PES (AyA)

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Pesquisas e Experiências Subjetivas Anarkia y Ayahuasca Entre Parênteses

Santo Daime/Cazuza

“Também fiquei sabendo através de Ney Matogrosso que, naquele período, meu filho começou a freqüentar o Santo Daime. Foi através de Ney que Cazuza se interessou pelo assunto. Ney conta: "A primeira vez que conversamos sobre Santo Daime foi em agosto de 1988, na festa de meu aniversário, que aconteceu na casa de Mário Trancoso, em Itaipu. Cazuza chegou tarde com um bando, voltando de Petrópolis. Ele estava sentado na mesa comendo e eu sentado ao seu lado, conversando, quando ele disse que eu estava com um brilho diferente nos olhos. Queria saber o porquê. Falei que não sabia que brilho era aquele e que a única coisa diferente que estava fazendo era tomar o Daime. Ele disse assim: quero ficar com esse brilho nos olhos também. Eu vou ao Santo Daime com você! De fato, isso aconteceu tempos depois. Saímos cedo de minha casa e fomos à sede do Santo Daime, no meio da mata às sete da manhã, para fazer um trabalho exclusivo para ele, só com homens. Havia uma fogueira acesa dentro de um galpão e ali Cazuza começou a tomar o Daime. Tomou, tomou, e nada aconteceu. Ele vomitou muito e fiquei preocupado, mas a pessoa que conduzia os trabalhos me disse que o problema era a quantidade de drogas e medicamentos que estavam dentro de seu organismo. Cazuza continuou a vomitar e eu já nem conseguia mais ampará-lo. Lá pelas três da tarde, ele me olhou profundamente e disse: é simples assim? E eu lhe disse: é, Cazuza, é só deixar, é só receber. Porque o Daime não é uma religião, é uma maneira de autoconhecimento. Quando saímos de lá, passamos em casa para comer e já era noitinha quando ele disse que queria ir para casa, queria conversar com João e Lucinha, porque naquele dia ele havia entendido muito a sua história com os pais". É verdade. A conversa realmente aconteceu. Ao voltar para casa depois da experiência com o Santo Daime, Cazuza nos chamou para um encontro emocionante. Choramos juntos, enquanto nosso filho nos fazia uma tocante declaração de amor. As experiências com o Santo Daime, porém, foram testemunhadas pela enfermeira Márcia, a Edinha. “Naquela noite Cazuza chegou tarde em casa, com muita dificuldade para caminhar. Foi direto para o chuveiro. Evacuava sem parar numa diarréia profunda. Quando percebi, todos tinham ido embora. Para falar a verdade, quando Cazuza passava mal, as pessoas iam embora. Depois do banho, ele telefonou para dona Lucinha e seu João e pediu que eles fossem para lá. Eram os únicos que seguravam quando a barra pesava." A enfermeira Márcia sempre foi a preferida de Cazuza. Ela trabalhava na Clínica São Vicente, quando a contratei para atender meu filho. A empatia entre os dois foi imediata, como ela mesma conta: "Cheguei ao apartamento de Cazuza às sete da noite para o primeiro dia de trabalho. Ele não estava, só voltou por volta da meia-noite, com uns amigos," “o Zeca inclusive. Começou a brincar comigo, a dizer que eu parecia com o cantor Ed Motta e que, se Cazuza fosse gordo, só usaria roupas muito estampadas, extravagantes. Pediu um suco e, quando voltei, me perguntou se eu namorava meninos ou meninas. Assim, sem ponto nem vírgula. Fui contratada, no início, para ficar com ele uma noite sim, outra não". Nunca mais ninguém se referiu a Márcia por seu nome de batismo. A partir desse dia ela seria Edinha para todos.” Trecho de: Araújo, Lucinha. “Cazuza, Só as Mães São Felizes.” iBooks.

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