PES (AyA)

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Pesquisas e Experiências Subjetivas Anarkia y Ayahuasca Entre Parênteses

Comentários Libertários sobre a Ayahuasca e seu momento "bola da vez" da mídia - (segunda parte - LEIS naturais e políticas)

Comentários Libertários sobre a Ayahuasca e seu momento "bola da vez" da mídia - (segunda parte - LEIS naturais e políticas)


Da época que estudei Arquitetura e Urbanismo, recordo de uma história real que parece anedota. Um prefeito, com seu ímpeto de autoridade, que ao saber que por causa da lei da gravidade teria de mudar sua proposta urbanística, propôs que se revogasse essa lei, para que ele pudesse construir...
Dentro de nossa cultura e viver, aprendemos a separar as leis entre as NATURAIS e as POLÍTICAS. As naturais, como a da gravidade, independem do nosso querer, e estamos sujeitos a elas, independente de nossa vontade. As políticas, como por exemplo as que proíbem de fumar em ambientes fechados e de uso coletivo, e que dependem de nosso querer, caso não queiramos segui-las, podemos infringir e sermos culpados por isso, muitas vezes recebendo penas ou multas.
As LEIS NATURAIS nascem na distinção e nomeação que o homem faz ao nomear e tentar entender seu contexto biológico externo, e que chamamos de NATUREZA. Antes de um gênio ver uma maçã cair e nomear e entender que isso ocorre como um processo de atração entre os corpos, isso já ocorria, somente não havia essa explicação científica para o fenômeno.
As LEIS POLÍTICAS nascem na tentativa organizacional do homem com o homem. Buscando regras que na democracia dizem que serão adotadas privilegiando a maior parte dos homens, sobre a menor parte dos homens (*2).

ÁLCOOL - Bebidas alcoólicas têm sido usadas pelas sociedades humanas desde tempos remotos: há documentos delas entre os Sumérios por volta de 3200 a.C.. Também deste período, no Irã, análises químicas feitas em resíduos encontrados em recipientes do sítio arqueológico de Godin Tepe, mostram a presença de Vinho, que para alguns autores é anterior a cerveja, mais comumente considerada mais antiga. Da realeza Assírica, Egípcia, ou das diversas tribos indígenas brasileiras, as bebidas fermentadas (*3) vem sendo usadas como um forma de agregação social, mesmo que eventualmente se ultrapassem os limites, podendo favorecer rupturas sociais. De 1919 a 1933 nos Estados Unidos vigorou o Volstead Act, conhecida como Lei Seca, que visava proibir a produção, circulação, armazenagem, venda, importação, exportação e consumo de álcool em todo território estadunidense. Os resultados são bem conhecidos, em vez de acabar com o mercado e o consumo, simplesmente criou-se um mercado ilícito, no campo das ilegalidades, inventou-se um crime e, assim, novos criminosos.
TABACO (*4) - Também de uso ancestral, ainda é usado por indígenas brasileiros como uma forma de expansão da consciência. Também nos EUA aconteceu uma briga judicial contra a indústria do tabaco, que por anos deturpou pesquisas para omitir os malefícios dos cigarros. Depois de pagar multas bilionárias, se mantém com força as custas de muitos impostos. E recentemente vem sendo proibido seu consumo em locais públicos fechados em vários estados brasileiros.
AÇÚCAR (*5) - Depois de influenciar a economia mundial, e também a história brasileira com o Ciclo do Açúcar, esse composto químico puro (quando refinado) disfarçado de alimento_ está presente em nossa cultura alimentar SEM REGRAS E NORMAS. Não sou como alguns autores proibicionistas que propõem a proibição do uso do açúcar, porém proponho mais estudos, e também aviso ao público em geral de seu uso em excesso, como os avisos nas carteiras de cigarros. Seria interessante que deixasse de ser usado como acréscimo alimentar em inúmeros alimentos, como o molho shoyu, linguíça, mortadela, presunto, maionese, milho e ervilha em lata, até nos cigarros e na homeopatia. Enfim, em geral o consumo se dá 35% indiretamente incorporado na indústria, e 65% pelo consumo direto.
MACONHA - Bode expiatório do reacionarismo, programas sensacionalistas da mídia divulgam o uso e venda dessa erva no mesmo nível de produtos refinados, como a cocaína, ou de lixo químico como o crack. A cocaína é mais usada pela elite poderosa e o crack pela ralé popular, mas ambos possuem efeitos e possibilidades sociais muito diferentes da maconha. É por hipocrisia social da grande massa que se usa ou se tolera a maconha no seu cotidiano, mas também se aceita essas leis proibicionistas, arcaicas e que geram um ambiente de mercado grande e natural que se mistura a uma ILEGALIDADE burra, que serve somente a manter o tráfico e corrupções generalizadas (veja o exemplo da Lei Seca nos Estados Unidos). Liberar e legalizar drogas acabaria com o tráfico de drogas, separando-o por exemplo da criminalidade que trafica armas, criando um mercado agora lícito que pode ser regulado e controlado como o do álcool ou do cigarro. Talvez no caminho contra a hipocrisia, poderia haver como já o são o presidente Lula e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, uma visão antiproibicionista dos grupos ayahuasqueiros: da União do Vegetal por sinceridade do direito de uso de plantas naturais e solidariedade, e o Santo Daime, ainda mais para assumir e sair do armário no quesito de uso e muitas vezes de uso religioso.
AYAHUASCA - Bola da vez e justificativa dessa matéria. Ganhou na verdade um foco e atiçou a curiosidade em geral, e também o paradigma que se reafirma, não é a toa que várias religiões e caminhos estão surgindo a partir do consumo de ayahuasca, caminhos de melhora no viver individual dos que participam desses grupos e formas de consumo, inclusive servindo para curas de dependências químicas outras, como do álcool, do crack, etc. Não só no Brasil está sendo aceita e legalizada, mas em inúmeros outros países, inclusive um dos mais proibicionistas, os EUA, aceita o ritual da União do Vegetal (*6) para uso da ayahuasca.
DMT -

Fiz esse trilhar por alguns elementos que o bicho homem produz e usa com seus companheiros de espécie. Com certeza esses 5 elementos - bebidas, fumos ou aditivos - não se comparam a nossa necessidade de oxigênio e água. Mas qual o direito de qualquer um julgar sobre o outro o direito de consumir isto ou aquilo??
Minha visão explicitamente libertária rejeita esse direito legal ou justificativa para a existência (ou seja, a minha validação e consequente aceitação em meu viver) desse argumento, porém aqui faço um exercício pedagógico de propor um exercício mental de flexibilização do pensar e argumentar de quem pensa diferente do pensamento explicitamente ANARQUISTA, libertário, ou mais especificamente, libertário entre parênteses...
De forma mais ampla, independente e anteriormente ao uso e regulação da minha alimentação, discordo de LEIS PATERNALISTAS. Uma lei que me impede de "fazer mal" a alguém é diferente de uma lei que me impede de "fazer mal" a mim mesmo. Como anarquista, questionaria todo o aparato legal, mas para início de debate fica essa questão: aceito uma regulação em que eu possa atingir o direito de ser do outro, mas não do que o Estado considera melhor pra mim, com direito a punição.
Lei Paternalista é a do Cinto de Segurança. O Estado pode divulgar a necessidade, bem como os carros virem com explicações, mas para que existe uma lei que me punirá caso eu não esteja usando o Cinto? A lei existe para ter alguém que a regule, fiscalize e puna. E caso eu não use o Cinto, quem se prejudica? Eu mesmo... Se o Estado achar que uma determinada dieta alimentar fará bem pra minha saúde, como usar o Cinto, poderá daqui a pouco se colocar no direito de me multar caso eu não siga essa dieta... Tudo em prol de minha saúde, ou do que os legisladores acharem que faz bem à minha saúde...
Quem for idiota a ponto de não usar Cinto de Segurança em rodovia e sofrer um acidente, deve se responsabilizar por isso e não esperar que venha do Estado uma regulação e controle de como faço o uso de uma peça de segurança de meu carro. O Estado não deveria interferir no direito de uso de substâncias, somente no limite do controle de segurança, como já ocorre em medicamentos controlados ou uso e venda de álcool e cigarros.
No quesito cigarros e álcool, o público em geral aceita leis que determinem onde se possa fumar cigarro e/ou que impeçam de se beber álcool e dirigir, pois nesses quesitos a regulação é contra o outro, mas não impedem o exercício de seu uso (fumar tabaco e beber álcool). Esse mesmo público em geral, aceita a proibição da maconha e que se use a ayahuasca somente de forma religiosa. Um próximo passo numa evolução cultural é que quem beba cerveja e fume cigarros tire seus preconceitos, aceitando a maconha como uma variedade de cigarro, e a possibilidade do uso da ayahuasca além dos aspectos religiosos populares e seus ritos litúrgicos.
Enfim, entender que as LEIS nascem antes de tudo para atender a população e seus costumes e hábitos que mantém sua agregação social e existência individual, e acabar com essa HIPOCRISIA vivida na sociedade em relação às drogas é um passo importante para um crescimento da espécie e sua acomodação no planeta com menos contradições e paradoxos.
Acabar com Leis proibicionistas, deixar a regulação do uso por seus usuários e mercados, com menor interferência policial, faria com certeza uma mudança no paradigma da criminalidade e formas de lavagem de dinheiro e seus tentáculos na oficialidade. Exigiria coragem de uma ala da polícia que prefira uma mudança social em prol dessa sinceridade e melhor organização social, ao lucro imediato e corrompido de aceitação do inevitável, que chamo de hipocrisia social, que pessoas que usem tenham acesso a suas necessidades criadas em seu viver. Mas as pessoas fingem que não veem e se omitem dessa hipocrisia, muitas vezes considerando-a "mal menor" das mazelas e hipocrisias outras do viver.
Assim, voltando ao início do texto e idéia, o prefeito não conseguiu mudar a lei da gravidade e se adequou a ela. Tirar essa distorção de paradoxos a que fomos educados como naturais, em que não se discute a contradição em aceitarmos ou precisarmos de um Estado que nos deixe fumar, beber ou consumir ou que cada um entender e desejar ser o melhor pra si.
Se alguém comete um crime matando ou roubando, por exemplo, isso não se deve ao uso de drogas. Assim como se alguém faz uma ação altruísta como uma doação a caridade ou cuidado do outro, não se acusa a pessoa de ter bebido, ou fumado algo. Se alguém comete um crime, deve ser punido pelo pelo crime. Não pelo que usa, fuma ou bebe.
Aceitar que a maconha fique na ilegalidade é aceitar uma lei que não funciona na prática, como no primeiro caso, como se aceitássemos uma lei que revogasse a lei da gravidade. Poderia revogar no papel, não na realidade. Liberar e legalizar a maconha manteria o status e necessidade de uso policial de controle. SE DESLEGALIZÁSSEMOS, simplesmente tirando das leis, a polícia se preocuparia com o plantio e transporte de maconha como se fosse o açúcar hoje em dia. Acabaria a corrupção e tráfico, nascendo um mercado e comércio que se auto regularizaria, sem ligar consumidores com o mundo do crime e da ilegalidade. As drogarias manteriam a venda de medicamentos de tarja preta com controle médico, como seria a cocaína e o crack, como formas de diminuição da dependência, e talvez com um cadastro de seus usuários, mas que isso não não funcionaria como "lista negra", pois seria aceito como natural a possibilidade e uso de qualquer substância, desde que consciente de seus efeitos e sem causar danos a outras pessoas.
Deixo para a próxima semana a entrada na questão das ditas doenças mentais. Depois pretendo fazer também um texto específico, mas essa semana, na 58 sessão dos PES (AyA) ultrapasso a marca de 100 pessoas VIRGENS em ayahuasca que perderam sua virgindade em minha pesquisa. E já são 2 sessões que peço a assinatura dos participantes num termo de responsabilidade, totalizando já 21 cadastrados de 191 participantes, desde 2008.

(fim da segunda parte - LEIS naturais e políticas)

Rui Takeguma, poção da Maromba em 6 de abril de 2010.

site oficial - http://p.e.s.vilabol.uol.com.br
site de relacionamento - www.somaie.ning.com
blog - www.pesayahuasca.blogspot.com


OBSERVAÇÃO:
da segunda parte
(*2) Existe um jogo óbvio de que é a minoria dos poderosos políticos (senadores e deputados, em menor grau os vereadores) que escolhem e fazem as LEIS. Numa ilusão chamada de eleições, esses políticos são escolhidos pela população em geral, para que estes façam as leis que irão controlar seu viver, mas no disfarce do argumento, a população em geral acredita que controla quem os controla. E através de um processo de aperfeiçoamento histórico de manipulação das massas, a democracia quer se tornar aos olhos dos poderosos como o FIM DA HISTÓRIA. Como se chegássemos ao final da melhoria da organização social humana. Não desenvolvo nesse texto o aprofundar do viés anarquista, pois o foco específico é este contexto ligado as drogas. Mas desde que conheci a proposta anarquista a adotei no meu viver, primeiramente chamando de anarquismo somático, e hoje em dia de anarquismo-entre-parênteses.
Os anarquistas procuram trazer pro seu dia-a-dia o conflito de lidar com os conflitos entre comportamentos e desejos. Procuram sim aceitar LEIS, desde que por eles criadas em consenso com outras pessoas. Assim, um anarquista não escolhe representante para criar as leis que regulem seu viver. Simplesmente vive e, ao surgir a necessidade de regulação, cria sua lei em consenso com os seus semelhantes: pessoas que desejem conviver. Ainda estamos afastados de uma sociedade de tal maturidade entre seus semelhantes. Ou, observando de outra maneira, existem pessoas que preferem as formas violentas de imposição de seus desejos. Nisso, e independente de desejos e sonhos de construção e mudança, estamos imersos num espaço físico que se consolidou historicamente e possui nesse contexto pessoas assumindo inúmeras posições em seu viver, que criam leis e regras, além das pessoas que policiam e vigiam, e outras que prendem e torturam.

(*3) O Álcool etílico ou etanol é um excremento de levedura, um fungo com apetite voraz por coisas doces. Quando a levedura encontra mel, frutas, cereais ou batatas, por exemplo, libera uma enzima que converte o açúcar nesses materiais em dióxido de carbono (CO2) e álcool (CH3CH2OH). Este processo é conhecido por fermentação.

(*4) "Tabaco (Nicotiana tabacum) é uma erva nativa da América, pertencente à família das solanáceas, grupo botânico que também inclui plantas narcóticas como a Datura e plantas comestíveis como o tomate, a pimenta e a batata. O tabaco é extremamente importante nos sistemas médicos, religiosos e xamãnicos de diversos povos indígenas de ambos os continentes americanos. Existem trinta e sete espécies nativas de Nicotiana, sendo possivelmente a planta domesticada mais antiga da América. (...) Os Machiguenga (indígenas dos Andes Peruanos) consomem o tabaco de todas as formas imagináveis: fumado (nopenatakero) em cachimbo, bebido em forma líquida (oani), mastigado em forma de massa concentrada (opatsa) e soprado no nariz em forma de pó fino (opane)." Venenos Divinos: Plantas Psicoativas dos Machiguenga do Peru, por Glenn H. Shepard Jr. (O Uso Ritual das Plantas de Poder, 2005, pag. 197)

(*5) "A ingestão do açúcar altera o funcionamento das glândulas endócrinas, pâncreas, supra-renais, pituitária e até o fígado. Puxado pela hiperinsulinemia o sistema glandular endócrino, com o tempo, tende a se esgotar, e o pâncreas perde a sintonia fina que existe entre níves de glicose e doses de insulina, o glucagon e até a adrenalina entram nessa dança. E o abuso de oferta de insulina faz que, com o tempo, perca a eficácea. O equilíbrio ácido/base e o equilíbrio osmolar, também são alterados e há formação excessiva de radicais livres em seu corpo gerando estresse oxidativo. A glicação (ex glicolisação) que toma conta de proteínas do sangue, de órgãos, tecidos e células é algo semelhante a cupim atacando móvel de madeira ou ferrugem atacando uma maquina de ferro. O sistema imunológico e o metabolismo também são debilitados." por Fernando Antonio Carneiro de Carvalho (O Livro Negro do Açúcar, 2008, pag. 28)

(*6) Considero hipócrita que qualquer pessoa que use a ayahuasca, que possui fortes efeitos SOMAATIVOS, condene usuários de outras drogas como maconha e álcool. Cada um tem direito a se viciar a o que desejar em seu viver... SOMAATIVO é qualquer substância, como a AYAHUASCA, que mexem paralelamente com o corpo físico (sistema digestivo incialmente, passando por respiratório, sanguíneo, mental e energético) e o corpo mental (aqui surgido da base corporal neurológica, mas argumentado e nomeado em sensações espirituais e verbais, como pensamentos e sensações geradas virtualmente - em princípio diferentes das advindas das sensações externas ao sistema neurológico pelas conexões sensoras e efetoras)

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