legalmente pela sua relação recente com a religião (Santo Daime e União do Vegetal, que também nomeiam a bebida), mas já é usada pelo homem há mais de 5000 anos. Afinal, é a junção e cozimento de um cipó e de uma folha.

O cipó possui os alcalóides B-Carbolina que inibem uma enzima do nosso corpo chamada de MAO (monoamina oxidase). Com a inibição química do cipó, ficamos vulneráveis a ação da DMT, dimetiltriptamina, substância presente na folha e que provoca os efeitos semelhantes ao ácido lisérgico (LSD), só que com uma química natural e uma substância do nosso corpo, o DMT. Inibidores de MAO são usado na medicina e psiquiatria como tratamento de depressão. Parte dos efeitos vem com o DMT e outro pela ampliação da Serotonina (mais detalhes no site PES - http://p.e.s.vilabol.uol.com.br/).

Essa forma "química" é simplificadora e pouco informativa, pois as mudanças de FEITIO da ayahuasca interferem na qualidade da bebida, com inúmeros outros componentes que alteram seus efeitos corporais. Isso se amplia e se modifica drasticamente conforme o RITUAL do USO da ayahuasca, além da influência da SUBJETIVIDADE de cada um no momento de ingestão da bebida.

Venho produzindo, desde o início de 2008, sessões de experimentação da ayahuasca chamadas de Ayahuasca no Rio Preto ou Pesquisas e Experiências Subjetivas. São inúmeras as possibilidades que começei a oferecer como pesquisa dos PES dentro do Te&So e, a partir do segundo semestre, expando para outras cidades, inclusive o meio urbano. Já aconteceram 12 sessões com 51 participantes no total, inclusive mais da metade destes experimentaram a ayahuasca pela primeira vez. 84 doses em oito meses, em sessões variadas que estão servindo de um rico laboratório de percepções subjetivas.

A ayahuasca se encontra com a SOMAIÊ ao mostrar como não vivemos numa REALIDADE e sim numa série de DESCRIÇÔES DE REALIDADE. A Biologia que defendo não é subsidiada por universidades nem governos, pois vai numa direção oposta as do reducionismo científico. Pra mim o indivíduo é a verdadeira unidade ontológica da evolução, e a natureza é constituída de PROCESSOS, e não de OBJETOS. Esses processos relacionais são sempre eventos dentro da esfera de ação de um observador.

Assim como a SOMAIÊ acontece há 7 anos, os PES e a pesquisa com a ayahuasca tem menos de 1 ano, mas em ambos é minha experiência como terapeuta e profissional, de 19 anos de somaterapia, que se ligam e se misturam. Assim como quem faz SOMAIÊ não usa a ayahuasca na técnica, quem participa dos PES não precisa conhecer ou ter feito SOMAIÊ, mas, em ambos os casos, as pessoas entrarão em contato com o que venho chamando de Anarquismo entre Parênteses, uma evolução do anarquismo somático que desenvolvi na minha época com o Bigode.

Uma coincidência interessante é que tanto a CAPOEIRA como a AYAHUASCA são considerados BENS IMATERIAIS DA HUMANIDADE. A Capoeira foi recentemente tombada pelo IPHAN, e a Ayahuasca está com o pedido em trâmite, sendo que no Peru já é considerada bem Imaterial. Não sei o que será das oficialidades, mas as Teorias da Somaiê (Te&So) já incorporaram essas práticas como benéficas e úteis ao desenvolvimento humano. Apareça e cresça, seja pra conhecer a SOMAIÊ com a capoeira angola ou os PES (AYA).

Outro dia eu estava me preparando pra uma sessão dos PES, tomando uma sauna com a minha namorada e minha filha Cecília, de cinco anos, que falou: "Papai, nada como tudo que a gente queria, né?" Acho que a obra do ex-amigo Freire propunha essa busca hedonista por um cotidiano agressivo e politizado: a ideologia do prazer no cotidiano, do sem tesão não há solução. Acho que no que a Ayahuasca mais me ajuda é a sentir e a me mover no viver cotidiano, propondo novas teorias a Somaiê. É essa a busca e aperfeiçoamento, um refinamento desse prazer. E a sensação de poder responder pra filha (ou pra qualquer outra pessoa): "...é, nada como tudo que a gente queria.".

Rui Takeguma, Maromba, agosto de 2008

Eu Sou Deus (janeiro 2010)

FIGURA 1
FIGURA 2

FIGURA 3


FIGURA 4












Eu Sou Deus








Somaiê e Te&So em 2010, o ano em que faremos contato















Eu Sou Deus. E declaro que Deus está vivo, pois Eu estou vivo. Percebo-me vivo, sinto-me vivo e posso mudar... Pois é ao mudar que me percebo e me sinto vivo... Mudar de Posição, mudar de ponto de vista, mudar de comportamento, mudar as percepções, mudar as sensações, enfim, mudar o mundo. Se posso fazer isso com meu corpo, posso fazer isso no meio ambiente, pois é no meio ambiente que percebo o que é meu corpo e como posso dispô-lo no espaço a cada instante. Sou Deus, pois as religiões e ciências morreram e se fundiram. Das suas cinzas nascem as percepções primeiras, de que somos biologia, uma biologia que se percebe e se conhece, se define e nomeia, criando um mundo. Um mundo de palavras, um mundo de palavras que se fundem com as percepções primeiras.















(O mundo não é, o mundo está sendo. (...) O conhecimento exige uma presença curiosa do sujeito em face do mundo. Requer uma ação transformadora sobre a realidade. Demanda uma busca constante. Implica em invenção e reinvenção. Paulo Freire)















1. EU SOU TE&SO - janeiro








Neste texto pretendo explicar sobre a proposta da Somaiê e Te&So, um caminho que nasce na Psicologia, passa pela Religião e Medicina, sempre no viés de um outro olhar sobre as oficialidades. Procuro demonstrar como Todos Somos Deuses, porém a grande maioria ainda não aceita isso...








Teorias & Somaiê, ou Te&So, formam o corpo social da Somaiê. Algo que se pretende num vôo de possibilidades, pesquisas e produção, ao mesmo tempo com raízes que aprofundam essas possibilidades. Neste caso, várias técnicas de conhecimentos interrelacionados a uma somaterapia. Aí propomos, como uma nova forma de se olhar, a Biologia do Conhecer de Humberto Maturana (1927- ) sobre a Soma de Roberto Freire (1927-2008), gerando o Anarquismo entre Parênteses. O Te&So existe há 6 anos, somados a 14 anos de descobertas pessoais que transitam pela vida e obra de Wilhelm Reich (1897-1957) e por uma indignação social que me levou ao anarquismo somático para argumentar meus ideais de pensamentos e sentimentos, que poderiam ser simbolizados aqui pela experiência da Colônia Cecília no Paraná, em fins do século XIX, quando anarquistas viveram uma experiência de produção e amor em liberdade.








Teorias & Somaiê possui uma estrutura de 10 caminhos diferentes que se inter-conectam (*1). Nesse texto procuro mostrar como a SOMAIÊ/Te&So são hoje meus caminhos no mar cultural do viver, podendo serem enquadradas em áreas específicas: quem navegue pela terminologia da psicologia, poderá denominar essa linha dupla (SOMAIÊ/Te&So) de um tipo de psicoterapia corporal (ou como prefiro, uma Somaterapia de Soma, num viés de entender que a psicologia é somente uma Somaterapia de Psique). SOMAIÊ/Te&So pode estar na cultura popular, na política, na pedagogia, jornalismo, ecologia, produção cultural e, não duvido, para outros aparentar ser uma religião.








Assim, as Teorias & Somaiê são um conjunto sinérgico de atividades, que ao se envolver em áreas diferentes fortalece o funcionamento da ferramenta de libertação pessoal: a prática da Somaiê, uma técnica, ao mesmo tempo, terapia corporal e pedagogia libertária, com duração média de 18 meses.








O filme 2001 - Uma Odisséia no Espaço do genial Stanley Kubrik foi lançado em 1968, um ano antes de meu nascimento, com roteiro de Kubrik e Arthur G. Clarke. Quando assisti e pensava na data de 2001, me imaginava um velho de 31 anos. Interessante que a temática do filme também permeia este texto: ciência e religião (*2). Em 1984, na minha adolescência, é lançada uma continuação, de Peter Hyams: 2010 - O Ano em que faremos contato, considerado um filme menor, mas que aqui busco lembrar mais pelo genial nome e coincidência da data que se aproxima. Assim, torno esse texto meu manifesto para 2010, que chego como uma criança de 41 anos.








Enfim, esse texto procura ser, além de uma voz de divulgação, uma tentativa de HARMONIZAR áreas aparentemente desconexas e antagônicas. Uma tentativa de propor um comportamento de aceitação da diferença no outro, mostrando como na maioria das vezes que temos boas intenções, os fins serão os mesmos, o que reforça aceitar a diferença dos caminhos. Uns preferem remédios alopáticos, outros remédios homeopáticos, outros preferem ervas naturais. Uns preferem terapias com prioridade no verbal, outros uma terapia que prioriza movimentos, outros preferem ambas as coisas. Uns querem terapias individuais, outros terapias em grupo. Uns preferem religiões que comem a hóstia, outros que bebem a ayahuasca. Uns preferem rezar, bailar, concentrar e falar ao beber ayahuasca, outros não. Uns preferem ter mestres, outros não. Gostos e opiniões nos distinguem uns dos outros. Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. Cada caminhante fará seu caminho. Com isso, quem prefere as religiões, a medicina ou a psicologia, tem à sua disposição inúmeros facilitadores e caminhos prontos (as instituições religiosas e as instituições acadêmicas). E quem desejar ir por um caminho diferente e arriscar (primeiramente com seu corpo), pode encontrar nas pesquisas da Somaiê/Te&So um atalho e, ao se aproximar de nossos movimentos, talvez descobrir seu próprio caminho. Assim o fiz e continuo a fazer, quem puder que venha ao lado...








Uma possibilidade de contato consigo próprio, num caminho também próprio, e que aqui chamo de se perceber e assumir-se Deus. Perceber que todas as curas médicas ou religiosas são, antes de tudo, auto-curas. Para isso, veremos o corpo enquanto energia e enquanto matéria. Ou seja, energia gerando o movimento corporal (rígido ou flácido), e que Reich denominou de Couraça Neuromuscular do Caráter. Reich ainda indicou como isso acontecia devido a questões político/sociais, e depois Freire denominou de Couraça Somática este comportamento ideológico das pessoas. Enquanto matéria estudamos a questão da nossa estrutura autopoiética e seu duplo fluir em uma rede neuronal fechada acoplada a um corpo que também se acopla a um meio ambiente. Como esse mudar corporal e comportamental geram mudanças que ultrapassam os âmbitos da Psicologia e suas curas da psique, permeiam a Medicina com as curas físicas (somatizações) e alcançam as Religiões com as curas espirituais (de comportamento ou que não explicadas pela Medicina).








Posso comparar a Somaiê com o Te&So com a imagem que Humberto R. Maturana e Francisco J. Varela nos trazem no livro A Árvore do Conhecimento, (FIGURA 1 ) A Somaiê seria a parte animal da figura, e a Te&So a parte vegetal, faça você leitor, a distinção...















(Viver na plenitude é abandonar-se ao que se faz. Pouco importa que se trabalhe, que se fale com um amigo, que se eduque uma criança, que se escute uma conversa, que se pinte um quadro, que se faça isto ou aquilo. Wilhelm Reich)















2. EU SOU REICH - fevereiro








Direta ou indiretamente, somos filhos de Wilhelm Reich e suas teorias e práticas. Roberto Freire, José Ângelo Gaiarsa (1920- ) e Luiz Moura (1925- ) foram os principais divulgadores no Brasil. Hoje valorizo Reich por trazer e entender, a pedido do próprio Freud (mostrando que também somos todos filhos deste), a importância do corpo na psicologia, mas principalmente no viver, mostrando como o mistério das disposições corporais rígidas podiam ser denominadas ao olhar de um observador (que pode ser a própria pessoa) de couraças musculares do caráter. Um grande estudo das bioenergias, terminando seus dias a abandonar as técnicas terapêuticas individuais, propondo mudanças na educação das crianças e se dedicando a energias fora do corpo e ao espaço (desde a confecção de Cloud-busters até pesquisas sobre UFO`s e extra-terrestres). De qualquer maneira, se tornou interessante que mesmo seus discípulos oficiais que ficaram de abrir seus últimos escritos, 50 anos depois de sua morte (conforme testamento), não o abriram em 2007.








Se por anos vivemos uma expectativa de que poderia vir algo de novo de Reich, vimos como a sociedade ainda prefere esconder, esquecer e academizar. Reich, no fundo, propunha mudanças que estamos longe de viver na sociedade como um todo e que poderiam ser lembradas por uma frase que ele publicou em todos os seus livros: “O Amor, o trabalho e o conhecimento são as fontes de nossa vida. Devem também governá-la.” A radicalidade de Reich que identifico como vivacidade, e olho ainda com total admiração, mostrou como mexendo o corpo poderíamos modificar os padrões do viver, em níveis físicos e emocionais. E ele assim o fez no seu viver...








No viés da Biologia do Conhecer confirmamos a interação mente-corpo, intuída por Wilhelm Reich há mais de 80 anos com a couraça neuromuscular do caráter e seus estudos sobre emoção, mas a subordinamos a uma instância da fisiologia/anatomia. Resgatamos dos estudos de Roberto Freire e a Soma, uma terapia anarquista (inspirada em Reich, com auge de pesquisas na década de 90) o entendimento da couraça somática como uma ponte para o domínio do comportamento.








O pensamento funcional que Reich nos legou, a meu ver, é como a visão sistêmica de Maturana, ou a visão complexa de Edgar Morin: formas de ultrapassar o caquético e esclerosado mecanicismo que dominou a cultura ocidental nos últimos 400 anos. Reich descobriu no movimento corporal e muscular o que, mais tarde, Freire concilia com a cultura popular da capoeira. Se Descartes (*3), uma das forças do pensamento mecanicista, já dizia, Penso logo existo, Freire ao misturar Reich com o anarquismo e a capoeira nos disse que se Penso, logo hesito. A Somaiê busca um fluir aliando o pensar ao fluir corporal. É a entrega a potência orgástica nos termos reichianos, mas agora revista pela biologia contemporânea (que detalho mais adiante deste texto) em que todo sistema racional tem um fundamento emocional, pois as emoções são disposições dinâmicas que ocorrem na fisiologia internamente (no sistema nervoso) e no organismo, que acontecem enquanto acontecem as ações no fluir de nosso viver.








Curioso que Descartes acreditava que a glândula pineal (um pequeno complexo de células que está envolvido na percepção da luz, encontrada até nas criaturas mais primitivas) funcionava como uma válvula pela qual Deus se ligava a alma humana. "E uma das principais funções dessa glándula, é a produção de melanina, uma molécula-chave que, entre outras coisas, pode ser o elo entre a mente e a matéria, o veículo entre cérebro e a mente, pensamento e realidade, e assim por diante. A melanina pode fazer coisas extraordinárias: transformar ondas sonoras em ondas luminosas e vice-versa; transformar energia elétrica em ondas sonoras ou luminosas; e possivelmente relacionar e intermesclar todos os sinais sensoriais, para citar apenas algumas das capacidades dessa pequena molécula. A melanina é encontrada em todas as formas de vida (...)" (*4)















(Sem Tesão não há solução. Roberto Freire)















3. EU SOU FREIRE - março








Nesse definir o que SOU, eu acreditava no argumento da Originalidade Única defendida por Freire na Soma, inclusive como um princípio. A Soma, com um pé na biologia (a herança genética do DNA nos dando uma exclusividade de combinação) e outro na política (a visão de fazer em seu comportamento o que se deseja no comportamento social) propõe um individual pleno em um social pleno: pessoas descobrindo sua originalidade única e vivendo num anarquismo. Ao descobrir o anti-essencialismo descobri novos argumentos para designar minha prática: Potencialidades Múltiplas em vez de Originalidade Única e, principalmente, uma forma não mais unicista e sim dualista de ver e descrever o viver. Na questão da Originalidade Única, Freire recai no mesmo erro em que os que acreditam que os genes contém a "informação" que especifica um ser vivo (*5). Ao buscar e defender teoricamente a Originalidade Única, Freire confunde a participação especial com responsabilidade única.








Conhecer é ser e ser é conhecer. A Somaiê traz incorporada o que conheci na Soma que criei e convivi, na capoeira angola que lutei e brinquei, e na pedagogia libertária que expressa na prática cotidiana o agir das teorias libertárias e revolucionárias. Hoje nomeio de Anarquismo entre Parênteses, no lugar de Anarquismo Somático. Assim, somos uma dissidência com mudanças, e na voz do Freire numa última entrevista (2005), chamada de deformação da Soma. Ao responder críticas de um somaterapeuta a Soma de Roberto Freire (e a somaterapia que participei) no mês passado (*6), vejo que me distancio claramente da Soma desta década, que busca entrar nas universidades e se institucionalizar, mas me mantenho firme na radicalidade ética entre discurso e ação que Freire propunha e a busca do tesão no cotidiano.








Nosso viver se dá num presente de sensações e percepções que a grosso modo dividimos entre externas e internas, numa tentativa perceptual de traçar um limite entre o que também é percebido e sentido corporalmente e denominamos "nosso corpo", e o que seria externo a esse ser/indivíduo/sensações. No sentido mais simples, a consciência é um dar-se conta do mundo externo. Ao mesmo tempo, somos a comparação desse presente de sensações e percepções com um passado de sensações e percepções que foram vividas e no nosso fluir registramos isso em nosso corpo, seja nas couraças corporais, em que fixamos inconscientemente tensões gerando uma cronificação, seja na plasticidade da dança das sinapses, na qual vamos modificando nosso viver a medida em que vivemos. E a cada repetição de uma sensação, já estamos modificados pela sensação, o que a grosso modo impossibilita sentirmos a mesma coisa em algum outro momento, sempre as sensações e percepções são novas e têm de se adequar a nossa estrutura mutante.








No âmbito do visível, em que psicologias e psiquiatrias se ancoram no que é o corpo físico e seu comportamento, navegamos com a Somaiê em técnicas derivadas das possibilidades de desbloqueio energético que Reich favoreceu ao ocidente e ao pensamento científico, entrando no âmbito do invisível ao descobrir e nomear de energia orgônica (ou orgone) o que se encontrava a milênios no oriente com seus nomes e formas de nomear essa mesma energia: Mana, Prana, Tchi. Pra Pitágoras era Pneuma, para Hipócrates era Vis Medicatrix Naturæ, para Mesmer era magnetismo animal e para Hahneman era força vital (*7).








"O Eu biológico incorpora não só alimento, água e ar - seus requisitos físicos -, como fatos, experiências e impressões sensoriais, que podem se transformar em lembranças. Todos os seres vivos - não apenas os animais, mas também plantas e microorganismos - são dotados de percepção. Para sobreviver, o ser orgânico tem de perceber: tem que procurar ou, pelo menos, reconhecer o alimento e evitar os perigos ambientais. (...) A mente e o corpo, o perceber e o viver, são igualmente auto-referentes, são processos de auto-reflexão já presentes nas bactérias mais primitivas. A mente, assim como o corpo, provém da autopoese. (...) Mudar para permanecer o mesmo é a essência da autopoese. Aplica-se tanto à biosfera quanto à célula. Aplicado as espécies, conduz à evolução" (*8).















(A vida é algo que se come, que se ama ou que é letal. James E. Lovelock)















4. EU SOU GAIARSA - abril








José Ângelo Gaiarsa também teve formação médica, como Reich, Freire e L. Moura. Mas Gaiarsa (como aponto na observação *1) foi, como Reich, quem mais pesquisou em educação infantil, inclusive ultrapassando Reich na questão do estudo do movimento e suas relações neurológicas. Segundo Gaiarsa, dois terços do nosso cérebro se ocupam dos nossos movimentos, pois são complexos, rápidos, em grande parte dirigidos pela visão. E nosso sistema motor trabalha com 95% no automático, isto é, inconscientemente.








Segundo alguns cientistas, temos um cérebro que manipula 400 bilhões de bits de informação por segundo, e tornamos consciente somente 2 mil bits por segundo (*9). Assim, em nosso estado dito normal, o que trazemos a consciencia é uma dose milimétrica do que teríamos acesso caso ampliássemos de alguma forma nossa percepção. Esses números são bem maiores que quando dito, no senso comum, que usamos somente 10% de nosso cérebro, mas em ambos os casos se visualiza como a normalidade é um estado medíocre, e como explica Gaiarsa são casos doentios, de normopatia. É essa normopatia que as religiões e terapias normalmente procuram manter. Além disso, nossa corporalidade se conecta com nosso sistema nervoso. Possuímos mais de 250 mil unidades motoras que interconectadas nos dão a sensação da vida, do movimento, do espaço, do tempo. Cerca de 100 bilhões de interneurônios interconectam em torno de um milhão de neurônios motores, que ativam as unidades motoras, com aproximadamente uma dezena de milhões de células sensoriais distribuídas como superfícies receptoras em vários locais do corpo.








Maturana entrelaça o entendimento do ser vivo como uma rede fechada de mudanças de relações de atividade. A partir disso, propõe a palavra Autopoese (ou Autopoiese) para designar o fato dos seres vivos serem sistemas autônomos como redes discretas de produção molecular, no qual as moléculas produzidas constituem a mesma rede que as produz. É um sistema que se sustenta por seus próprios cordões, e se constitui como distinto do meio circundante mediante sua própria dinâmica, de modo que ambas as coisas são inseparáveis. Somado com o conceito de que há uma clausura operacional dos neurônios em relação ao restante de nosso corpo (pois o sistema nervoso funciona como uma rede fechada de mudanças de relações de atividades entre seus componentes), o viver é um entrelaçamento de dois domínios operacionais distintos: o domínio fisiológico do organismo, onde ocorre sua dinâmica estrutural interna, de que faz parte o sistema nervoso como um sistema fechado e onde ocorre a Autopoese; e o domínio comportamental do nosso viver na dinâmica relacional. A separação desses dois domínios é essencial para compreendermos o que ocorre com os demais fenômenos que acontecem em nós e entre nós como, por exemplo, a linguagem, as emoções e a cognição. Muitos estudos de muitas áreas apontam que 90% do aprendizado humano acontece até os 6 anos. A vitalidade das crianças ao brincar e se abrir ao novo são a essência de uma vida num fluir saudável, na qual a autopoese funciona plenamente. A percepção de sermos Deuses e nos sentirmos Deuses acontecia em nossa infância, é o processo natural de crescimento biológico. No entanto, por meio da educação aprendemos mecanismos sociais que deformam nossa autopoese gerando comportamentos e formas de vida que nos levam a doenças e degenerações do nosso equilíbrio vital. Como disse bem o poeta francês Arthur Rimbaud, "Por educação perdi minha vida".








Reich separou-se de Freud por conta desse entendimento, enquanto Freud os nomeava de princípio de morte, Reich colocava os mecanismos que impedem ou bloqueiam a vida e que acontecem socialmente como mecanismos secundários ao princípio único, o de vida. Freire e Gaiarsa, junto com os Gestaltistas, principalmente Fritz Perls, nos mostram inúmeros exemplos de como isso acontece: não conhecer seu potencial corporal, não aceitar seus desejos e prazeres, sair do aqui e agora com sacrifícios justificados em ganhos futuros... E a antipsiquiatria provou como isso leva a conturbações de aprendizado e socializações, que a psiquiatria insiste em rotular como doenças mentais, mas que são adequações ambientais e sociais a lógicas diferenciadas que fogem do senso comum e normopata. Assim, os limites entre os estados de saúde e doença, seja física ou comportamental, são meramente políticas e dependem sempre do ponto de vista dos observadores.








Do ponto de vista biológico, qualquer crítica de comportamento vinda da psicologia, da medicina e da religião, tem de se adequar ao princípio maior de que se está vivo, está vivo, tem sua validade. No fundo, neuroses, doenças e pecados são nomes que damos aos comportamentos adquiridos em nossa história pessoal de socialização e adequação. A crítica à normopatia (no nomear de Gaiarsa), ou ao estado Zé-Ninguém da falta de potência orgástica (no nomear de Reich), ou ao viver das ideologias do sacrifício (no nomear de Freire), ou ainda a quem vive os paradigmas legalistas sem auto-crítica e se submete a leis por mais medíocres que sejam (*10), ou aceita paradigmas de grupos religiosos ou sociais sem acreditar ou sentir aquilo como seu (o que chamamos de hipocrisia) são formas que podem ajudar os indivíduos para que eles se identifiquem, ou seja, vistam as carapuças. Muitas vezes essas mesmas críticas se tornam inúteis (e autoritárias) quando são usadas na tentativa de julgar o comportamento do outro.








Lynn Margulis (1938-) vem mostrando dentro da biologia como somos tão evoluídos como as bactérias primitivas que nos deram origem, pois todos estamos vivos (*11). A teoria da evolução das espécies de Darwin (e Lamarck) foi muito usada para justificar politicamente a competição (lembrar que nasceu na cultura que era o império econômico da época, o Reino Unido, os EUA de então). Isso foi contestado na época pelo anarquista P. Kropotkin em O Apoio Mútuo, e definitivamente comprovado por Margulis, que demonstrou a importância da simbiose no devir da vida na Terra. Assim, a competição se daria em "ser o mais apto", mas o que acontece não é propriamente que os sobreviventes sejam selecionados por seu sucesso, mas sim que os seres que não conseguem se reproduzir antes de morrer são excluídos pela seleção. É o apto que importa, não o mais apto.








Se Darwin teve sua importância em nos tirar da criação divina direta (rompendo com o paradigma cartesiano citado acima) e nos colocar no eixo evolucionário da vida, se Freud teve sua importância em distinguir e mostrar como a consciência é ínfima em relação aos nossos mecanismos inconscientes e se Reich mostrou como a consciência e a inconsciência estavam visíveis no corpo, Margulis mostra como esse corpo é provisório no curso da vida. Essa espécie é um momento da vida e da Terra (*12), e está definitivamente ligada e dependente da natureza em geral. Resta a Maturana o cargo de reinterpretar a realidade e gerar o caminho explicativo da objetividade-entre-parênteses, tudo fruto de simplesmente observar o observador enquanto esse observa.








A natureza brota da distinção do meio, é a vida a se auto-produzir (autopoese), e no primeiro momento, na evolução dela em nosso planeta, não há morte, "quando comer era praticar sexo" (*13). O processo interno de envelhecimento e morte, chamado de apoptose ou tanose, surgiu em nossos ancestrais microbianos em algum ponto da evolução dos indivíduos sexuados. Em outros termos: na evolução, ao adquirirmos o sexo veio a morte. Agora a morte se torna um complemento a vida, uma ferramenta de renovação e aperfeiçoamento das espécies, já que a vida passa de geração em geração, deixando os indivíduos e seus egos morrerem.








Meu devir de mais de 10 anos na psicologia alternativa da Soma se confrontou com o olhar libertário aplicado a essa nova biologia de Margulis e Maturana. O conceito de neuroses serem políticas, que já estava nas minhas teorias, mas eu mantinha uma prática mais terapêutica que pedagógica. Venho em meu devir de somaterapeuta desconstruindo cada vez mais o olhar terapêutico pelo olhar pedagógico, mas de uma pedagogia visceralmente libertária. Para isso, se torna necessário romper definitivamente com a pretensão de olhar (no sentido de julgar) as ações dos outros, sem perceber o contexto daquelas ações em relação ao devir DAQUELA pessoa. E o que ocorre no social, ao não percebermos como a biologia se processa no nível perceptual, é comparar o devir do outro em relação ao seu PRÓPRIO devir, o que acaba gerando confusões e cismas variadas.








Maturana mostrou como nosso sistema nervoso surge na história filogenética dos seres vivos como um tecido de células peculiares, que se insere no organismo de tal maneira que acopla pontos nas superfícies sensoriais com pontos nas superfícies motoras. Assim, ao mediar esses acoplamentos com uma rede de neurônios, amplia-se o campo das possíveis correlações sensório-motoras do organismo e se expande ao domínio do comportamento. Dessa forma, vivemos em dois domínios fenomênicos que não se entrecruzam, o domínio da nossa anatomia e fisiologia e o domínio comportamental. A fisiologia dá origem, faz possível e limita a vida de relação de um ser vivo, mas não a determina, causa ou contém. Se poderia dizer que meu fluir como somaterapeuta me fez romper com a Soma (enquadrada numa forma holística de ver o todo como superior que as partes) e descobrir um caminho no qual comparo a Somaiê ao nosso domínio comportamental e a Te&So ao fisiológico do nosso viver. Dessa forma, na produção e práticas do Te&So e Somaiê, ao mesmo tempo e paradoxalmente, o todo é superior as partes, e as partes são superiores ao todo.















(Afirmo que o fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal foi o soma, o kakulj, a Amanita muscaria, o Cogumelo-Sem-Nome do povo de língua inglesa. A Árvore, provavelmente era uma conífera da Mesopotâmia. A serpente, escondendo-se sob a terra, foi a fiel serva do fruto. R. Gordon Wasson)















5. EU SOU AYAHUASCA - maio








Em paralelo a Somaiê, mas dentro do Te&So, estudamos a bebida ayahuasca (*14) (chamada também de oasca, vegetal ou Santo Daime), dentro do projeto PES (AyA). Após perceber em minha vida o potencial deste chá, que agora nomeio como um soma-ativo (*15), disponibilizo essa experiência de se descobrir Deus em uma sessão de quatro a seis horas de duração. No ambiente ayahuasqueiro, para alguns se torna mais visível essa relação entre psicologia/medicina/religião, pois é uma bebida natural, que está sendo legalizada em inúmeros países dentro de ritos religiosos, chamada até de Cristo Líquido. Ao se estudar sua composição bio-química, verifica-se a coincidência com drogas que a medicina e a psiquiatria utilizam. Estas ciências muitas vezes ao ver/catalogar/reproduzir o que as religiões primitivas produziam com o uso de plantas naturais começam a usar os efeitos em seus domínios a sua maneira. Isto é, a coincidência é uma cópia do médico sobre o popular.








Somos ao mesmo tempo dois (comportamental e fisiológico), que se intersectam. Esse cruzamento possibilita tecer redes de conversações nas quais vivemos um acoplamento recursivo, independente de estarmos operando em um domínio social ou em um domínio não-social. Somos dois que nesse equilíbrio da nossa rede neural com um corpo que lhe dá suporte podemos produzir e sentir a vida. Também somos dois no fluir da noite e do dia, quando temos de nos manter conscientes e nas horas de descanso em um mundo não-consciente. Geralmente reduzimos o ato e a interpretação do estar vivos a nossa consciência enquanto acordados, mas nesse fluir diário passamos horas dormindo e perdemos o controle das couraças. Depois, quando acordados, podemos lembrar, escrever ou contar a outros, mas aí já estaremos falando de uma experiência passada, será uma descrição, ou reformulação da experiência da não consciência, mas em consciência.








Assim, desmontamos as couraças e dormimos diariamente (em média, ou idealmente). Como muitos animais seguimos o ciclo de 24 horas (da Terra em relação ao Sol). Nesse dormir, para alguns pesquisadores a DMT endógena (a que produzimos) possui um papel em fenômenos como sonhos, meditação profunda ou experiências místicas (lembremos que para algumas religiões, a ayahuasca é Cristo líquido). O que é chamado de "transmissão de informação" entre os neurônios se dá por neurotransmissores (*16) , conhece-se mais de 200 neurotransmissores e a serotonina é um dos mais importantes. Quando ingerida, a ayahuasca e a DMT chegam no sistema nervoso e há uma competição da DMT com a serotonina, pois são moléculas muito parecidas (FIGURA 2). A serotonina é uma molécula multifuncional, que tem um efeito modulador geral da atividade psíquica, e cujo funcionamento está ligado a regularização do humor, da atividade sexual, do controle motor, da memória, do sonho, e de diversas funções cognitivas. Sua atividade está associada ao planejamento e busca de padrões, a lucidez mental e ao estado de alerta. E, além de atuar como neurotransmissor, ela tem papel neuromodulador, afetando também outros neurotransmissores.








Outro fenômeno acontece com a tetra-hidroharmina, presente na ayahuasca, que bloqueia temporariamente os receptores pré-sinápticos da serotonina, inibindo sua absorção. Assim, há uma elevação da serotonina na sinapse (ponto de contato entre os neurônios, o dos neurônios com as células). Essa elevação tem efeitos notáveis tanto no plano perceptivo quanto no emocional. Alguns dos antidepressivos mais usados na atualidade justamente elevam os níveis serotonímicos. Assim, durante o efeito da ayahuasca (3 a 4 horas), pode-se dizer que as pessoas ficam sonhando e acordadas ao mesmo tempo, sonhando pela ação da DMT no sistema nervoso e em estado de alerta especial, pelo alto nível de serotonina. Isso sem falar de outras possíveis interações e possibilidades. Sobre a DMT, supõe-se que seja produzida na glândula pineal e tenha uma interferência na produção dos sonhos (lembremos como curiosamente a glândula pineal era para Descartes o elo entre Deus e o homem). Uma das formas de nomear a ayahuasca é de enteógeno, que significa estar com Deus dentro de si.








Nas experiências visuais, quando abrimos nossos olhos e vemos o mundo exterior, a luz que forma a imagem dessa visão não vem dali de fora. A luz que denominamos como "dali de fora" é uma resposta interior ao que somente podemos supor que tenha de ser um estímulo exterior. Porém, as imagens vistas como externas são unidas em algum local do lado de dentro, traduzidas pelo cérebro com todas as suas moléculas de melanina, e projetadas na tela da mente que denominamos nossa consciência de percepção. Toda essa atividade cria o efeito de uma fonte externa de luz, e respondemos aquele tipo de fonte, pois, como somos operacionalmente fechados, a percepção da luz na retina muda nossa estrutura, nos dando a impressão de vermos o externo. Para o sistema nervoso, que é fechado, tudo é externo a ele: seja o externo ao nosso corpo, seja nosso próprio corpo interno.








Assim, a ayahuasca com a DMT nesse fluir cria percepções visuais que não conseguimos distinguir na experiência se são percepção ou ilusão, seja pela limitação da nossa percepção que se distingue na autoconsciência e comparação com nosso histórico de experiências (as descrições das experiências que são experiências de segunda ordem), seja pela capacidade de alteração de nossos neurotransmissores e suas modificações e adaptações que podem ocorrer sob a influência bioquímica de componentes da bebida. Cada um trás pelo seu histórico de vida o que deseja e não deseja, mas que pode construir em seu universo em elementos visuais. É comum ver a natureza, flores e animais, ver formas geométricas, ou criar verdadeiros sonhos de imagens e sensações. Cada um nomeia como pode e como quiser, mas se torna impossível uma descrição nas palavras das sensações vivenciadas.








Enfim, discorrer sobre as possibilidades químicas se torna um emaranhado de tentativas frustrantes de reduzir a experiência de estar no efeito da bebida, seja pela variação dos componentes que a bebida possui (e que se modificam, pois é uma bebida viva em permanente estado de fermentação, como uma metamorfose ambulante), seja principalmente pela resposta subjetiva que cada pessoa que experimenta aquela química irá se transformar e projetar, visualmente ou sensorialmente com todas suas possibilidades de fluir a consciência e auto-percepção. Inclusive, a ayahuasca interfere no processo de definirmos as próprias percepções, ao descrever as sensações no nível das palavras. Outro elemento que ainda misturo nesse "balaio de gatos" doido é o devir de cada pessoa ao experimentar novamente a bebida, gerando o que ocorre com ayahuasqueiros experientes, uma tentativa de controle das sensações durante a experiência.








O efeito da ayahuasca reforça que a experiência humana não tem conteúdo. Em nossa experiência, nós não encontramos coisas, objetos ou a natureza como entidades independentes, como nos parece na simplicidade da vida cotidiana. Sob efeito da ayahuasca podemos perceber que não vivemos na experiência mas sim na linguagem, num fluir de coordenações consensuais de coordenações consensuais de ações que produzimos na linguagem. E, nesse cruzar de linguagem com nossas emoções, enquanto disposições corporais pra ação geramos o que Maturana coloca como conversações.















(Para nascer precisamos destruir um mundo. Hermann Hesse)















6. EU SOU PES (AYA) - junho








Enquanto a Somaiê acontece com grupos de pessoas num processo de aprendizado em torno de 18 meses, as Teorias & Somaiê se expressam de formas variadas em áreas variadas. Uma das pesquisas que estão sendo desenvolvidas denomino de PES (AyA) - Pesquisas e Experiências Subjetivas Anarquismo y Ayahuasca Entre Parênteses, e nela adentramos em áreas outorgadas oficialmente a religiões brasileiras, mas que atingem a psiquiatria e suas aproximações (*17). A Ayahuasca é um chá produzido com um cipó e uma folha, usado há mais de 5000 anos pelo homem, e com componentes químicos que produzem efeitos específicos, modificando a percepção da realidade e da própria sensorialidade. Uma descrição de seu potencial é permitir a vivência de um estado de dormindo e acordado ao mesmo tempo, ou seja, um sonho lúcido. Uma forma de ligar, mesmo que por quatro horas (que podem parecer dezenas durante a experiência), a consciência com a inconsciência.








Uma das maiores curiosidades para quem ainda desconhece esse ambiente ayahuasqueiro é porque essa "droga" não é proibida, ou por que ela só acontece nas religiões. Na contra-mão do discurso oficial, seja das Associações Médicas seja das Associações Ayahuasqueiras, venho produzindo sessões que questionam a legalidade do argumento religioso para o uso dessa ou qualquer bebida ou planta. Sou anti-proibicionista e acredito no direito individual de gerenciar seu corpo e seus alimentos. No entanto, o que torna a ayahuasca um diferencial é que se trata de uma combinação específica de alguns componentes que são naturais ao nosso organismo. Como fábricas moleculares nos fabricamos a cada instante, somos seres autopoiéticos, e na nossa composição produzimos o alcalóide DMT (N, N-dimetiltriptamina), que também é encontrado em todos os mamíferos e mais de 200 plantas e peixes, fungos e etc. Apesar da molécula DMT permear a natureza, ela foi absurdamente considerada substância proibida nos Estados Unidos em 1970, e sabe-se pouco sobre suas funções, pois tem sido minimamente pesquisada. Mas, ainda nesse caminho do absurdo, a ayahuasca pode ser utilizada no Brasil em ritos religiosos e é proibida ao uso de pesquisas como as minhas.








É curioso como a cultura humana extraiu a possibilidade de que duas plantas, dentre uma enorme variedade _disponível, e preparadas de forma tão específica (muito calor, por muito tempo) possam produzir essa gama de sensações e percepções no corpo humano. Tanto a ayahuasca pode variar de seus componentes básicos (tipos de cipós e folhas), quanto com outras bebidas também ocorre esse "casamento" bioquímico parecido (Jurema, por exemplo). Outros componentes da ayahuasca, como a harmina (do cipó), se juntam em nosso organismo como uma chave química contra o que iria eliminar a DMT da ayahuasca (da folha), pois temos em nosso organismo uma enzima chamada MAO (monoamina oxidase) no fígado e no sistema digestivo, que são parte do nosso sistema de defesa para substâncias tóxicas e, se ingeríssemos a DMT somente (um chá com a folha somente), nossa MAO a eliminaria. Mas como o cipó possui um componente que TEMPORARIAMENTE inibe a ação da MAO, a agora não desativada DMT atravessa nossa barreira hematoencefálica (a barreira sangue-cérebro) e chega ao sistema nervoso central.








Os grupos religiosos chamam de mirações as percepções visuais, e muitos acreditam serem experiências reais no sentido da transcendentalidade da percepção, como se não fosse uma projeção da sua subjetividade. Inclusive seus parâmetros histórico-culturais que definem o que se visualizou são negados, tentando apontar uma realidade espiritual ou transcendental. No aspecto jurídico do uso da ayahuasca, há uma aceitação em "rituais religiosos", que a meu ver são somente formas de controle social do uso de um forte soma-ativo ou, se preferir, uma droga psicodélica. Como esta droga é natural e não há como proibi-la, o argumento médico-psiquiátrico reforça o religioso e espiritual: o suposto acesso a realidade transcendental, e que só eles podem ter acesso.








Utilizo a ayahuasca fora de contexto ritualístico religioso e prefiro outra forma de denominar as sensações produzidas por seus efeitos. Assim, os PES (AyA) possibilitam um encontro de si consigo mesmo através de um atalho químico, uma poderosa bebida saudável (promove inúmeros processos de limpeza que desenvolverei em outros textos) e de resultados imediatos, que também atua sobre as couraças em níveis diferenciados.








A ayahuasca produz uma quebra imediata da rigidez da couraça neuromuscular do caráter, através da autoconscientização e relaxamentos corporais, e modifica a couraça somática através da possibilidade de vivência de novos paradigmas perceptivos e abertura a novas formas de perceber o sentir e fluir da vida. As conversações ocorridas nos PES (AyA) podem ajudar a se perceber nesse fluxo contínuo e propor novas formas de descrever esse fluir, o que torna a ayahuasca potencialmente terapêutica, mas que pode ter esvaziado esse sentido em doutrinações específicas, como muitas vezes recaem as religiões. Ou, de outra forma, as pessoas preferem os argumentos das religiões para denominar suas formas de percepção, muitas vezes no viés da crença em objetos e coisas compondo uma realidade transcedental independente de observador(es). Aqui comparo como a capoeira angola e outras técnicas bioenergéticas EM SI não possuem caráter desencouraçante das couraças neuromuscular e somática, mas a forma com que cada sujeito produz seu devir é que as torna libertárias, desencouraçantes e terapêuticas ou indiferentes. Ou, pior, encouraçantes, reforçando comportamentos que estão impedindo sua potência orgástica (usando o argumento de W. Reich).








Comparando com a capoeira angola que Roberto Freire pesquisou e incorporou a Somaiê, a ayahuasca que pesquiso e incorporei ao Te&So possui suas semelhanças. Além de ambas seres Patrimônio Imaterial da Humanidade, como citei no texto Capoeira & Ayahuasca publicada no Tesão 7, a capoeira angola produziu um olhar de cabeça pra baixo (da bananeira da capoeira), no qual mudando de posição em relação ao centro de gravidade percebemos a realidade de uma forma diferente, ampliando-a (ou ampliando nosso agir nela). E a ayahuasca produz um olhar para dentro. Mudando de posição em relação ao nossos sentidos perceptivos e cognitivos percebemos outras realidades e, novamente, possibilitando um ampliar do nosso agir NESSAS realidades.








Aproveito e utilizo o ritual que desenvolvo pra poder também através do conversar antes, durante e pós-sessões propor um perceber a realidade no caminho da objetividade-entre-parênteses, cunhada por Maturana na Biologia do Conhecer, servindo de um processo de trocas pedagógicas e experienciais entre os participantes. Coloco no final deste texto um adendum contendo as estatísticas do PES (AyA) atualizado: em dois anos, servi ayahuasca para 159 pessoas, destas 79 nunca haviam bebido antes. Foram 50 sessões e 311 doses.








Diferente do ambiente ayahuasqueiro que se configura em grupos e rituais fixos, a PES (AyA) busca um fluir de diferentes possibilidades, mudando de cidades, espaços, formas e também de pessoas (não impedindo que quando acontecem repetições de cidades, espaços, formas e pessoas busquemos as outras diferenças). Confirmando sempre que o aqui-agora é sempre o único objetivo a se alcançar, e percebendo como o fluir durante o efeito da bebida pode ser um aprendizado de como fluir sem o efeito da bebida. Assim, espelhando a base formativa dos exercícios corporais da Somaiê, na qual cada atividade é ao mesmo tempo diagnóstica e terapêutica, na ayahuasca tudo pode ser como cada um construir esse vir a ser. Ou, como sabiamente foi colocado pela religião: dai-me o que preciso, e a bebida dará (acelerando o meu metabolismo para que eu produza esse acontecer).















(Tudo o que distinguimos, nós distinguimos na linguagem; tudo o que experenciamos, nós experenciamos ao distinguirmos na linguagem nossa experiência. Humberto Maturana)















7. EU SOU MATURANA - julho








Nesse entender o que SOMOS enquanto corporalidade e devir ontológico como ser vivo e humano, podemos aceitar inúmeras descrições de realidade, todas igualmente válidas se aceitas pelos corpos em seu devir e argumentar. Nos meus primeiros 12 anos como terapeuta corporal, preferi argumentar em prol de uma unicidade corporal, argumentada em holismo e que buscava defender uma totalidade corporal, chamada de Soma. Foi minha forma de me colocar contra o mecanicismo da ciência, muito antes de me envolver com a Biologia do Conhecer e sua proposta de questionar o conhecer e colocar em foco o observador que observa no ato da observação. Nesse fluir, além de romper com a originalidade única, assumi um viés dualista em vez de monista.








Esse dualismo se encaixa no Meu perceber a melhor forma de descrever o que entendo por realidade. Ao estudar neurofisiologia, Maturana produz um pensar relacionando o operar sistêmico do sistema nervoso com a organização sistêmica dos seres vivo e propôs algo novo (para o pensamento científico):








- o sistema nervoso não opera captando características do mundo, por isso não opera fazendo representações do mundo;








- os estímulos externos, vistos por um observador, incitam, mas não especificam as mudanças que ocorrem no sistema nervoso;








- o sistema nervoso constitui uma rede neuronal fechada sobre si mesma, e opera como uma rede fechada;








- à medida que os componentes do sistema neuronal se tocam com as superfícies sensoras e efetoras do organismo, surgem correlações senso efetoras entre o organismo e o sistema nervoso;








- a congruência operacional de um organismo com a sua circunstância surge na sua história evolutiva e em seu devir ontogênico, e é resultante das mudanças estruturais que ocorrem entre ele e o meio.








O comportamento é uma visão externa da dança de relações internas do organismo, e a linguagem ocorre no fluir do viver no entrelaçamento dessas duas dimensões, na fisiologia e na conduta - no emocionar e no agir. Maturana constata que as mudanças estruturais do sistema nervoso constituem as emoções, e as define biologicamente como mudanças internas do sistema vivo: as emoções ocorrem em todas as ações dos seres vivos. É do amor que surge o fenômeno social, sendo o amor a disposição corporal da aceitação do outro como legítimo outro na relação.








Maturana também publicou um livro sobre educação infantil, no qual, pelo seu caminho teórico - a Biologia do Conhecer (conhecida também como Biologia do Amor) - chega as mesmas conclusões que o caminho traçado por Reich: "Em síntese, é percebendo pela experiência como uma criança configura no mundo o domínio da existência que vive, pela transformação de sua capacidade de mover-se, que conseguimos ficar abertos à compreensão de que devemos permitir-lhe simplesmente ser. Isso ocorre quando lhe oferecemos espaço e tempos livres para que dê curso espontâneo ao emprego de suas habilidades motoras inatas, num domínio de mútua aceitação e respeito. Mediante o livre viver dos ritmos e das formas espontâneas de seus movimentos, as crianças experienciam a si mesmas, a seus territórios, a seus âmbitos de existênciae, de fato, criam seu entorno." (*18)















(Não existe a doença; existe apenas o doente. E cada doente, tem as suas próprias características e a sua própria individualidade, sendo ele o único responsável pela sua saúde, ou doença (*19). Tomio Kikuchi















8. NÃO EXISTE DOENÇA NEM NEUROSE - agosto








Somos seres autopoiéticos e nos construimos a cada instante, seja molecularmente como uma fábrica de nós mesmos, seja no nosso comportamento que fluímos num meio que nos mantém E QUE CONSTRUÍMOS A CADA MOMENTO. Não existe uma realidade independente dos observadores que somos, e todo nosso universo sensorial descritivo e perceptivo sempre estará nas palavras e, justamente com isso, é somente NOSSO UNIVERSO. Recaindo no clássico da gestalterapia e dos poetas de sempre, só existe o aqui e agora de cada um a cada instante. Ficar e vivenciar esse fluir é a arte de nos assumirmos Deuses da vida.








Nossa autopoese produz um fígado novo a cada dois meses, nossa pele se repõe a cada seis semanas, enfim, a cada ano 98% dos átomos de nosso corpo são substituídos. Essa substituição química ininterrupta, o metabolismo, é um sinal seguro de vida. Somos Deuses em permanente processo de CURA, ou seja, em permanente processo de melhoria, de envolvimento, de conhecimento, de vida. Um bom exemplo é a vivacidade e abertura de uma criança. Toda a obra reichiana, freireana, nos aponta como através da socialização para este social, a educação para esta sociedade, estamos matando vida, diminuindo o potencial de nossos filhos para se adequarem a esse viver em sociedade. Por consequência, esquecemos de quando éramos crianças e ainda vivíamos sabendo sermos Deuses, até crescermos e escolhermos outras deidades pra idolatrar, que não a nossa própria vida, nosso próprio corpo.








No oposto ao viver em direção a autopoese plena, vislumbramos as doenças e neuroses. É o exemplo do câncer como extremo oposto de aceitar o fluir de ser Deus e produzir-se a si mesmo. Nessas doenças da modernidade, os tipos variados de cânceres, enxergamos o processo de destruição do próprio viver, quando há um suicídio a nível celular, como uma resposta a uma ontologia de não-vida, ou seja, um acúmulo do viver aceitando em seu viver mecanismos opostos ao seu desejo de viver. E, aqui, cada área do conhecimento e culturas humanas fará suas nomeações e justificações. Para nós que vamos em sentido contrário, não aceitamos as doenças e neuroses em si e aceitamos essas nomeações para estados de resistência a uma impossibilidade de plenitude no viver, a medida que percebemos os entraves e as dificuldades podemos lutar contra e modificar nossas atitudes. Nos interessa as relações, não as coisas em si.








Um exemplo é o paradigma de comparar a vida com um relógio. No mecanicismo da cultura humana que construiu a tecnologia que nos domina, se identificou a possibilidade de DIVIDIR as coisas em partes (reducionismo) pra se entender e, ao dividir o relógio, entendemos o funcionamento das peças e sua engrenagem. Mas por mais que possamos dividir e ver as partes, estamos perdendo o todo. Em tanto dividir pra entender e controlar o tempo percebemos que atuamos somente num mecanismo de medida do tempo e quase nada entendemos sobre o tempo nesse processo. Os que se colocam como Holistas e unicistas há tempos buscam SOMAR, entender o todo e não mais as partes, querendo ver as horas e não mais o funcionamento do relógio. Mas muitos nesse viés ainda acreditam que as horas se encontram no relógio, e o que propomos é o entendimento de que as horas são o resultado da interação do observador com o relógio, pois o relógio só fornece as horas pra quem o observar (entender). Ou se o observador não souber ver as horas, não haverá horas para ele, apesar da existência do relógio.








A psicologia acadêmica em grande parte navega nesse caminho de considerar importante o relógio (a coisa/objeto), que chamamos de caminho das ontologias transcedentais, no qual consequentemente alguns terão mais acesso a supostas verdades que outros. Na área da Saúde, enquanto os profissionais se preocupam com o Ato Médico, um absurdo mecanismo jurídico para submeter todas as profissões da área, eu me preocupo no meu cotidiano com a iatrogênese, que é a nova epidemia de doenças provocadas pela medicina (*20). Dessa forma, procuro fugir ao máximo de médicos e seus medicamentos. No livro A Fabricação da Loucura de Thomas S. Szasz, o psiquiatra nos mostra como o papel destinado a Inquisição na Idade Média foi substituído pelos médicos-psiquiatras na modernidade. Em ambos os casos, os considerados loucos, ou que não se enquadrassem a ordem vigente, não se submetessem a normalidade, iam para a fogueira (hoje, hospícios). Se antigamente a religião tinha o aval político pra julgar o que seria terreno ou divino, hoje em dia a medicina também procura essa separação. A Associação Americana de Psiquiatria alerta que os médicos devem tomar cuidado para não diagnosticar errado (como alucinação ou psicose) casos de pessoas que vejam espíritos de pessoas desaparecidas, por exemplo. Enfim, a medicina faz uma abertura espiritual, ao olharmos o Catálogo Internacional de Doenças, CID 10 (em F-44.3) no qual: estado de transe (controlado) e possessão por espírito não são doenças, a não ser que o estado de transe saia do controle.








Busco um olhar duplo sobre o viver, em que há uma continuidade entre o social e o humano e suas bases biológicas. O fenômeno de conhecer não pode ser equiparado à existência de "fatos" ou "objetos" "lá fora", que podemos captar e armazenar na cabeça. A experiência de qualquer coisa "lá de fora" é validada pela estrutura humana que a torna possível. Há uma circularidade entre ação e experiência, de forma que todo o ato de conhecer produz um mundo. Ou seja, toda reflexão produz um mundo, pois se constitui numa ação humana, realizada por alguém em particular, num determinado contexto. Enfim, a cognição se constitui numa "ação efetiva", que permite a um ser vivo continuar sua existência, em determinado meio, produzindo aí seu mundo.








Todos os seres autopoéticos têm duas vidas: a que nos é dada e a que fazemos. Volto a isso logo adiante, aqui quero reforçar o trabalho duplo da técnica e da sua atualidade enquanto ferramenta de libertação e conscientização. Nisso mantemos um fluir em atividades corporais que sempre servem primeiramente a um diagnosticar e em paralelo a um terapeutizar. O diagnosticar é trazer o terapeutizar a uma consciência, pois o ato de se manter vivo, manter a autopoese, é um se auto-construir permanente, molecular e celular, numa simbiose com um auto-construir social em palavras, pensamentos e ações, ou em conversações, nas quais usamos a linguagem para coordenar consensualmente nosso agir e emocionar.








Como essa construção é permanente, estamos sempre procurando viver. Mas viver é, como foi dito, conhecer, isto é, me adaptar a cada momento a uma circusntância que eu mesmo crio. Nesse viver duplo, o corpo se auto-constrói permanentemente, de um molecular celular que ao fluir minha energia orgônica posso me manter saudável, sem doenças. Nesse exemplo, ao me ferir posso usar elementos exteriores que podem limpar ou ajudar a auto-reconstrução da pele, como um curativo. Mas o mecanismo de cura é inconsciente, independente de curativo, e irá acontecer independente da nossa consciência. Da mesma forma, as terapias funcionam como curativos, e podem acelerar as mudanças no viver. Mas precisam se atentar que biologicamente sempre fazemos o que queremos (*21), o que retira a pretensão de cura de todos os processos psicológicos, e que submeteu a Somaiê ao Te&So enquanto prioridade de pesquisa.








Trazer à razão questões de bloqueios, sejam eles energéticos ou materiais, acelera a autopoese. Inconscientemente nosso corpo continuará a fazer o que acredita ser melhor pra sua manutenção, auto-reconstrução e, no nosso consciente, produzimos um agir, emocionar e argumentar em prol dessa cura ou saudabilidade, ou seja, um comportamento que fortaleça nosso fluir natural e fisiológico. Esse fluir teórico explicitou ainda mais o caráter pedagógico da somaterapia, rompendo a dinâmica terapêutica através do praticar a auto-organização do grupo e do usar a técnica e o técnico/somaterapeuta para possibilitar ainda mais a própria auto-conscientização. Junto vem uma nova ação, que reforça o viver...








Assim, a técnica da Somaiê produz um profundo modificar tanto nas possibilidades de novos comportamentos como na própria fisiologia e anatomia, pois, apesar das couraças não se intersectarem, elas se acoplam em sua realização. A couraça somática ocorre através dos encontros efetivos de seu corpo com o meio abiótico ou com outros organismos, mas ocorre num domínio de ações. Ao mesmo tempo, os encontros corporais dos organismos desencadeiam nele mudanças estruturais que nascem através da couraça somática, mas ocorrem na couraça neuromuscular do caráter. Inversamente, as mudanças na couraça neuromuscular do caráter mudam sua forma de operar em suas interações e, portanto, mudam a couraça somática. Ou seja, somatizamos a cura, invertendo o fluir anterior em que somatizamos as doenças.








O vivenciar a Somaiê com a sua recursividade de opções sensoriais advindas de técnicas de autoconhecimento, seja do teatro, da ludoterapia, da capoeira, da gestalt, da antipsiquiatria, ou da biologia do conhecer, produz uma mudança em ambos os nossos domínios da existência, o fisiológico e o comportamental.















(Não se pode definir ou interpretar o sagrado (*22). J. Krishnamurti)















9. FAREMOS CONTATO? - setembro








Sim ou não, mas cada um a seu tempo. Não será em 2010 para todos, mas com certeza para alguns. Lembremos que o papel das religiões é esse RE-LIGAR, ou seja, ligar novamente, ou fazer contato. Todos já estivemos em contato quando crianças, é buscar esse registro em cada ser. Propomos a descoberta de um NOVO OLHAR, um olhar que começa ao OLHAR O OLHAR enquanto se olha. E nesse estudo autoperceptivo e proprioperceptivo chegamos até um anarquismo entre parênteses. Mas o que seria isso em linguagem mais simples ou direta? Só fará contato quem puder se ENVOLVER, e para isso se torna necessário o rompimento com o paradigma mecanicista de DESENVOLVIMENTO. Desenvolvimento significa não-envolvimento, e sem envolvimento não faremos contato com nada. Não existimos em um meio, nós construímos esse meio ao viver.








Recebi pela Internet a FIGURA 3, em que é apresentado um solucionador de problemas. Brincadeiras a parte, esse organograma mostra um caminho oposto ao ser Deus, ao ser Humano, como aqui conjecturo. A medida que entramos nessa cultura, uma das sintomatologias dos caminhos de morte é a própria fuga de problemas. Afinal, estar vivo é antes de mais nada um problema a se resolver. Chamamos esse problema de metabolismo, no qual acontece nossa fisiologia autopoética. Em última análise, o SEM PROBLEMAS buscado na figura é a morte. E viver pode ser num prazer de solucionar problemas, ao nos responsabilizarmos por TUDO que percebemos. A responsabilidade de perceber e encarar os problemas é o que nos faz Deuses de nosso viver. A vida só existe nessa dinâmica dupla, eu comigo mesmo (domínios fisiológico e comportamental), me relacionando com o meio ambiente (num fluir de acoplamento estrutural). Em outras palavras, uma deriva estrutural ontogênica que se realiza em consevação da adaptação. Ou seja, da frase de "Ter problemas na vida é inevitável, ser derrotados por eles é opcional", de Roger Crawford, acrescento que fugir de problemas é a primeira das derrotas.








Estamos na chegada de 2012 e, apesar do avanço científico tecnológico recente da humanidade, temos hiatos visíveis que apontam a própria destruição do homem caso não revertamos esse mesmo avanço científico que nos levou a percepção da nossa possível destruição. Ondas místicas misturam informações históricas, como o estudo dos calendários Maia que previam aspectos de divisão do tempo em função de estudos astronômicos avançados (e que só assim são valorizados por coincidirem com estudos no caminho da objetividade científica) (*23). Como só creio no aqui e agora, como resultado da minha interação sistêmica com o meio ambiente, acho graça das especulações místicas (muitas vezes ditas científicas) como estarmos perto do fim dos tempos.








As religiões ayahuasqueiras aliam discursos variados de rituais e obrigações entre seus participantes, unindo elementos que considero ultrapassados, como moralismos na sexualidade, parte do discurso cristão de sacrifício, e a hierarquia entre os membros. Esses elementos podem ser úteis, seja com indiferença ou hipocrisia, seja com a crença de seus fiéis, e podem servir de base para mudanças pessoais. No meu trabalho procuro desconstruir o discurso religioso clássico (Deus fora), e proponho o enfoque invertido (Deus dentro, espelhando/espelhado fora). Como sei que cada ser está sempre fazendo o que quer, mesmo quando nas palavras ou pensamentos (que também são palavras) diga ou sinta que faz o que não quer, o uso da terminologia religiosa é somente uma forma de expressão. Ao compreender essa biologia básica e anterior a especulações e construções culturais filosóficas e políticas, proponho um caminho do responsabilizar-se pelo próprio viver, rompendo com as ditas verdades (mesmo as suas, quando em referências a de outros) e vendo a natureza como uma proposição explicativa da nossa experiência com elementos da nossa experiência. Ao entender que a mecânica sistêmica do viver está em dois domínios diferentes e interconstituintes, em que o organismo interage com o meio mas o sistema nervoso não, damos uma nova forma ao entendimento de coisas cotidianas como a linguagem, as emoções e, consequentemente, podemos tornar mais complexa e multidimensional nossa vida e mais inovadoras, estranhas e inesperadas parecerão nossas ações e distinções na linguagem para aqueles com quem vivemos sem compartilhar todas as nossas conversações. E, finalmente, "considero ainda que a maior dádiva que a ciência nos oferece é a possibilidade de aprendermos, livres de qualquer fanatismo, e se nós o quisermos, a aprender como permanecer responsáveis por nossas ações através de reflexões recursivas sobre nossas circunstâncias" (H. Maturana em Ciência e Vida Cotidiana)








Assim, o FAZER CONTATO se afasta de possibilidades mágicas como Deuses, sejam astronautas ou semelhantes a nós. Ou se aproxima das religiões e ciências, ao coincidir que FAZER CONTATO é descobrir a si próprio, como Deus, como ser autopoiético, enfim, como ser humano. E para isso perceber como as emoções enquanto disposições corporais para a ação estão sempre presentes, apesar da racionalidade que, apesar de subordinada a estados emocionais, em seus argumentos se coloca independente deles.Curioso como apesar da religião estar enraizada na cultura humana e poucos se colocarem como ateus ou descrentes, a maioria possui uma crença-de-pouca-fé, ou seja, uma crença quase política para não contrariar o senso comum, mas que não se configura como um real crer. Um processo hipócrita, mas que não incomoda ninguém. Considero que a ficção científica funciona como uma religião, no sentido de crenças em poderes mágicos e no futuro tecnológico (a própria tecnologia funciona como um tipo de mágica ao ampliar nosso ser biológico e suas possibilidades). Comecei esse texto me inspirando em filmes, e me recordo da minha infância com o clássico filme do Super-Homem, ou na minha vida adulta de Neo (de Matrix), e os processos se repetem: o sonho de ultrapassarmos o senso comum e ordinário dos sentidos. Ao vivenciar a vida em seu fluir energético e material, percebo como esse sonho se dissolve ao vivermos a corporalidade no aqui e agora plenamente. Vivenciando nossa corporalidade, ultrapassando a nossa educação alienante e redescobrindo o potencial vital que tínhamos em criança, chegamos ao ponto que nos fazem sonhar nos filmes, chegamos aos poderes que ficam encobertos pelo peso do cotidiano-de-morte. Dessa forma, ultrapassamos inclusive esses personagens fictícios, e mais que ser Neo e entender a Matrix, é se tornar também o arquiteto; e ao mesmo tempo ser Neo, pois ele é o protagonista daquele universo.















(Para ver o mundo num grão de areia / e o céu numa flor do campo, / Tome o infinito na palma da mão / E a eternidade numa hora. William Blake)















10. EU SOU OS OUTROS - outubro








Como já propus no decorrer deste texto a desconstrução dessas nomeações reducionistas, proponho ao leitor (Deus), que acompanha esse raciocínio, em tentar também se afastar de suas crenças, mesmo que temporariamente, para se abrir a esse entendimento especulativo: somos todos Deuses. E pontuo a maiúscula no escrever Deus e Deuses, pois quero provocar esse questionamento a partir da imagem que cada um possui sobre essa PALAVRA.








Cada pessoa possui um condicionamento cultural a se referir a Deuses, seja da descrença exagerada que leva a abordagem como no livro "Deus, um delírio" de Richard Dawkins e sua forma ateísta militante, seja na mecanização de gestualidade como quem faz o sinal da cruz ao passar em frente a igrejas. Ao usar a palavra Deus e religião, procuro me apegar a uma proposta de, primeiramente, colocar dentro de parênteses, no viés de explicar a explicação, ou seja, vendo que temos uma limitação enquanto observadores da realidade e que, antes de mais nada, somos observadores biológicos. Em decorrência disso, os reducionisas tentaram agora nos colocar no âmbito da biologia, o que aceito, porém propondo o caminho da biologia do conhecer ou biologia do amor, que segue por um lado o domínio das explicações científicas, mas que só pode ser realmente compreendida num âmbito subjetivo de questionar as PALAVRAS, a partir da sua própria experiência. Isso nos leva a descontruir a pretensão de termos acesso a uma realidade transcendental, onde normalmente procuramos enquadrar Deus e as religiões. Muitas vezes a ciência também é interpretada nesse caminho, trazendo deturpações cotidianas ao ato de viver.








Assim, quem queira dialogar sobre um Deus no contexto das ontologias transcendentais, que procure outro autor/texto, não quero discutir a existência ou não de DEUSES do UNIVERSO, quero propor que ao termos imaginação para dialogarmos sobre Deuses, já somos Deuses desse universo que dialogamos. É desse universo, com sua total responsabilidade de atuação, construção e percepção, que tratamos na Somaiê e Te&So.








Roberto Freire já tinha intuído esse caminho que agora percorro na forma que conduzia sua pesquisa na Soma, que refletia sua forma de viver. Hoje percebo que um de seus erros pode ter sido uma ênfase egóica na construção de uma técnica, o que para ele refletiu na perda de companheiros, amigos e filho, projetando e justificando-se em solidão sem mágoa. Isso me permitiu essa evolução para uma técnica em dois domínios operacionais a Te&So e Somaiê. José Ângelo Gaiarsa se mantém na ativa nesse caminho ao pesquisar livremente Reich, no sentido que aplicou técnicas mas não se fixou a nenhuma, e aos 86 anos propõe a radicalidade de vivermos e percebemos nosso CORPO (em 2009 recebeu um prêmio internacional pelo trabalho em educação infantil somática). Luiz Moura confirmou em seu próprio pesquisar a validade de Reich e produziu de forma pioneira o uso dos equipamentos derivados de sua pesquisa, como a Caixa Orgônica e o Cloud-Buster (ver observação *07). Uma pesquisa futura dos PES (AyA) será a influência da Caixa Orgônica no armazenamento da ayahuasca. Marinho Piacentini (1944- ) implantou a ayahuasca na década de 70 no Estado de São Paulo, além das relações com Freire e com o nome Soma (nome da primeira comunidade Osho no Brasil em 1976, criada por ele, mais detalhes no email final de http://somaie.wordpress.com), há cerca de 10 anos, junto com Jorge Luiz Barbieri (1951- ), criam um grupo ayahuasqueiro que rompe com a religiosidade mecanicista e se aproxima de um olhar holístico sobre a energia, matéria e relações humanas. Wilhelm Reich já apontava no livro Assassinato de Cristo, a busca de ser Deus como o viver numa plenitude energética. E no livro Éter, Deus e o Diabo propõe que "Não nos interessam filosofias, mas ferramentas práticas cruciais para a reformulação da vida humana. O que está em jogo é a escolha entre ferramentas boas e ruins para reconstruir e reorganizar a sociedade humana. (...) Se você tentar persuadir, você se torna ideológico, não funciona e acaba como um bom-para-nada. Simplesmente faça o seu trabalho. Siga o seu próprio caminho. Não é fácil."








_ Sou Deus ao me perceber ser ao mesmo tempo: W. Reich, R. Freire, J. A. Gaiarsa, L. Moura, M. Piacentini, J. L. Barbieri e H. R. Maturana, por estes terem produzido evoluções resultantes do seu fluir com as áreas de produção e pesquisa - medicina, ciência aplicada, psicanálise, psiquiatria, psicologia, educação, teatro, meditações orientais, uso e produção de ayahuasca e biologia e neurociências - caminhos variados de auto-conhecimento, que geraram inconscientemente o que produzo conscientemente. E como, sob o efeito da ayahuasca (o que chamamos de borracheira), a experiência sensorial do OUVIR se amplia enormemente e o uso de músicas instrumentais e cantadas são o grande condutor da sessão, não posso me definir sem citar Raul Seixas e sua genial obra musical e poética. Além do adendum de estatísticas do PES (AyA) acrescento uma letra sua que tem muito a ver com essa visão do mundo entre parênteses. Há muito me assumo dizendo: "não sei onde estou indo, mas sei que estou no meu caminho", buscando ser uma metamorfose ambulante construindo uma sociedade alternativa.















(A vida é também uma pergunta que o universo faz a si mesmo, sob a forma de ser humano. Lynn Margulis e Dorion Sagan)















11. "HERRAR É UMANO" - novembro








Nesse fluir de ser Deus, sou humano e exemplifico isso biologicamente ao defender que durante nosso experimentar não conseguimos distinguir se essa percepção é uma falha (ilusão) ou uma percepção, somente podemos distinguir ao comparar com nosso devir. Esse dado biológico levou Maturana a propor o caminho Entre-Parênteses, no qual a realidade é uma proposição explicativa. As religiões (às vezes as ciências) seguem no caminho Sem-Parênteses, no qual a realidade existe independente do observador. Nesse caso, alguns terão acesso privilegiado a essa realidade e se sentirão donos da verdade. Nesse caminho, a tolerância parece um altruísmo em que se aceita o outro que acredita em outras verdades. Considero a tolerância como uma negação postergada, isto é, não se aceita (tolera-se) e não se assume essa negação. Proponho em vez de tolerância, respeito. O respeito implica em se fazer responsável pelas emoções frente ao outro, sem negá-lo. No caminho que adotamos, espírito e matéria, ou mental e corporal, TUDO faz parte da corporalidade biológica e o corpo não se encontra limitado, pois ele inclusive é a base geradora do mental, psíquico, nomeando de alma, espírito ou o que for de seu gosto. O gosto de cada um é o que define sua autopoese em termos individuais, e tanto as preferências alimentares e sexuais quanto as de argumentos de palavras são os gostos de cada um. Enfim, aceitar o gostar ou não gostar é basicamente o ato da liberdade e um ato de responsabilidade.








Mestres e gênios sempre existiram e existirão, cito somente alguns que me influenciam. Estamos num aparente proliferar de Iluminados, como em toda "época-de-fim-dos-tempos", que surgem pessoas a se aproveitar dos medos e fanatismos (advindos dos caminhos de morte da nossa educação). Procuro citar algumas pessoas que pra mim possuem um equilíbrio em sua autopoese e consciência distinguindo daqueles que se julgam Iluminados, ou seja, donos de alguma verdade para todos. Esses Iluminados se consideram (e na maior parte das vezes possuem em volta pessoas que concordam com isso) atingidas de um conhecimento ou poder sobrenatural ou especial, seja por terem acesso a transcendentalidades, seja por terem atingido um nível superior de rompimento com a carne, a biologia, ou o ser humano. Culturalmente podem se chamar de xamãs, profetas, mestres, ou o que for. Eu prefiro ser Deus, como o sou e venho descrevendo nesse texto. Me mantenho como um ser biológico, com essa deriva dupla estrutural que me limita as percepções (como todo ser vivo o assim é) e que, consequentemente, na percepção se torna impossível distinguir entre percepção ou ilusão. Se algum dito Iluminado se coloca ou se sente acima ou fora do erro, desconsidero essa pessoa como pessoa, pois o erro é um comentário a posteriori sobre uma experiência que se vive como válida (se não a viveu como válida, era uma mentira). E não ter erros é biologicamente impossível, é viver fugindo de problemas, como muitos o fazem ao mecanizar suas vidas. É estar morto e insepulto, pois errar é humano. E, como diriam os franceses, é a vida...








Assim, errar e mudar de opinião constituem comportamentos que são fundamentais a nossa vida, pois fundamentais a nossa corporalidade dupla: fisiológica e comportamental. No entanto, a cultura em geral nos impõe sutilmente um ver distorcido, no qual o erro se configura como secundário, fazendo o viver de muitos irem em direção a perfeição, irem em direção a iluminação, irem em direção ao não erro. Esses iluminados atendem a demanda atual de crenças, pois aparentam trazer pro biológico a ficção dos super-poderes introjetados das histórias infantis, e cada vez mais bem elaborados pela indústria cultural com suas modificações (cinema, mídia, e virtualidades). A criança que cresce e percebe que não poderá ter acesso aos poderes mágicos da ficção, acredita em poderes de iluminação e de mestres que atingiram a perfeição (no nome que lhe seja dado, kundalini, luz, nirvana, zen, céu, etc). Se essa criança está num plano mais material, buscará essa perfeição em poderes de acúmulo, como dinheiro e riquezas, ou conhecimento e titularidades. Nesse contra-caminho aqui apresentado nesse manifesto para 2010, proponho sermos crianças a brincar, entendendo o brincar como qualquer atividade que nos mantenha na nossa corporalidade e totalmente entregues ao momento presente, mesmo que nesse brincar, possamos também brincar de ora juntar dinheiro e conhecimento, ou ora brincar de buscar a iluminação. Mas se estamos realmente brincando nada se cristaliza, por melhor que esteja a brincadeira. A mudança e o desapego possibilitam a liberdade de se soltar e desapegar, pra novamente voltar a brincar. Como a respiração: só preciso de ar quando meu pulmão está vazio, pois quando está cheio o que mais preciso é me livrar deste ar. Nesse momento, volto a necessitar de ar... Fluir é perceber essa variação das necessidades a cada momento.








Assim, afirmo que a busca pela perfeição, ou perfeccionismo, e a busca pela iluminação (em qualquer área, seja da mística em que se usa mais correntemente essa palavra, seja no sistema capitalista competitivo, com as olimpíadas e seus atletas que tentam não errar, seja no jogador da bolsa de valores procurando técnicas de não perder dinheiro), ou seja, um comportamento impecável, sem erro (ou pecado, por exemplo) são CAMINHOS de MORTE. Caminhos que matam a auto-crítica. Nesse caminho, os mestres e pais que possuem autoridade e conhecimento se tornam um afastamento da descoberta de sermos Deuses. E, pelo contrário, ao nos descobrirmos Deuses e querermos estar no aqui e agora do fluir da vida, podemos aceitar mestres e pais, autoridades e conhecimento, para logo mais, quando necessário, descartar tudo, pois se percebe que esse fluir EXTERNO somente espelha o fluir INTERNO. Assim, só me servem os mestres para descobrir o mestre em mim. Só me servem os pais, para me fazer filho e, assim, poder me tornar também pai.. E como filho me percebo sempre mais evoluído que meus pais, pois assim é. Buscamos o caminho do ERRO e não do acerto. Este é consequência secundária possível de quem se entrega a errar, em todas as suas interpretações. Errare Humanum Est.















(Caminhante, não há caminho. Se faz o caminho ao caminhar. Fernando Pessoa)















12. ERRARE HUMANUM EST - dezembro








A vida em sua evolução no planeta Terra nos gerou e nos mantém. Sua maior dádiva, além da autopoiese, é a capacidade de reprodução, o que nos constitui pertencer não só há uma classe filogeneticamente em construção, mas a uma categoria na qual a vida se mantém (desde a primeira forma a bilhões de anos, até nossos filhos). Nesse fluir não houve morte, a vida nunca morreu, pois somos irmãos de todas as formas vivas no planeta, descendemos delas e compartilhamos esse ambiente chamado Terra. A morte somente ocorre ontogeneticamente, isto é, ao olharmos os corpos isoladamente. Para criarmos novas formas de vida estamos vivos e assim passamos uma célula primeira (pela reprodução): uma célula viva. Dessa forma, todos os corpos vivos tem a mesma idade biológica, todos os seres mantêm em seus corpos um fluir da vida que NUNCA SE EXTINGUIU (*24). Pelo processo evolutivo, adquirimos o envelhecimento e a morte programada (apoptose ou tanose) e a reprodução sexuada. A mente e a alma são também fruto desse devir filogenético no qual tentaram colocar competições, como a idéia do mais apto. Como já foi dito, essa idéia é falsa, trata-se de condições necessárias que podem ser satisfeitas de muitas maneiras, e não da otimização de critérios alheios à própria sobrevivência.








Se nascemos, nos distinguimos na experiência e depois na linguagem. O movimento muscular se mostra a chave para todo o aprendizado do bebê-criança (aprendizado sensório-motor) e posteriormente a formação do ego. Esse fluir do movimento que se exterioriza é um errar no espaço que nos define como seres vivos, humanos e Deuses (Agora priorizo o sentido de andar/vagar/caminhar que a palavra errar possui.) Secundariamente produzimos a consciência e as descrições da realidade (fora da linguagem não há objetos). A realidade não é uma experiência, é um argumento numa explicação. Ciência, religiões, doutrinas políticas, filosóficas ou ideologias em geral são diferentes domínios de coerências operacionais na práxis de viver do observador, que ele (ou ela) vive como diferentes domínios de explicações ou diferentes domínios de ações (e portanto de cognição), de acordo com suas preferências operacionais diferentes. Assim, seguindo o caminho que proponho de explicações não reducionistas ou transcendentes, NÃO HÁ A BUSCA DE UMA ÚNICA E ÚLTIMA EXPLICAÇÃO PARA NADA. Nesse caminho, desaparece a realidade e o universo, surgindo o multiverso, ou seja, MUITAS REALIDADES EXPLICATIVAS DIFERENTES E IGUALMENTE LEGÍTIMAS (mesmo que não igualmente desejáveis).








Ou, colocando de uma outra forma, sempre preferi um "olhar científico" às "crenças religiosas", apesar de me manter aberto a quaisquer tipos de informações. Ao descobrir o Anarquismo entre Parênteses, vejo que todas as explicações e argumentações são crenças individuais, fruto de observação e história pessoal (ontogenia). E o limite das ciências é provar que tudo são crenças, cabendo a cada um perceber e aceitar isso, ou não (mas que mesmo não aceitando, se configura em sua crença pessoal). Muitas pessoas, ao não terem isso claro, confundem uma suposta verdade com o que a maioria acredita, muitas vezes consensos fabricados mantidos pela mídia. Assim, religião, psicologia, medicina, astrologia, calendários Maia, Biologia do Conhecer, Somaiê ou Te&So são crenças, e cabe a cada um acreditar em uma (ou mais de uma) pra potencializar seu viver. No fundo, escolhemos a nosso gosto nomeações e distinções na linguagem e cultura para justificar nosso errar corporal.







Ao fazer SOMAIÊ, ou ao beber ayahuasca, propomos uma possibilidade de romper nossos condicionamentos corporais de existir uma realidade única e transcendente. Dessa forma, a educação familiar e escolar, seguidas dos padrões sociais de trabalho e formas de acasalamento, seguem um caminho de obscurecer nossas percepções como observadores, matando nossa corporalidade, por exemplo mediocrizando nossa possibilidade de movimento (como na educação infantil, que é feita com as crianças sentadas), diminuindo nosso experimentar por nós mesmos o erro no ato de viver, ou padronizando formas de produção (empregos) e relações (casamento). Nos colocam regras e padrões o tempo todo, não é por acaso que perdemos metade de nossos neurônios do nascimento a adolescência. Perdemos a percepção que somos Deuses, pois o que quer que nos aconteça, acontece-nos como uma experiência que vivemos como tendo surgido do nada, pois acabamos por confundir a experiência com a explicação da experiência na explicação da experiência. Ao assumirmos o papel de Deus, qualquer explicação ou descrição do que fazemos é secundária a nossa experiência de nos encontrarmos fazendo o que fazemos. Mas como biologicamente esse caminho de morte que denuncio também é legítimo, isto é, faz parte das escolhas e opções individuais, podemos daí nomear de doenças seus resultados imediatos, e aceitar a chegada da morte biológica. Se as religiões possuem seus argumentos e crenças, aqui apresentei meu viés biológico, que pode ser resumido nesse quadrinho da FIGURA 4.










Buscamos o Amor de Reich, nas possibilidades de Freire e Maturana, mas este Amor também é consequência do fluir Deus em Si, e uma das formas mais visíveis deste fluir está num viver que pode ser sintetizado no errar Brincante. Isso é, Brincar é viver plenamente no aqui e agora, como as crianças fazem antes de adoecerem adultos que pensam que brincar é coisa de criança...








Buscamos a liberdade, aceitando as liberdades e procurando sinceridades e consensualidades. O que também já foi chamado de solidariedade e melhor pode ser definido como AMOR. Enfim, ser Deus é conhecer o Amar e o Brincar, para melhor Amar & Brincar.








Rui Takeguma,Poção da Maromba, dezembro de 2009/ janeiro de 2010somaie.ning.com /








teoriaesomaie.blogspot.com / conversa-acoes.blogspot.com / jornaltesao.blogspot.com / p.e.s.vilabol.uol.com.br















(PS de 22/01/10: Aproveitei o PES (AyA) ter alcançado 50 sessões pra atualizar e fazer pequenas correções no texto publicado há 5 dias - Agradeço as correções de texto da poetisa Naná de Castro)















(Somos aquilo que fazemos, mas somos principalmente aquilo que fazemos para mudar o que somos. Eduardo Galeano)















13. OBSERVAÇÕES








janeiro








(*1) - 0 Somaiê, uma coisa vagabunda, 1 ABC da Somaiê, 2 Grupo Anarquista IÊ de Capoeira Angola, 3 Federação Anarquista de Capoeira Angola (FACA), 4 Conversa-Ações (Encontros de Te&So e Papos no Tendal/SP), 5 Projetos (PES ECO, revista A&B e P.W.F.F.), 6 Jornal Tesão (nacional) e Guia Alto do Rio Preto (circula em Visconde de Mauá RJ/MG), 7 WEB (somaie.ning.com, Orkut e Blogs), 8 Extensões (Tesinho/Santo André na Casa da Lagartixa Preta e a Casa Somática/Beagá - inaugurada há 2 meses) e 9 PES (AyA). (essa divisão do Te&So em 10 partes ocorreu em 2004, e agora foi atualizada)








O primeiro caminho teórico interdependente da Somaiê foi o ABC da Somaiê, que com sua estrutura (que chamo de DNA) propõe a seus formandos a conscientização e prática do autodidatismo numa formação teórica ou teórica e prática. O segundo passo foi retomar as pesquisas em pedagogia libertária somática e infantil que geraram as Creches & Escolas Livres. E, após 2005, se aproximaram das pesquisas da revolução gentil de Glenn Domam, muito divulgadas pelo amigo o Dr. José Ângelo Gaiarsa, com quem realizei eventos nos últimos anos. Nesse fluir, os encontros foram depois incorporados como produção dos grupos de Somaiê. Dois finais de semana por semestre os grupos em atividade produzem Encontros de Te&So (em Sampa desenvolvi o Conversa-Ações, bate-papos e vivências, no Espaço Cultural Tendal da Lapa, todo primeiro domingo do mês) abertos a população local. O Jornal impresso e gratuito, Tesão Prazer & Anarkia, voltou em 2002 e também se incorpora ao final da técnica da Somaiê.








(*2) - Sinopse de Rubens Ewald Filho sobre o filme: "Clássico de ficção-científica que ganhou apenas Oscars de efeitos especiais. Há muitas explicações para a história. Mas ela tem paralelos com a Odisséia de Ulisses escrita por Homero. Durante a primeira viagem tripulada a Júpiter, o computador Hal 9000 enlouquece e quer matar a tripulação. Mas o herói muda de dimensão e chega até o mistério do monolito negro (que seria o símbolo de uma inteligência maior, possivelmente Deus)."








fevereiro








(*3) - "Matemático católico francês René Descartes (1596-1650) postulou uma cisão fatal entre a res extensa, a realidade material, e a res cogitans, a realidade pensante. Só os seres humanos, afirmou Descartes, faziam parte de Deus, por serem dotados de alma. (...) E com base nessa autoridade, pregaram-se animais vivos em tábuas, sem remorso, para ilustrar fatos da anatomia e fisiologia. (...) Ao dividir a realidade entre consciência humana e um mundo "extenso" objetivo e insensível, que podia ser matematicamente medido, Descartes preparou o terreno para uma investigação científica da natureza construída de acordo com as leis matemáticas de Deus. (...) A visão cartesiana do cosmo como uma máquina encontra-se na própria raiz da prática científica. " O Que é Vida de Lynn Margulis e Dorion Sagan (1998)








(*4) - A Evolução da Criança Mágica de Joseph Chilton Pearce (1985)








março








(*5) - "Com frequência, ouvimos que os genes contém a "informação" que especifica um ser vivo. Trata-se de um erro, por duas razões fundamentais. Primeiro, porque confunde o fenômeno da hereditariedade com o mecanismo da réplica de certos componentes celulares (os DNAs) de grande estabilidade transgeracional. Segundo, porque dizer que o DNA contém o necessário para especificar um ser vivo retira esses componentes (parte da rede autopoiética) de sua inter-relação com todo o resto da rede. É a totalidade da rede de interações que constitui e especifica as características de uma determinada célula, e não um de seus componentes. É claro que modificações nesses componentes - chamados genes - tem consequências dramáticas para a estrutura de uma célula. O erro está em confundir participação especial com responsabilidade única." Humberto Maturana e Francisco Varela em A Árvore do Conhecimento as bases biológicas da compreensão humana (1993)








(*6) - Em paralelo a divulgação deste texto/manifesto para 2010, publiquei um site/texto-resposta (ver http://somaie.wordpress.com) a outro somaterapeuta que fez críticas a minha ex-técnica Soma (http://somaterapia0.wordpress.com). Esse texto me fez relembrar meu agir pré-Somaiê/Biologia do Conhecer, antes de 2004, quando defendia verdades num caminho sem parênteses, ou seja, considerando ser possível uma pessoa ser mais verdadeira que outra. Naquele processo, de há mais de 5 anos atrás, me considerava mais Freireano que os discípulos ainda ligados ao Freire e, nessa abordagem que recebi recentemente, vejo outro somaterapeuta ao se afastar de seus pares (pessoas que derivam da obra de Freire, a Soma, e buscam adequá-la ao meio e linguagens acadêmicas) manter essa visão mecanicista. Hoje, apesar de propor o entendimento das verdades de cada um, fiz da minha resposta um exercício de negação ativa em relação a fatos ocorridos no passado e re-lidos hoje com novas interpretações. Um exercício que me fez, para ele, questionar suas verdades (e no meu estilo pessoal, entrando na briga e seus argumentos), porém que me reforçam a pesquisar, permanentemente, novas formas de descrição do que pretendo com a técnica Somaiê.








(*7) - Argumento do Dr. Luiz Moura em seu livro: Recupere sua vitalidade! Energia Orgônica (1991). Luiz Moura mora entre Visconde de Mauá e Rio de Janeiro. Tem importantes pesquisas Reichianas, foi introdutor no Brasil da Caixa Orgônica (além de usar nas pessoas, conserva seus vinhos e chegou a implantar a Caixa Orgônica no INAMPS (S.U.S. da época) no Ambulatório São Francisco Xavier/RJ), o Bastão Bernd Senf, além do Cloud-buster que construiu na Vila de Maringá (RJ) - veja matéria no Jornal Tesão 3 - único instalado no Brasil.








(*8) - um livro que me ajudou nesse processo de buscar antes a biologia que a psicologia, foi o genial O Que é Vida de Lynn Margulis e Dorion Sagan mais um pouco: "Todos os seres vivos podem compartilhar nosso sentimento de livre arbítrio (...) Nossas atividades levam-nos em direção a algo que está tão além do indivíduoi quanto cada um de nós está além das células que o compõe. (...) Numa psicologia realmente evolutiva, o espírito e a mente não são salpicos celestes, mas soberanos da matéria viva. O pensamento não deriva de nenhum mundo senão este: provém das atividades das células. (...) O pensamento, como a vida, são a matéria e a energia fluindo; o corpo é seu "outro lado". Pensar e ser são a mesma coisa"








abril








(*9) - o físico e matemático húngaro John von Neumann calculou que durante a vida humana média, o cérebro armazena algo em torno de 2,8 x 10 elevado a potência de 20 (280.000.000.000.000.000.000) de bits de informação (O universo Holográfico de Michael Talbot (1991))








(*10) - a pesquisa PES (AyA), por exemplo, segue no fio da navalha da legalidade, em que questionamos o argumento religioso como sendo este o único viés de uso da ayahuasca. No Jornal Tesão 7 falamos sobre as leis absurdas, e de como um casal em MG está sendo processado por praticar o home-schooling (educação em casa): num mesmo país que autoriza (resolução número 4 do CONAD, editada em novembro de 2004) os pais a que seus filhos menores bebam a ayahuasca, não permite que seus pais eduquem em casa. Enfim, a lógica do direito do "exercício do poder familiar", colocada no artigo 1.634 do Código Civil brasileiro, usada de formas bem diferentes.








(*11) - "As bactérias não são seres toscos, mas seres plenamente vivos e desenvolvidos, que vicejam há mais de 3,5 bilhões de anos. Sendo as maiores inventoras químicas da história da Terra, não são "meros micróbios". Em vista da natureza material conservadora da vida reprodutiva, as células bacterianas conservam indícios da química da superfície terrestre, tal como esta existiu no passado remoto. As bactérias foram os primeiros seres verdes a brotarem de nada além de sol, água, e ar. E, sendo ainda os únicos seres aptos a executar muitos truques metabólicos que nós, os animais, e até mesmo as plantas não somos capazes de fazer, as bactérias foram as primeiras a respirar oxigênio e a nadar. Elas são os virtuoses da biosfera. São também nossas parentas, o que provavelmente explica porque nos sentimos à vontade para difamá-las." O Que é Vida de Lynn Margulis e Dorion Sagan








(*12) - "Como outras espécies de mamíferos, o Homo sapiens deve ter a expectativa de durar, talvez, mais uns dois milhões de anos - já que a duração média dos mamíferos na era cenozóica foi inferior a três milhões de anos. Todas as espécies desaparecem: extinguem-se ou se diversificam, formando duas ou mais espécies descendentes. Nenhuma espécie dos tempos do período cambriano continua viva até hoje. Talvez o Homo sapiens se diferencie em duas espécies descendentes que difiram tanto do que somos hoje quanto nós diferimos dos chimpanzés, o Pan troglodytes. Tal divergência poderá ser acelerada pela tecnologia. (...) A vida poderá terminar em meros 100 milhões de anos, quando em luta contra recursos atmosféricos cada vez menores e o aumento do calor do sol, os sistemas de regulagem global da temperatura finalmente vierem a falhar. Ou então, encerrada em sistemas ecológicos, ela poderá escapar e, de um porto seguro, assistir ao momento em que o Sol, esgotando seu hidrogênio, explodir em chama gigantesca, fazendo ferverem os oceanos terrestres, daqui a cinco bilhões de anos." O Que é Vida de Lynn Margulis e Dorion Sagan








(*13) - "O envelhecimento e morte, nos quais as células vivas se desintegram em prazos previsíveis, desenvolveram-se inicialmente nos proctistas sexuados. A morte "programada", como ponto final do metabolismo de uma vida inteira, inexistia na origem da vida - e durante muito tempo depois dela. Ao contrário de nós, as bactérias são imortais; vivem até que as condições externas impeça a autopoese." O Que é Vida de Lynn Margulis e Dorion Sagan








maio








(*14) - "Apenas documentada com certeza há cerca de 200 anos, seu uso é provavelmente milenar. Atualmente mais de 70 grupos indígenas espalhados por todo o Alto Amazonas ainda fazem um uso ritual dessa bebida, tendo uma influência considerável em diversos aspectos da vida social e religiosa." Quando nesse texto, e nos PES (AyA), falo de ayahuasca uso o mesmo conceito de Luis Eduardo Luna, no livro O Uso Ritual das Plantas de Poder da Editora Mercado de Letras: "... em que a ayahuasca é preparada a partir da liana malpighiácea Banisteriopsis caapi, à qual se acrescenta ou as folhas da também malpighiácea Diploterys cambrerana, ou as folhas da rubiácea Psychotria viridis (esta a usada nos PES (AyA)). Outras ayahuascas incluem a infusão ou extração a frio de somente Banisteriopsis caapi ou Banisteriopsis muricata, ou ainda com aditivos tais como Calliandra pentandra, espécies de Brugmansia, e cerca de mais 200 espécies documentadas como aditivo..."








(*15) - Uso Soma-ativo num contexto em que cada um usa uma terminologia pra se identificar e se posicionar em relação ao seu uso. Quem não usa a ayahuasca ou desconhece por completo sua composição pode chamar de DROGA. Discordo disso, pois drogas se compram em Drogarias, e mesmo com alguns componentes se assemelharem a anti-depressivos, a ayahuasca enquanto bebida não é proibida no Brasil, nem nos acordos internacionais da ONU a respeito de tráfico. Os pesquisadores usam termos como Psicoativo (conjunto de plantas e substâncias químicas que agem sobre a mente), Psicodélico ("aquilo que revela o espírito ou alma"), Psiquedélico (o mesmo termo que o anterior, mas fugindo ao estigma psycho, para evitar a associação do termo com psicose), e mais recentemente o Enteógeno ("aquilo que produz uma inspiração ou possessão divina"), para se contrapor a Alucinógeno ("vagar na mente" ou "estar desgostoso", ou ainda "estar fora de si", ou para outros "errar com seu espírito, divagar"). Ao adotar a partir da publicação desse texto, e da minha qualificação de Deus o termo Soma-ativo, quero me referir ao conjunto de plantas e substâncias químicas que agem sobre o corpo. Corpo no viés da objetividade-entre-parênteses seria o que cada experimentador da ayahuasca poderá definir como modificado a partir da SUA experiência, mas que pra mim engloba tanto o chamado corpo físico, como a denominada alma e também a pretenciosa mente. (traduções retiradas da Introdução do livro O Uso Ritual das Plantas de Poder da Editora Mercado de Letras)








(*16) - "A sinapse é o ponto de contato estreito entre os neurônios ou entre os neurônios e outras células, como no caso da sinapse neuromuscular. Nesses pontos, as membranas de ambas as células aderem intimamente. Além disso, nesses locais as membranas se especializam na secreção de moléculas especiais, os neurotransmissores. Por isso, um impulso nervoso que percorre um neurônio e finalmente chega a uma terminação sináptica, produz a secreção do neurotransmissor. Este cruza o espaço existente entre as membranas e desencadeia uma alteração elétrica na célula seguinte Somente por meio de especializações como essas é possível entre os neurônios - assim como entre eles e outras células - uma influência mútua e localizada, e não difusa e generalizada, como ocorreria se as interações se dessem por meio de modificações de concentração de algumas moléculas na corrente sanguínea." Humberto Maturana em A Árvore do Conhecimento as bases biológicas da compreensão humana, livro com Francisco Varela








junho








(*17) - No site dos PES (AyA) http://p.e.s.vilabol.uol.com.br publiquei recentemente um texto da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) em conjunto com a Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (ABEAD) em que supõe ser PERIGOSO o uso da ayahuasca, o que me reforça a continuar numa linha antipsiquiátrica alternativa. E também divulgo um texto criticando o primeiro, este por pesquisadores acadêmicos do NEIP - Núcleo de Estudos Interdisciplinais de Psicoativos, assinado por Rafael Guimarães dos Santos, mas que me reforça a continuar em uma linha não-acadêmica. Pois em ambos os casos há um buscar das essências, ou seja, como se a realidade fosse transcendental e assim possível de ser apreendida por alguns. E nesse buscar, o apelo ao conhecimento equivale a uma petição de obediência.








julho








(*18) - continua... "Só quando permitimos que a atividade motora infantil ocorra na espontaneidade da livre brincadeira a criança pode chegar à plena consciência operacional de seu corpo e possibilidades. Na realidade, só quando uma criança conhece de modo operacional sua cabeça, pés, braços, ventre e costas, como seu próprio corpo em movimento, é que ela pode conhecer o acima, o abaixo, os lados, o em frente e o atrás como características do mundo em que vive. E assim pode saber que há algo em cima, em baixo, à frente, atrás ou ao lado, criando tudo isso com seus movimentos." Humberto Maturana e Gerda Verden-Zoll em Amar e Brincar fundamentos esquecidos do humano (1993)








(*19) - continua... "Os ataques frontais contra a doença são, literalmente, ataques frontais contra a saúde. O conceito "doença" existe apenas porque existe o conceito "saúde"; ou seja a saúde e doença são inseparáveis. São as duas metades de uma mesma ilusão indivisível. Essa ilusão, na realidade, é uma cegueira que impede a visão da estrutura e do funcionamento geral do Universo. Toda face tem um dorso; quanto maior a face maior o dorso. Não existe apenas a face (saúde) sem dorso (doença). Não existe apenas dorso (saúde) sem face (doença). O que existe é a ordem do universo infinito." Tomio Kikuchi em Autocuraterapia








agosto








(*20) - Definição de Ivan Illich, que detectou inúmeros processos iatrogênicos, sendo a invasão farmacêutica apenas um deles. De todo modo, a invasão farmacêutica foi decisiva para a consolidação do seguinte paradoxo: "quanto melhor se sabe defender e proteger o organismo, mais ele fica exposto e desprotegido" Michel Foucault








(*21) - ", sustento que sempre agimos segundo nossos desejos, mesmo quando parece estarmos atuando contra algo ou forçados pela circusntâncias, fazemos sempre o que queremos, seja de modo direto, porque gostamos de fazê-lo, ou indiretamente, porque queremos as consequências_ de nossas ações, mesmos que estas não nos agradem. Afirmo, ademais, que se não compreendermos isso não poderemos entender nosso ser cultural. Se não compreendermos que nossas emoções constituem e guiam nossas ações na vida, não teremos elementos conceituais para entender a participação de nossas emoç˜øes no que fazemos como membros de uma cultura e, consequentemente, o curso de nossas ações nela. Também afirmo, por fim, que se não entendermos que o curso das ações humanas segue o das emoções, não poderemos compreender a trajetória da história da humanidade." Humberto Maturana e Gerda Verden-Zoll em Amar e Brincar fundamentos esquecidos do humano (1993)








(*22) - continua... "Uma pedra no templo, uma imagem na igreja, ou o símbolo, nada disso é sagrado. Eles são santificados pelo homem, como objetos de adoração, nascida de seus intrincados anseios, temores e aspirações. Tal idolatria, porém ainda se encontra no campo do pensamento; provém dele, mas no pensamento nada existe de novo ou santificado. O pensamento pode reunir um emaranhado de sistemas, dogmas, crenças, imagens e símbolos, porém suas projeções são tão sagradas quanto os projetos para a construção de uma casa, ou o desenho de um avião. Tudo isso se acha na área do pensar e nada existe de sagrado ou místico nessa atividade. O pensamento é matéria e pode ser transformado em qualquer coisa bela ou feia.








Existe, porém, o sagrado que não vem do pensamento, nem de um sentimento por ele reavivado. Não é reconhecível no pensar, nem pode ser por ele utilizado ou concebido. A palavra ou o símbolo não podem definir o sagrado. Ele é incomunicável. É um fato.








Um fato é para se ver, mas o ato de ver não se processa através da palavra. Quando se interpreta um fato, ele deixa de ser um fato; torna-se algo totalmente diferente. O "ver" é da mais alta importancia. Encontra-se fora do tempo-espaço, é imediato, instantâneo. E o que se vê é sempre novo. Não existe a repetição nem o processo gradual do tempo. " J. Krishnamurti em Diários de Krishnamurti








setembro








(*23) - Segundo intérpretes atuais dos calendários Maia (principalmente o Tzolkin), em 21 de dezembro de 2012 completaremos um Ciclo inicado em 3113 a.C., e que dura 5.200 tun, ou seja, 5.125 anos. Em nenhum momento os Maias falam em final do mundo, mas com parte da mídia ao propagar distorções sobre o assunto vemos um desvio da atenção para o que se supõe que os Maias conheciam: uma modulação harmônica de radiação galáctica. Segundo José Argüelles em O Fator Maia: "Finalmente, como o I Ching, O Tzolkin é um sistema para revelar informação relacionada com um objetivo maior e mais profundo. Enquanto o I Ching está sincronizado com o código genético, o Tzolkin está sincronizado com o código galáctico. Ao mesmo tempo em que o código genético governa a informação concernente à operação de todos os níveis do ciclo de vida, inclusive das plantas e das formas animais, o código galático governa a informação que afeta as operações do ciclo de luz. Este define os espectros de freqüência ressonante da energia radiante, incluindo a eletricidade, calor, luz e ondas de rádio, que informam as funções autogeradoras de todos os fenômenos, orgânicos ou inorgânicos. Obviamente, os dois códigos se interpenetram e se complementam." O PES (AyA) também prefere um calendário anual com 13 luas de 28 dias no lugar do calendário gregoriano. Essa forma de dividir o tempo a partir do ciclo lunar me parece mais harmônica com nosso viver, buscando estar mais próximo do nosso planeta que recebe muitas influências externas - lua, planetas, sol, galáxias.








dezembro








(*24) - "As células de nossos corpos animais encontram-se em estado diplóide, tendo o dobro de cromossomos, à exceção do óvulo e do espermatozóide, que existem em estado haplóide, com um só conjunto de cromossomos. Todo corpo animal é uma espécie de casca diplóide, morbidamente descartada pelos gametas haplóides que, a cada geração, conseguem produzir um corpo novo e, desse modo, perdurar para além da morte do "indivíduo". O corpo diplóide paga o preço máximo - a morte - pela transmissão dos gametas haplóides. (...) Nos animais conhecidos - insetos, mamíferos e aves - , a diferença entre a parte que morre e a parte que permanece potencialmente viva é a diferença entre o corpo e os gametas. Nos mamíferos, os gametas são as únicas células cuja descendência direta sobrevive na geração seguinte. (...) Na verdade, toda a nossa vida, do ventre até o túmulo, é uma etapa intermediária no ciclo da vida de minúsculas células fundidas. Os animais emergem numa outra dimensão, da vida visível e da consciéncia, apenas para voltar, através da sexualidade a seu antigo estado microbiano unicelular. A morte é o preço que todos pagamos por essa antiga história de composição multicelular" O Que é Vida de Lynn Margulis e Dorion Sagan.






















(Essas descrições hesitantes aproximam-se mas ficam aquém de qualquer definição derradeira da vida. Não proferiremos a última palavra, o julgamento final, porque a vida transcende a si mesma; qualquer distinção nos escapa. Na adaptação e aprendizagem do dia-a-dia, na ação e evolução a longo prazo, na interação e na coevolução, os seres orgânicos superam a si mesmos, no sentido de que se transformam em mais do que foram. Armazenando e redistribuindo as energias solares, a vida exibe níveis de atividade e complexidade cada vez maiores. Quem é capaz de imaginar o que poderá fazer a vida consigo mesma, se e quando se expandir para retransformar uma parte maior do universo em sua casa? Lynn Margulis e Dorion Sagan)















adendum - números dos PES (AyA) em Janeiro de 2010















50 sessões em 25 meses:








35 em Visconde de Mauá (70%) e 15 em outras cidades (30%)








(9 em São Paulo: São Caetano - 5, São Paulo - 3, Araçariguama 1,








5 em Minas Gerais: Belo Horizonte - 4, Conceição do Ibitipoca - 1








1 no Paraná: Maringá/Mandaguaçú - 1)








-








38 em contexto rural (76%) e 12 em contexto urbano (24%)








-








(sendo que duas das sessões não entram nas estatísticas, pois:








uma conduzi no meu grupo ayahuasqueiro em SP, em Estrela Auto-existente Amarela (07/11/09), para mais de 50 pessoas, nesse caso não peguei os dados dos participantes; e outra foi a nova experiência Mestre Convidado, onde forneço a ayahuasca mas aceito a coordenação de outra pessoa na sessão, a primeira aconteceu em Estrela Harmônica Amarela (17/12/09) com o mestre Lakpati Naht (mais Nirvana, Lucas e Léo) em Visconde de Mauá))















160 participantes:








63 mulheres (39%) e 97 homens (61%)








79 virgens de ayahuasca (49%) e 12 estrangeiros (7,5%)








311 doses servidas e 29 ‘âncoras‘








(participantes da sessão que não bebem a ayahuasca ou beberam somente um gole)








em 49 sessões - média de 7 pessoas por sessão















125 pessoas foram 1vez (78%) e 35 repetiram de 2 a 49 vezes (22%):








dos que foram 1 vez








7 não beberam, 3 beberam um gole, e 115 beberam 1vez








dos que foram + de 1vez








13 vieram 2 vezes, 11 vieram 3 vezes e 4 vieram 4 vezes, e vieram 5 vezes a Alana/BH e o Luiz F./SP,








7 vezes a Tatá/SP, 8 vezes a Gabriela/Mauá e o Glauco/SP, 10 vezes o Thiago/SP,








22 vezes o Daniel/Mauá, 30 vezes a Nati/Mauá e 49 vezes o Rui















Critério novo a entrar nas estatísticas: calotes -- de 250: 238 escambos/pagamentos + 12 calotes (4,8%)















(Observados por um ponto de vista, nós os seres humanos, somos mamíferos comuns; por outro lado, uma nova força planetária. Lynn Margulis e Dorion Sagan)















adendum - Que luz é essa? Música de Raul Seixas















Que luz é essa que vem vindo lá do céu?








Brilha mais que a luz do sol








É a chave que abre a porta lá do quarto do segredo








Vem mostrar que nunca é tarde








Vem provar que é sempre cedo








E que pra cada pecado sempre existe um perdão








Num tem certo nem errado








Todo mundo tem razão








E que o ponto de vista é que é o ponto da questão!