Comentários Libertários sobre a Ayahuasca e seu momento "bola da vez" da mídia - (primeira parte - revistas semanais)
Sou terapeuta há 20 anos e nos últimos três anos me envolvo numa pesquisa com o uso da ayahuasca. Nos últimos meses, três revistas de circulação semanal e nacional PUBLICARAM BESTEIRAS SOBRE A AYAHUASCA em MATÉRIA DE CAPA.
A primeira foi a ISTO É, que aproveitou a publicação do Diário Oficial sobre o uso da ayahuasca e criou uma matéria sensacionalista e cheia de erros. Recebi na Internet variados artigos criticando a matéria da revista e criei este BLOG para publicar também um texto crítico de minha autoria. Após isso, expandi esse BLOG para outras informações sobre o tema da ayahuasca e, nessa semana, juntas as revistas ÉPOCA e VEJA fazem sua função de tentar jogar merda no ventilador.
Jogar merda me refiro a jogar informações e pontos de vista mentirosos, paradoxais. E ventilador é a grande mídia, que tem o poder de lançar, sempre superficialmente (sem conteúdo, oco) e de forma bem descartável, seja nas capas das revistas que são semanais, seja até aparecer outra "bola da vez" como foco das sensações.
O poder dessa comunicação virtual, pessoal que pratico nesse BLOG, como inúmeras pessoas o fazem, não é o da grande mídia (que também está no virtual e pessoal). Mas nessa comparação é o que nos protege de sermos atingidos por essa merda no ar, pois temos outras informações, que na maior parte das vezes são o não-oficial, e outros pontos de vista sobre o assunto.
Assim, esse BLOG vai procurar fazer o caminho da objetividade–entre-parênteses, na terminologia de Humberto Maturana, mas com a prática do Anarquismo-entre-parênteses advindo das Teorias & Somaiê de Rui Takeguma, no exercício de sessões de ayahuasca que são chamadas de Pesquisas e Experiências Subjetivas Anarkia Y Ayahuasca entre Parênteses, as PES (AyA).(*)
Tenho visto e lido muito material que saiu publicado on-line na Internet sobre o assunto, inclusive linkando alguns, mas considero importante colocar meu ponto de vista. Seja porque, como o Glauco (que foi assassinado), sou "distribuidor" de ayahuasca (ele como padrinho do Santo Daime na Igreja Céu de Maria e eu como pessoa física conduzindo pesquisas e experiências numa abordagem religiosa diferente da visão convencional). Seja porque muitas pessoas que irão defender o Glauco e o Daime têm o limite da visão proibicionista/legalista. Seja porque esse incidente recente toca em outro assunto que possuo uma visão diferenciada: a questão das doenças mentais. Seja porque conduzo uma técnica terapêutica - a Somaiê - QUE NÃO USA A AYAHUASCA, mas a tenho comparado com as sessões de ayahuasca, e venho escrevendo e pesquisando o assunto. Seja porque nesses três anos e 56 sessões que conduzi, servi ayahuasca para 181 pessoas e dessas 95 nunca tinham bebido antes, e talvez algumas dessas pessoas se interessem em como observo o momento presente e essas polêmicas todas...
ÉPOCA - Na capa coloca a pergunta "O daime provocou o crime?". Eu respondo: CLARO QUE NÃO!! Esse argumento de localizar alguma coisa no criminoso pra justificar o crime é absurdo. Os que são contra a maconha podem dizer que por ele fumar maconha, cometeu o crime. Acho que pode até aparecer um vegetariano e dizer que ele cometeu o crime por ele ser carnívoro (nem sei se o é, mas brinco e exagero com o assunto pra mostrar o absurdo da premissa usada na pergunta). Se o Daime provocasse o crime, teríamos muitos mais assassinatos (nas revistas aparece que são 19 mil, mas creio que sejam pelo menos 50 mil que usam frequentemente a ayahuasca, e se formos contar quem já experimentou e repetiu poucas ou nenhuma vez, o número deve subir substancialmente). Eu com minha pesquisa já teria produzido 362 mortes, já que quem pensa que o Daime provoca o crime deve achar que produzirá crimes iguais, matando 2 pessoas. Na revista, como argumento reacionário, se coloca que a ayahuasca possui DMT "que a farmacologia policial classifica como uma droga psicoativa do tipo A - o mesmo da heroína e cocaína". Chamo de argumento reacionário pois procura levar as pessoas a associarem o DMT e ayahuasca a outras drogas pesadas, mas OMITE o fato farmacológico de que o DMT é NATURAL ao nosso organismo. Não só o homem, como todos os mamíferos, inúmeras plantas e algas possuem o DMT de uma forma endógena, isto é, que nós mesmos fabricamos. A revista VEJA também traz a informação da proibição do DMT e ainda valoriza o fato de 183 países seguirem uma lista da ONU na qual a DMT está proibida. ESSA PROIBIÇÃO É RECENTE (1970) e foi imposta de forma absurda pelos EUA. Com essa proibição a espécie humana se tornou ilegal, pois não só transportamos DMT para onde andamos, mas inclusive produzimos DMT, enfim, somos fábricas ambulantes de uma droga ilícita - o DMT. Colocando dessa forma se vê claramente como as legislações são absurdas, ultrapassando em muito a função original para que foram criadas (volto a isso mais adiante). Nessa linha nazista/fascista, daqui a pouco terá cientista dizendo pra extirparmos a glândula pineal, pois não ficaremos ilegais por produzirmos a DMT (se é que é lá que é produzida). E, pelo contrário, adotar uma linha humana, seria aceitar a natureza e DESLEGALIZAR o DMT. Isso é, não precisamos legalizar, legislar e controlar (se tem lei, tem que ter quem as regulamente e depois as vigie, e haja corrupções nesse itinerário). Tirar o DMT das leis quebraria com esse paradoxo legal não explicitado (ou seja omitido, ocultado) pelas revistas.
Não vou esmiuçar o texto das revistas (como fiz no texto anterior sobre a revista ISTO É) e termino o comentário sobre a ÉPOCA, citando como, diferente da VEJA, optaram por uma capa LEVE e BONITA: fundo branco, e uma imagem estilizada de um cipó fazendo a moldura da revista. Não sei se foi proposital (por exemplo com um responsável pela confecção da capa que é daimista), mas imagino que não, mas o resultado final fica interessante: POIS O CIPÓ (justamente a força da ayahausca) ENCOBRE O NOME DA REVISTA, MUDANDO ELE PARA: É OCA. O que se torna uma boa definição de sua matéria de capa.
VEJA - A veja consegue manter a tradição de revista mais reacionária. Classicamente sabemos que é uma revista pra se ver e não se ler, afinal o imperativo é "veja" e não "leia". Por isso a diferenças das capas, essa muito mais sensacionalista que a outra. Mas no caso da VEJA, vou pontuar mais que a matéria sensacionalista, a CARTA AO LEITOR na página 11. Pois a matéria segue a visão proibicionista em relação ao direito de escolha individual, isto é, quer reforçar a visão absurda de que devemos ter um governo (pessoas) que escolham o que cada indivíduo pode ou não usar ou se alimentar em seu viver. E, como citei antes, isso merece um tópico específico.
Na pagina 11 a VEJA mente descaradamente, usando a mesma artimanha jornalística que apontei no texto anterior (Comentários a revista ISTO É): utiliza paradoxos e quer fixar a última informação. A revista afirma: "o governo federal liberou a utilização sem regras nem limites de uma substância química alucinógena". MENTIRA ARDILOSA, pois a liberação do governo é somente uma conquista de grupos ayahuasqueiros que há várias décadas vem fazendo uso dessa substância com regras e limites. E o governo, após extensas pesquisas, verificou que a forma como os grupos utilizam a ayahuasca, é segura e responsável (o que vem sendo seguido por inúmeros países, inclusive os EUA). A própria revista, algumas linhas antes, afirma a existência de normas de uso (ainda o faz errando datas e informações), para logo adiante omitir/mentir sobre isso pra criar o sensacionalismo da frase que destaquei.
Outro paradoxo proposital da revista, na página 69, é um box chamado "Misturas Perigosas" que coloca a Maconha dentro dessa lista, inclusive com fotos da erva e dois baseados (cigarros), pra dentro do box constar: "Não há relatos de reações indesejáveis". Boa essa informação para quem não conhece as ervas, pois quem as utiliza como eu, sabe que não há problemas, mas de qualquer maneira, para os leitores que seguem o imperativo da revista (ver e não ler), esses podem achar que a maconha estaria numa lista de mistura perigosa com a ayahuasca. Mas, veja o paradoxo, eles incluem na lista para dizer que não deveria estar nessa listagem. Poderiam citar o café, chocolate, açúcar, cigarro, por exemplo...
Outro paradoxo social e político, mas que fica oculto nessas matérias superficiais, é a proibição da DMT, não só no contra-senso absurdo paranóico de se criar (EUA) ou aceitarmos (Brasil e mais 181 países) leis que tornam não só toda a humanidade ilegal, mas como inúmeros outros seres vivos. Isso no futuro será chacota para historiadores e juristas. Mas acaba criando outro paradoxo: de que não se pode pesquisar os efeitos do DMT por ela ser ilegal. Não podemos dizer se ele "faz bem" ou "faz mal" pois é proibido sua pesquisa?? Diferente de outras drogas que foram proibidas, como a cocaína, que era de uso normal há cem anos - Freud usou-a por toda a vida, inclusive receitando seu uso (parou de ministrar após um paciente morrer), e que hoje é proibida. O DMT foi proibido assim que se percebeu como era potente e se parecia, nos efeitos, com outras drogas proibidas. Mas sorte que existem os ILEGAIS responsáveis, os que foram contra os absurdos das leis, estudaram essa substância, descobriram que ela é fabricada pelo nosso próprio corpo e tem funções fundamentais ligadas ao sono, sonhos, e meditações profundas, inclusive pode ser nossa capacidade de perceber o chamado DIVINO das religiões. Acredito que pode ser um novo paradigma das ciências e religiões o estudo da DMT, mas para isso ela não pode ser proibida. E, como outros assuntos, me comprometo a voltar a esse dilema do DMT ser ilegal quando aprofundar minha visão sobre as Leis e a Ayahuasca e outras "drogas".
Como o tema é longo e meu tempo escasso, pois estou abrindo novos grupos de somaterapia em Belo Horizonte e São Paulo, além das aulas de capoeira que mantenho em São Paulo e Visconde de Mauá, e além da pesquisa com a ayahuasca, aproveito um dia de descanso em casa pra refletir sobre esse tema. Na semana que vem, continuo a reflexão indo pro lado das LEIS e das DOENÇAS MENTAIS. Adianto que sobre leis sobre drogas tenho a visão, como a do psiquiatra Thomas Szasz, de que devíamos DESLEGALIZAR as drogas. E como escrevi no meu texto deste ano, EU SOU DEUS, não existe doença mental, mas podemos talvez falar em doentes mentais...
(fim da primeira parte - revistas semanais)
Rui Takeguma, poção da Maromba em 25 de março de 2010.
site oficial - http://p.e.s.vilabol.uol.com.br
site de relacionamento - www.somaie.ning.com
blog - www.pesayahuasca.blogspot.com
OBSERVAÇÃO:
(*) as PES (AyA) são acordos consensuais entre pessoas que bebem ayahuasca sobre a COORDENAÇÃO religiosa de Rui Takeguma(**). Existe um filtro de entrada, em que conversando antes das sessões, Takeguma e sua experiência como terapeuta corporal de 20 anos percebe quem está em condições de usufruir a bebida naquele momento da sua sessão, e só oferecendo a ayahuasca a quem concorda em seguir sua coordenação na sessão, não sair do espaço da sessão até que esta se encerre, e assine um termo de responsabilidade sobre o contexto e sua participação (este quesito será adotado a partir deste momento, como recurso estratégico e melhor esclarecimento (na formalidade) dos aspectos a serem vivenciados).
As PES (AyA) não são um grupo de pessoas, não constitue também uma continuidade ou periodicidade e não possue espaço físico. Rui Takeguma é o único responsável, aluga espaços alternativos e aceita pessoas que queiram beber a ayahuasca numa pesquisa e experiência única. Há pessoas que porventura e coincidência repetem a presença nas sessões, mas isso constitue somente 1/5 dos participantes. Mais da metade dos participantes não haviam bebido ayahuasca antes dos PES (AyA). _
(**) Rui Takeguma se considera Deus e procura com sua pesquisa propor que nessa religiosidade cada um se perceba Deus de seu universo perceptivo, o que normalmente é confundido com a realidade compartilhada por todas as pessoas. Essa religiosidade vivida nos PES (AyA) se parece com o argumento científico da Somaiê (criada por Takeguma) e da Biologia do Conhecer (de Humberto Maturana), pois é a leitura estratégica dentro dos limites dos atuais paradigmas conceituais das ciências e religiões.
Ao se considerar Deus, Takeguma não busca psicoticamente se enquadrar no paradigma que a palavra Deus remete na consciência das pessoas (se bem que muitos só consigam ficar nesse nível de percepção), e sim questionar de que realidade estamos tratando, a da objetividade com ou sem parênteses. Um bom auxílio ao entendimento é a leitura do texto EU SOU DEUS.
FLUXO VISUAL de uma sessão de PES (AyA)
novo depoimento (o quinto deste blog)
Dentro de si mesmo
Mesmo que lá fora
Fora de si mesmo
Mesmo que distante
E assim por diante
De si mesmo, ad infinitum
Tudo de si mesmo
Mesmo que pra nada
Nada pra si mesmo
Mesmo porque tudo
Sempre acaba sendo
O que era de se esperar
LUCAS - 55º PES (AyA) - Beagá
o negócio tá quente...
01
http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u709924.shtml
21/03/2010 - 11h12
A outra face de Glauco Vilas Boas, líder religioso do Santo Daime
Publicidade
BEATRIZ CAIUBY LABATEANTONIO MARQUES ALVES JR.ISABEL SANTANA DE ROSEespecial para a Folha Online
02
http://colunas.gnt.globo.com/pinkpunk/category/sem-categoria/
Sobre Glauco
qui, 18/03/10
por marcia.tiburi
03
http://blogdonau.blogspot.com/2010/03/morte-de-glauco-villas-boas-dirigente.html
A morte de Glauco Villas Boas, dirigente daimista
sexta-feira, 19 de março de 2010
por Marcelo MercanteAntropólogo, pós-doutorando da USP, pesquisador do NAU
04
http://blogdaamazonia.blog.terra.com.br/2010/03/22/santo-daime-midia-deturpa-e-agride-historia-da-unica-religiao-genuinamente-brasileira/
segunda-feira, 22 de março de 2010
Santo Daime: mídia deturpa e agride história da única religião genuinamente brasileira
Altino Machado às 6:44 am
POR MOISÉS DINIZ
05
http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,entre-o-ceu-e-o-inferno,527023,0.htm
Entre o céu e o inferno
De uso ritual ou como compulsão destrutiva, as drogas pedem um novo paradigma, diz especialista
20 de março de 2010 12h 22
06
http://cienciaemdia.folha.blog.uol.com.br/arch2010-03-21_2010-03-27.html#2010_03-22_20_58_04-129493890-28
Segunda-feira , 22 de Março de 2010
Ayahuasca é droga?
Três perguntas para Draulio de Araujo e Sidarta Ribeiro, co-autores de pesquisa do Instituto Internacional de Neurociência de Natal Edmond e Lily Safra (IINN-ELS) sobre efeitos do chá do Santo Daime no cérebro e na mente.
BOA LEITURA...
em breve escrevo sobre como a mídia dessa semana divulga o caso...
57 º PES (AyA) em Beagá - segunda 29/03/10
19h Bate Papo
20h Início Sessão
24h Fim Sessão
Taxa - 50 reais (4o chá e 10 espaço) para Novatos e 40 reais para quem já participou dos PES (AyA) (30 do chá e 10 espaço)
www.pesayahuasca.blogspot.com
http://p.e.s.vilabol.uol.com.br
4 depoimentos (tirados do somaie.ning.com)
oi rui! gostei muito das suas fotografias, parabéns mesmo pelo trabalho!
queria te agradecer pela oportunidade também, veio numa hora muito certa, e a liberdade e simplicidade de poder tomar na sua casa, com cobertorzinho, podendo deitar, e ainda mais ouvindo aquelas músicas maravilhosas!
vivi senti e vi coisas muito esclarecedoras quando eu tava de borracheira na sua casa, meu corpo adormeceu enquanto a minha mente vivia como nunca, eu vi o infinito colorido, cheio de luzes, a força maior, ou chame como quiser, a coisa dentro da coisa dentro da coisa dentro da coisa... muitas coisas se esclareceram pra mim, foi mágico!
com certeza vou voltar!
e levar amigos comigo!
mais uma vez muito obrigada!
até mais!
bjo
BEATRIZ F.- 49 PES (AyA) - Maromba
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Rui e Natalia,
Queridos, foi um prazer conhecer e fazer nossa primeira experiênca de Ayawaska com vocês!
Escrevemos depois de algum tempo para compartilhar com mais claridade e "digestao" o que foi pra gente esse momento e encontro.
Pra começar eu tive de fato um antes e um depois... realmente foi único e mágico... tive uma grande sensaçao de compreensao do fluir da vida, de viver o agora - o eterno agora -, do constante baile e música, som e movimento que é a VIDA! Me abriu muitas portas internas e senti como que afinidade com a planta (como se nos tivéssemos aceitado mutuamente). Sinto que me ajudou a sanar muitas coisas e a aprofundar meu processo de encontro comigo mesma, com meu ser ou como vocês disseram de alguma forma, com meu deus interno.
Tenho vontade de ter outras experiências com a planta e agora já estamos, eu e Facu, de volta em Buenos Aires. Há algum tempo atrás conheci uma chica daqui que fazia algum ritual com o chá. Além disso, tive uma experiência no Rio à algumas semanas atrás antes de voltar pra cá, em um lugar chamado Arca e através deles talvez também consiga o contato de um casal que faz uso por aqui. Aos pouquinhos estou começando a investigar esse mundo novo que se abriu pra mim.
A experiência na Arca foi totalmente diferente da que tive aí com vocês mas claramente também serviu, de outra maneira, para conhecer alguns aspéctos "desconhecidos" de mim mesma (nunca sao totalmente desconhecidos). As pessoas da Casa tocaram e cantaram desde mantras até músicas devocionais à planta e, com tambores, também se fazia um bailado que nesse dia foi comemorando o dia de Yemanjá, o que fez mover um mundo dentro de mim. Pude entender melhor em mim a questao de movimentar o corpo que o Rui comentou.
TATIANA F.W. - 50 PES (AyA) - Maromba
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Oi! Eu queria compartiliar con voseis o que esa noite experimente. Cuando entre en el baño sento (sinto) que perdi mi yo, eu no sabia cual de los dos era: si el que miraba el espejo o el que estaba reflejado (refletido); por unos segundos veia (via) un duende mas no lo veia desde mi. Tambein senti moita pais durante tuda la sesion e sentia como vencia los prejuicios (preconceitos). Senti la fluideis da vida con las musicas que Ruy seleciono y descansaba en la mirada de Tati. Fue una noite en la que me renové y me acerqué (aproximei) a mi ser confiado y pleno. Les agradesco su trabajo y su existencia. Nos vemos pronto (logo).
FACUNDO A. - 50 PES (AyA) - Maromba
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O texto a seguir, é de um relato da minha experiência com o DMT e todas as palavras em “aspas” foi exatamente o que eu escrevi no momento da minha vivencia, ou seja o relato mais sincero que já fiz em toda a minha vida.
Os pensamentos em ritmo com a música falam comigo: “Um não sei, um não sei, um não sei”, confesso que senti vontade de dar um passo atrás, mas esta mesma “voz/pensamento” que dizia coisas sobre mim, me faziam sentir de uma maneira meio inexplicável, que para ficar tudo bem eu PRECISARIA deixar as coisas fluir.
“Controladora, controladora” e eu apenas concordava com a cabeça, “mas na verdade porque não está segura, quer segurar a uma corda”, e ao mesmo tempo engraçado ou não, está era exatamente a minha sensação, e provavelmente pelo mesmo motivo explico o “ um não sei” no começo do texto (a corda que sempre procuro segurar é o meu ego onde até então acreditava me reconhecer, porque quando o motivo se torna eu é um lugar obscuro e muito pouco conhecido, denso, inajustável e por este motivo traz medo e com o medo o ego, ele vai querer entrar e fazer que você não aceite o que está acontecendo e com ele a duvida).
”Como controlar o incontrolável?!”. “ACEITE, DANCE COM A MUSICA” e então foi ai que entrei em comunicação com tudo e nada que eu pudesse perceber alguma coisa em mim, “o pensamento parou de dominar e agora são apenas sensações”, um sentir e um contemplar do agora e da vida, a única e verdadeira vida.
No dia seguinte meu ego ainda existia, mas agora consigo percebe-lo e desvia-lo, e geralmente quando faço isso ainda consigo sentir a mesma sensação de vida em que tive no dia desta experiencia, livre e feliz com o um unico momento, o agora.
RENATA R. M., 24 anos - 56 PES (AyA) - Sampa
Ameaças e legalidade = não existe tráfico de ayahuasca...
tem gente que anda lendo muito revistas Isto É e Veja,
e aplicado a onda de dedo-durismo,
na paranóica e bode-expiatória guerra-contra-as-drogas.
Mesmo com a legalização da ayahuasca,
tem gente que não entendeu que acabou com isso a possibilidade de tráfico e ilegalidade
no uso e transporte da ayahuasca.
Seja de uma religiosidade restrita a cultos "tradicionais", como a Pesquisas como as minhas,
em que Deus se torna nossa própria percepção do nosso fluir,
a ayahuasca vem sendo usada de forma a satisfazer os grupos e formas sociais variadas de comungar essa bebida.
Deixo aqui um link para um depoimento a CBN de um general, sobre essa questão de quem
e como se bebe a ayahuasca...
Interessante ouvir...
http://cbn.globoradio.globo.com/Player/player.htm?audio=2010%2Fnoticias%2Fpaulouchoa_100317&OAS_sitepage=cbn/editorias/policia
Nesse 3° ano de pesquisa, alcancei 182 pessoas e 95 virgens, em 56 sessões pelo Brasil.
Rui Takeguma, Maromba, 17 de março de 2010
Glauco faz a passagem...




Era comandante/padrinho da Igreja Céu de Maria (http://www.ceudemaria.org/tracosespirito.html) em Sampa.
LUTO
Ayahuasca em Sampa - 13/03/10
dia 13 de março - sábado
12h papo - 13h beber
18h fim e papo
Lapa
(vila romana)
somaie.ning.com
p.e.s.vilabol.uol.com.br
Comentário a matéria da Isto É (Fevereiro 2010)
Comentários sobre a matéria da revista Isto É sobre AYAHUASCA
Dia 25 de Janeiro de 2010 foi finalmente publicado no Diário Oficial da União a resolução do CONAD com uma regulamentação concluída desde
Como há 3 anos desenvolvo uma pesquisa com o uso da ayahuasca, me interessa quando o assunto assume proporções nacionais. Moro na montanha, afastado de Banca de Jornais e Revistas, mas soube da reportagem pela Internet e logo depois li matérias criticando a da revista citada (abaixo coloco o link para todas).
MORTES
Se está vivo, pode morrer...
A tentativa do Hélio Gomes/Isto é de linkar MORTES com o uso da ayahuasca é frustrada em vários níveis. No próprio texto, sem precisar recorrer a informações externas a reportagem, ao ler com cuidado vemos formas de gerar confusão. Exemplo: No trato da primeira morte relatado na revista dessa forma:
"No penúltimo final de semana, Alexandre Viana da Silva, 18 anos, morreu afogado em um lago em Ananindeua (PA), depois de tomar o chá em um culto independente. Claro que não é possível afirmar que o alucinógeno levou o rapaz, que não sabia nadar, a enfrentar uma situação de risco sem medir as consequências. Mas a hipótese não pode ser ignorada."
O jornalista afirma uma coisa - que não é possível afirmar que a morte teve a ver com a bebida. E não só afirma como enaltece com a palavra "Claro", assim não só não é possível, como começa com claro que não é possível. Para, na frase seguinte, especular na base de teorias absurdas, de que alguma bebida faria alguém fazer algo que não desejasse (teoria paranóica de "lavagem cerebral", como a mídia e os poderes usam essa hipótese pra justificar sua proibição - recomendo que se assista o documentário GRASS, mostrando como o governo americano fez campanhas desse nível pra proibir o uso da maconha). Se o jornalista experimentar por si próprio a ayahuasca (e não ficar "viajando na maionese" com informações superficiais catadas na internet), verá que ela propicia uma "viagem lúcida", e que apesar das modificações comportamentais, a consciência se mantém, e depois de passada a experiência alucinógena, mantemos a lembrança de tudo que ocorreu durante a experiência. E se nenhuma hipótese pode ser descartada, já que ele pega casos que ainda não foram resolvidos na justiça: Claro que não é possível afirmar que o jornalista afogou o rapaz para dar um falso exemplo na revista. Mas a hipótese não pode ser ignorada. Assim, esse aparente paradoxo, é usado nesse contexto, a meu ver, como uma forma estratégica do jornalista citar algo que apurou como fato (que não se pode vincular a morte com o uso da ayahuasca) mas ao gerar a confusão (numa especulação "jornalística"), fica ao leitor menos atento a última impressão escrita (que pode haver uma hipótese não ignorável de que uma morte tenha vindo do uso da ayahuasca). Por isso pode ser lido como tendencioso no sentido de criar uma falsa polêmica (NO OLHAR dos ayahuasqueiros que conhecem a bebida, veja o texto crítico de Bia Labate no site da Caros Amigos, revista rival), como pode ser lido como uma boa reportagem esclarecedora (NO OLHAR de quem nunca tomou a bebida e segue uma visão OFICIAL no viver).
Enfim, num primeiro caso o jornalista traz um exemplo de afogamento (um excesso de beber água) e quer problematizar isso com o beber ayahuasca. No segundo caso, o jornalista se dá o direito de afirmar o que a diretora do Instituto de Criminalística ainda não pode afirmar e precisa de mais tempo e pesquisa pra afirmar: que a ayahuasca se liga a morte por coração de um rapaz que já possuia a Síndrome de Marfan (uma doença que justamente poderia matá-lo do coração, independente da ayahuasca). Faz um novo paradoxo, que explicitei no primeiro exemplo.
A meu ver, a matéria nasce de um paradoxo, tentar colocar algum problema em algo que está sendo aceito, justamente por ter sido bem pesquisado. O problema é um preconceito falso, aberto somente no final, a crença de que alguma substância possa corroer nossa sociedade. Maior paradoxo é o jornalista trazer o nome de renomados políticos nacionais defendendo a publicação e especular de forma a validar fofocas escrevendo "outras vozes levantaram a hipótese", sem citar as pessoas.
Desde que a ayahuasca ficou proibida no Brasil por 6 meses em 1985 (único momento na história em que isso ocorreu), ela vem sendo pesquisada exaustivamente e muitas vezes trazida de forma sensacionalista ao grande público, inclusive com denúncias de mortes, que terminaram na justiça. Esse jornalista só trouxe 2 exemplos incompletos (pois recentes e a espera de comprovações) pra tentar criar um vínculo anunciado no subtítulo. Veja a quantidade de pessoas que usam a ayahuasca, segundo a matéria 20 mil pessoas (suponho que o REAL seja muito superior em números que o relatado na matéria e é o OFICIAL que as religiões divulgam), e somente 2 exemplos? Isso por si só, a falta de exemplos em mais de 25 anos vigiada e controlada, mostra como a ayahuasca, diferente do que os médicos psiquiatras divulgam oficialmente, não é perigosa (veja texto da Associação Brasileira de Psiquiatria no site dos PES (AyA)). Os médicos em geral vivem muito mais um ato político de defesa profissional do que uma real preocupação com a saúde das pessoas (vejam as brigas pelo Ato Médico, e sua tentativa de poder sobre as outras profissões da área).
Como ayahuasqueiro há 6 anos, e como coordenador de sessões de ayahuasca há 3 anos, posso afirmar por experiência própria que a única ligação de mortes com o uso de ayahuasca é que a ayahuasca é bebida por pessoas vivas que podem morrer, não por beberem ayahuasca, mas por estarem vivas.
Na década de 90 me tornei professor de capoeira angola, o que continuo a fazer desde então. Como exemplificado na reportagem, na OFICIALIDADE se alguém quer fazer academia de ginástica é obrigado a passar por avaliação médica. Se alguém quer fazer capoeira angola comigo "deveria" passar por avaliação médica. Essa OFICIALIDADE é o jogo das maquinações políticas, o jogo do poder dos médicos, que conseguiram esse absurdo jurídico-paternalista: não sermos donos do nosso próprio corpo. Perante a lei, deveríamos ser considerados inocentes até que se prove o contrário. Essa intenção jurídica não se processa quando pensamos nas leis que regem o nosso corpo físico: sou considerado incompetente até que se prove o contrário (pela avaliação médica). Sou considerado doente, até que um médico me diga que sou saudável.
Por exemplo, no caso das academias de ginástica, em vez de deixar que cada um avalie sua competência e quem ache necessário procure uma avaliação médica, a lei considera PERIGOSO para a MINHA saúde eu fazer ginástica e necessito de uma autorização pra EU poder gerenciar MEU corpo. Depois volto ao assunto, mas aqui o absurdo está na existência de leis paternalistas que impedem que eu use livremente meu corpo. Mas esse é o lado OFICIAL da história, ao olharmos o lado REAL, vemos que quase ninguém faz avaliação médica pela exigência da LEI, e sim por duvidar de sua competência de se avaliar e necessitar da opinião médica. Eu, por exemplo, há 15 anos sou professor de capoeira angola, e NUNCA pedi avaliação médica a nenhum aluno, e nunca tive um aluno que morreu pela capoeira. Não é a toa que vivemos num país em que mais da metade do trabalho, da produção de riqueza, se dá a nível INFORMAL. O maior motivo é essa distância entre a OFICIALIDADE e a REALIDADE.
Se essa visão paternalista de que necessitamos de avaliação médica pra decidir sobre o nosso corpo se expandir, daqui a pouco precisaremos apresentar avaliação médica pra fazer sexo, ou pra quem quiser comer hóstia nos rituais católicos. Assim, sugiro uma possibilidade contrária ao que o jornalista sugere, em vez dos ayahuasqueiros precisarmos de avaliação médica, vamos todos pensar em acabar essa obrigatoriedade médica para as coisas.
O jornalista que vincular mortes com alguma religião, em vez de olhar as que usam a ayahuasca poderia olhar para história e atualidade internacional "de crenças seculares como o catolicismo, o islamismo e o judaísmo". Mas não o faz, pois ou gosta das intenções destas ou as aceita por estarem no consenso fabricado da cultura OFICIAL muito antes das religiões ayahuasqueiras, que só agora saem da marginalidade.
DROGA ALUCINÓGENA -
No ítem anterior (mortes) procuro desmitificar o texto pelo próprio texto. Fiquei na forma e não no conteúdo, pois a Bia Labate e o Rafael Guimarães dos Santos argumentam melhor e mais detalhadamente em seus textos as incorreções da Isto É/Hélio Gomes (links para seus textos no final do meu texto).
A revista se mantém no propósito de reforçar um discurso OFICIAL de PROIBIÇÃO que está nas nossas leis, o que chamamos de proibicionismo. É um consenso fabricado pela mídia para justificar que não podemos escolher com o que vamos alimentar nosso corpo. Há cerca de um século que acontece esse movimento político de proibição do uso de certas substâncias pelo público em geral, permitindo somente o acesso a poucas pessoas. Sejam médicos, sejam cientistas, alguém tem de manipular pra decidir que é proibido os outros manipularem. Lembrando que falo do OFICIAL, pois no REAL quem possui recur$$os tem acesso a quase tudo que desejar. Afinal, quantos políticos, jornalistas, enfim, usam no REAL substâncias proibidas pelo OFICIAL??
A reportagem termina com a paranóia de que existe um "rol de substâncias que corroem nossa sociedade". A qual sociedade o jornalista se refere? Obviamente a sociedade OFICIAL. Enfim, esse assunto é extenso, e explicitamente me coloco como anti-proibicionista, consequência de não aceitar leis paternalistas, consequência de não aceitar leis absurdas, seguindo e gerando o que afirmei antes, a existência de um duplo social, o OFICIAL e o REAL. Luto como anarquista pra aproximar esses lados do meu viver, atuando no social para que ele se aproxime do meu ideal pessoal. Assim optei em viver minhas desobediências civis, e depois explicitar elas, produzindo inúmeros cúmplices nesse viver REAL e não OFICIAL.
DROGAS ALUCINÓGENAS existem infinitas. O próprio oxigênio, de acordo como utilizado, se torna uma droga alucinógena (ver a respiração holotrópica). Ingerir mais de
DROGAS se vendem em DROGARIAS, assim respondo a pergunta que o jornalista faz na própria reportagem; e como ayahuasca não se vende em farmácia (ainda), então ayahuasca não é droga. Alucinógeno é um argumento variável a cada ponto de vista, pois o que é alucinação pra alguns pode não ser para outros. Os que acreditam na fé católica, acreditam que uma pessoa morreu e 3 dias depois ressuscitou, e não se acham alucinados, chamam isso de fé. Enfim, alguns católicos podem achar (ainda mais quem conheça pela matéria) que beber ayahuasca pode levar a ter alucinação, mas o mito de Cristo não é questionado. Os católicos alucinaram tanto em seus argumentos que nem mais questionam sua alucinação. Brinco com o assunto, pois o termo alucinógeno, como comento em meu texto sobre o assunto EU SOU DEUS (link aqui: ), é de um uso político. Nessa área cada um nomeia a ayahuasca como bem atende seus interesses, prefiro assim dizer que a ayahuasca, Daime, Hoasca ou Vegetal é um SOMA-ATIVO.
Dou esses exemplos pra contextualizar os preconceitos. Cada corpo/pessoa tem o direito de viver como quiser. De beber o que quiser, de fazer o que quiser. Criamos leis pra regulamentar esse fazer e impedir que o fazer de um incomode ou se sobreponha ao fazer de outro. Nesse caso, a necessidade de organizar o social é biológica, pois fazemos nascer esse social, então podemos gerencia-lo como bem entendermos. O problema surge que nesse processo nascem gerenciamentos que ultrapassam o senso de proteção do outro, ultrapassam o direito que a lei cria de gerenciar os conflitos entre as pessoas e gera o suposto direito de que alguém saberá o que é melhor para a minha pessoa, mesmo em momentos em que não há o risco de incômodo social.
No consenso fabricado das revistas do tipo Isto É, o problema do tráfico é dos usuários e vendedores, chamados de traficantes. Aprofundando um pouquinho se percebe que o problema do tráfico é da contradição entre os 3 poderes, enfim, um problema de deputados, policiais e governantes. A publicação no Diário Oficial do uso da ayahuasca por grupos ditos religiosos é importante como alertado pelo jornalista na questão do tráfico. Pois ao legalizar o uso da ayahuasca, o governo elimina a possibilidade do tráfico, com a melhor medida e que espero que se expanda para outras situações e psico-ativos.
No subtítulo da matéria em questão, a chamada é esta: "O governo legaliza o uso religioso do chá alucinógeno, mas peca ao deixar que mortes ocorram e ao abrir uma brecha jurídica que pode estimular o tráfico." A superficialidade do conhecimento e pesquisa do jornalista se mostra fraca desde este início. Numa frase usa um dado específico - a oficialização do uso da ayahuasca, com uma abstração paranóica-sensacionalista - de que o governo PECA ao deixar ocorrer o inevitável (mortes naturais), pra concluir de uma forma reacionária e proibicionista - que se abre uma brecha jurídica que pode estimular o tráfico. Como disse, ao oficializar some o comércio ilegal, chamado de tráfico, e aparece o comércio legal. Ou, de outra forma, o OFICIAL e o REAL podem coincidir.
Assim, o governo propicia uma validação do direito das pessoas de regularem suas vidas, permitindo que elas façam uso do que lhe é de direito biológico e terreno, de usarmos e nos alimentarmos do que desejarmos. No caso, o uso de duas plantas que geram um chá natural, isso pode ser usado e aceito como qualquer outra mercadoria de nosso sistema de trocas/vendas/compras.
Se aplicássemos isso a outras substâncias, acabaria o NARCOtráfico. Possibilitando que os produtores, vendedores e consumidores de substâncias psico-ativas como maconha, cocaína, heroína, ácido lisérgico, etc, possam ser tratados como os produtores, vendedores e consumidores de substâncias psico-ativas como cigarros, charutos, cachimbos de quaisquer fumos, qualquer bebida alcoólica, drogas e outros fármacos encontrados em drogarias, café, açúcar e temperos, bem como ervas
No caso do tráfico, ele pode ser estimulado a medida que se proíba o uso da ayahuasca, ou que se use o argumento religioso como forma de exercício de poder e preconceitos. Por exemplo, ao se aceitar os argumentos de alguma religião nos moldes que geraram a regulamentação, meu trabalho não-religioso pode ser encarado como um processo também religioso, pois também temos argumentos em relação ao viver e como e para que o uso da ayahuasca, e principalmente um ritual de controle do uso.
A meu ver, minha pesquisa se dá num âmbito de estudar os efeitos sensoriais subjetivos e como isso se modifica com a musicalidade, e conversar, além dos contextos outros do social e espaço físico da sessão. Comparo as sessões de
RELIGIÃO
Vou em breve fazer um texto em que ampliarei essa questão. Em 2008 me coloquei como ALEGAL, para não dizer ILEGAL. Na virada do ano de 2009 pra 2010, publiquei EU SOU DEUS, explicando como respeito as religiões e seu uso da ayahuasca, mas prefiro, ao invés de chamar de ritual religioso, outras nomeações para meu ritual.
Por ora, manifesto minha solidariedade aos índios tradicionais que usam a ayahuasca de uma forma mais ampla que a religiosa, pois estes também se tornam marginais junto comigo. Ou seja, escrevo sobre uma bebida MILENAR, que possui citação em relatos arqueológicos variados que indicam ser a ayahuasca, bem como relatos de mais de 200 anos e com a certeza de ser a ayahuasca. Uma bebida que, além de natural e de estar tendo um crescimento de participantes e expansão geográfica internacional com as Religiões Ayahuasqueiras, possui a característica de manter inúmeros grupos indígenas que usavam essa bebida ancestralmente (inclusive há os grupos que incorporaram à sua tradição, pela influência das Religiões Ayahuasqueiras) e grupos alternativos outros - como a pesquisa que desenvolvo - que não seguem uma doutrina religiosa para nortear o uso da ayahuasca.
Assim, apesar da conquista política no universo das drogas proibidas, em que a aceitação/legalização de uma bebida que muda as percepções pode ser um passo em direção a leis anti-proibicionistas, e por consequência do fim do narcotráfico, o limite dessa atual legislação está
Como me preocupo mais com o REAL que com o OFICIAL, entro no meu terceiro ano de pesquisa de uso da ayahausca. Sempre assumi meu viés NÃO-RELIGIOSO, explicando através do site na Internet, através de conversas anteriores a sessão, e muitas vezes na sessão os meus argumentos e a visão de mundo do Anarquismo Entre Parênteses, que desenvolvo a partir da minha experiência como terapeuta corporal da somaterapia/somaiê. Assim, deixo para cada participante do PES (AyA) a decisão de aceitar a minha coordenação em consenso ao que proponho, e não descarto utilizar a nomeação religiosa para, estrategicamente, manter sem problemas a minha forma de produção. Venho fazendo essa comparação com os participantes deste ano (em 2008, 86 pessoas beberam ayahausca comigo; em 2009 foram mais 66 pessoas novas, e já em 2010, em menos de 2 meses, 24 pessoas NOVAS beberam ayahuasca no PES (AyA)).
Quem, como eu, não aceita esse limite (o religioso) para o uso da ayahauasca, tem a possibilidade de arriscar comigo e com inúmeros outros grupos que possuem uma competência no trato de uso da bebida, mas que não se limitam ao OFICIAL, e vivem um REAL uso da ayahuasca sem ritual religioso. Mas não contem isso para o jornalista da Isto É, pois ele se limita a pesquisar no Google. Ele confunde na matéria o fato de alguém comprar ayahuasca conseguindo um contato por site de busca na Internet com o fato de alguém pesquisar na Internet a possibilidade de comprar ayahuasca. Ele somente pesquisou na net e reproduz a imagem na revista, não efetuou a compra na prática (também por aí se vê a profundidade da matéria, qualquer jornalismo de qualidade falaria de fatos e não de virtualidades). Falo isso pois há uma confusão nesse consenso fabricado do "perigo das drogas", com o real interesse das pessoas pelas ditas drogas. E esse interesse fazem as pessoas comprarem ou chegarem ao que querem, independente do OFICIAL proibir ou não.
Quem quiser experimentar e depois usar recorrentemente qualquer substância tem o direito biológico de fazê-lo. O limite da biologia é a morte, o fim da autopoiese, o fim da auto-produção-de-mim-mesmo. Um veneno, se usado com competência, produz a morte e não pode ser usado mais de uma vez. Mas se estamos vivos e somos donos do nosso corpo, podemos e vamos alimentá-lo como quisermos. Seja para sua manutenção básica, seja para sua experimentação e possibilidade de crescimento (uma forte corrente evolucionista explica o "elo perdido" da evolução humana pelo uso de cogumelos alucinógenos), o uso de substâncias variadas é de direito de cada ser. As leis que nasceram pra que cada indivíduo tenha sua liberdade de ser, sem ser tolhido nessa liberdade pelo ser livre de outros indivíduos se invertem na legislação proibicionista, em que a própria lei começa a servir para tolher as liberdades. E veja, não liberdades que estão incomodando outros indivíduos, simplesmente liberdades de experimentar e vivenciar as possibilidades de seu próprio corpo, no caso, com o uso de um alucinógeno natural.
Assim, voltando ao ponto, o real interesse das pessoas pelas ditas drogas não é afetado pela lei e pela publicação no Diário Oficial, quem se interessa e toma ayahausca continuará a tomar, quem não, também não. Revistas como Isto É e Caros Amigos pegaram e continuarão a pegar esse gancho do momento enquanto isso vender revista, dar polêmica, trazer pontos de vistas diferentes, como faço aqui também. A publicação traz pouco de novo, a não ser facilitar que o assunto se torne gancho de momento da publicidade, digo, do jornalismo desse tipo de revista, que tem seu lado positivo ao divulgar o uso da ayahausca. E que isso potencialize a aprovação dela enquanto Patrimônio Imaterial da Cultura Brasileira (como os Peruanos já fizeram) e diminua o preconceito em geral de substâncias marginalizadas por políticas econômicas e de interesses escusos.
LEGISLAÇÃO
Assim como o viver cotidiano se dá nesse equilibrar o OFICIAL com o REAL, considero positivo quando acontecem iniciativas anti-proibicionistas como essa, mesmo que exclusivas ao argumento da religiosidade. Com o fato de ser finalmente publicado no Diário Oficial, o uso da ayahausca assume um caráter inédito na legislação nacional e pode influenciar outras legislações com esse avanço parcial. Mas considero mais importante no nível REAL que se processará uma melhor aceitação da ayahuasca no cotidiano das pessoas, e isso poderá aumentar ainda mais seu uso. E quem bebe ayahuasca sabe que seus benefícios, além de pessoais, físicos e internos, se ampliam pro social, com mais afetividade, solidariedade e amor, com menos rancor e mágoas.
Enfim, em 2010 os bebedores de ayahuasca vinculados as Religiões Ayahuasqueiras poderão se sentir mais protegidos legalmente e socialmente em seus usos e costumes, legitimaram seu REAL no OFICIAL.
Mas anarquistas como eu, mesmo percebendo essa evolução na legislação não se preocupam muito com o OFICIAL (somente quando esse pode atrapalhar nosso REAL), e continuaremos nesse caso da ayahuasca, a beber de forma escondida ou a ter de fingir ser religioso, mas manteremos nosso OFICIAL diferente do REAL, pois acreditamos que quem se limita ao OFICIAL perde a distinção e consciência do que é seu REAL. E nas sociedades em que o padrão paternalista se extende a legislação, temos de aumentar nosso jogo-de-cintura de desobediência civil com muita consciência, pois, ao se acostumar com o consenso fabricado, pode-se chegar a um grave caso de normopatia, em confundir o seu REAL com o OFICIAL para todos.
Além da minha esperança de que agora mais pessoas aceitem a ayahuasca como um uso social brasileiro, como um chopp na praia, ou a cerveja depois do serviço, também tenho a esperança dos ayahuasqueiros religiosos perderem seu medo dos que não são religiosos e apóiem nosso uso dessa bebida mágica. E se lembrem que muito antes de suas religiões se tornarem tradicionais, muito antes de Mestre Irineu e Mestre Gabriel, e de Mestre Daniel e Padrinho Sebastião, outros seres humanos bebiam de outras formas a ayahuasca, inclusive possibilitando surgirem seus mestres e ritos.
PES (AyA)
Aproveito esse texto e momento para criar um BLOG dos PES (AyA). Alguns já publicaram comentários sobre sua experiência nos PES (AyA) dentro do NING (somaie.ning.com), mas como lá depende de um cadastramento prévio para postar comentários e acessar, pretendo facilitar as trocas virtuais com um BLOG próprio.
Blog http://pesayahuasca.blogspot.com uma voz dos PES. Vamos blogar...
Rui Takeguma, 18 fevereiro de 2009
53 sessões em 26 meses. 340 doses servidas para 177 pessoas, 94 eram virgens em ayahuasca.
LEGAL (julho 2008)
LEGAL
Um amigo e ex-assistente que reside nos EUA atualmente me questionou de eu estar me expondo com site na Internet divulgando o uso da ayahuasca. Esta questão levanta diversos pontos, seja no cruzamento político entre as minhas atitudes pessoais e uma legalidade que nos cerca no âmbito jurídico, seja no uso específico de uma substância que pode, na observação de alguns, ser considerada alucinógena e, por conseqüência, ilegal.
Deixo para outro momento a discussão mais ampla sobre meu comportamento pessoal e as leis brasileiras que me cercam. Mas quem pesquisar na própria Internet e em outros textos meus poderá ter uma idéia da questão.
Especificamente ao uso da AYAHUASCA, sei que:
1. A ONU (Organização das Nações Unidas) através da INCB (International Narcotics Control Board) afirma que não só a ayahuasca, bem como as espécies vegetais que a compõem, NÃO são objeto de controle internacional.
2. No Brasil, há uma legislação que protege o uso RELIGIOSO da ayahuasca, mas condena a utilização terapêutica, que deve ser vedada, até que se comprove sua eficiência por meio de pesquisas científicas realizadas por centros de pesquisa vinculados a instituições acadêmicas, obedecendo às metodologias científicas. Desse modo, o reconhecimento da legitimidade do uso terapêutico da Ayahuasca somente se dará após a conclusão de pesquisas que a comprovem.
Enfim, pode ser usada desde que sob o controle governamental, seja o governo decidindo o que é religião (e que religiões estão registradas, carimbadas e autorizadas - quem lembra/conhece plunct, plact, zum! de Raul Seixas), seja apenas por meio de centros de pesquisas e instituições acadêmicas autorizados, registrados e carimbados pelo governo.
Quem desejar conhecer os PES entrará em contato com nossa visão de mundo, que passa pela Biologia do Conhecer. Um dos impactos desta área do conhecimento no meu viver e ver a realidade é perceber que não existimos numa realidade, e sim vivemos numa série de descrições de realidade. Enfim, chamo isso de Teoria do Multiverso, que expande a visão convencional de que vivemos num Universo.
Nesse meu devir pessoal, sempre fui crítico as religiosidades, não às espiritualidades e crenças, mas contras as instituições e religiões. E com a pesquisa científica da Biologia do Conhecer descobri que TUDO, inclusive as metodologias e pesquisas científicas, não passam de crenças. Eu que era contra a religião, descobri que de certa maneira, a própria ciência e seus métodos são formas de religião.
Com essa desconstrução, busco não mais criticar as religiões, pois não só cada um possui o direito de escolher sua religião, bem como a própria escolha não deixa de ser um ato de fé da subjetividade humana. Prefiro a definição de O QUE È RELIGIÃO de Rubens Alves na Coleção Primeiros Passos, do que o Governo Brasileiro e o CONAD (Conselho Nacional Anti-Drogas) acham do que seja USO RELIGIOSO.
Posso brincar dizendo que meu uso da ayahuasca é religioso, pois religiosamente tomo ayahuasca mensalmente. Mas minha brincadeira principal tem sido VIVER BRINCANDO e essa realidade que crio pra mim e proponho com a SOMAIÊ, Te&So e agora com os PES, ou Ayahuasca no Rio Preto, não passa por esperar uma autorização de órgãos governamentais que decidam como devo viver minha realidade.
Assim, exponho aqui na net simplesmente o meu fluir, o meu viver, e convido outros a compartilhar essa realidade. Não vejo como isso possa ser prejudicial a alguém, pois trabalho com a liberdade de decisões individuais. Meu paradigma de uso terapêutico da ayahuasca se aproxima mais das experiências de Timothy Leary com LSD na Universidade de Havard, do que desse bla-bla-bla oficial acerca de cientificismo.
Pra quem não sabe: Leary no início da década de 1960 experimentou e pesquisou o uso da LSD para a expansão da mente. Na época, outros pesquisadores insistiam pra que Leary trabalhasse DENTRO DO SISTEMA. Suas mensagens era: "A sociedade permitiu a administração de drogas pelos profissionais médicos para a cura de doenças. Qualquer um que não seja médico e forneça ou tome drogas é um traficante ou um viciado. Jogue com o sistema. Use a profissão médica da mesma forma que Freud"."Seguindo a tradição das escolas esotéricas da Antiguidade, esses sábios e intelectuais também nos advertiram no sentido de que mantivéssemos o movimento num limite intelectual, elitista, e à parte da política e do público(...)". "A mensagem era clara. Vamos manter essa descoberta pra nós mesmos". "Não a torne pública, senão você atrairá a ira dos guardiões da sociedade." Leary, apoiado por Allen Ginsberg (conhecedor da ayahuasca), optaram nessa encruzilhada por DIFUNDIR e EXPLICITAR suas pesquisas. Curiosamente, o CONAD recomenda que os grupos religiosos constituam-se em organizações formais com pessoa jurídica, e considera que o ritual responsável é incompatível com a publicidade. Dessa forma, se considerarem que esse site é publicidade, podem considerar que o ritual dos PES não é responsável. Mas como também não sou pessoa jurídica, fica tudo no mesmo saco: posso ser considerado Alegal. (acho mais legal alegal que ilegal, pois não busco estar enquadrado nessa lei, simplesmente não aceito ela, ignoro essa legislação hipócrita)
Explicito isso aqui, pois como já mais que dito, penso numa outra forma de descrever a realidade, e viver meu universo de observador nesse multiverso que é a comunicação de descrições das percepções humanas. Assim, não espero uma autorização para fazer os PES, nem pra trilhar meu viver. Simplesmente vivo e explicito para quem deseje conhecer, experimentar essa possibilidade em seu viver. Sou terapeuta e não vivo dos PES, e sim de meus grupos de SOMAIÊ. Se os PES possui taxas, é que vivemos num capitalismo de mercado e preciso pagar o feitio e transporte da ayahuasca que coordeno. Não conheço e nem nunca participei de rituais do Santo Daime e da União do Vegetal, mas bebo e comungo a ayahuasca com quem trouxe a ayahuasca para o Estado de São Paulo há mais de 35 anos (muito antes de se falar em proibir a ayahuasca). Não me interessam essas religiões que usam a ayahuasca, pois não me interesso por nenhuma religião, mas agradeço a elas por existirem e criarem esse paradoxo para o governo de liberar uma droga poderosa e alucinógena, argumentando que se é ritual religioso tudo pode... Quem sabe não criamos uma religião que use a maconha (muito mais fraca que a ayahuasca, no meu perceber) pra evitarmos de ter que subornar policiais a toda hora pra não sermos novos Bichos-de-Sete-Cabeças, ou bodes expiatórios de uma política ultrapassada e reacionária, e ainda sem nenhum embasamento científico como eles tanto defendem..
Rui Takeguma, poção da Maromba, em 6 de julho de 2008
observação: curioso que um dos "mestres" dessas religiões ayahuasqueiras, o José Gabriel da Costa, foi capoeirista. E tanto a capoeira como o uso da ayahuasca pretendem ser tombados como Patrimônio Imaterial da Cultura Brasileira. Ampliando essa curiosidade, a capoeira já foi prática ilegal, e hoje é considerada o esporte nacional, inclusive representando a cultura brasileira nas Olimpíadas. Se a capoeira deixasse de ser praticada por ser ilegal não teria todo esse status, e nem chegaria aos dias de hoje.
Capoeira e Ayahuasca (maio 2009)
Capoeira e Ayahuasca
Ambos foram proibidos no Brasil. Ambos hoje são considerados Bens Imateriais da Humanidade. Um nasce da cultura negra, outro da cultura indígena, e tanto a capoeira quanto a ayahuasca estão mescladas na globalizada cultura multicolor (que, no geral e injustamente, privilegia os de pele branca). Na Somaiê, a prática da capoeira angola é fundamental, e nas Teorias da Somaiê o uso da ayahuasca é uma possibilidade. Mas o que liga esses ambientes é a ampliação do viver: a capoeira por uma via corporal/física e a ayahuasca pela via mental/subjetiva (aqui cito o viés principal, mas logicamente ambas atingem inevitavemente a corporalidade como um todo) (*1).
Após me tornar um capoeirista e pesquisar a história de meus e de outros mestres, tornei-me professor de capoeira angola em 1995. Atualmente mantenho o Grupo (A) IÊ de Capoeira Angola com sede na Escola da Maromba (Visconde de Mauá/Itatiaia/RJ) e com rodas, no Espaço Cultural Tendal da Lapa (São Paulo/SP). Em 2002 criamos a FACA Federação Anarquista de Capoeira Angola, que já produziu 4 CD's e pretende até o final de 2009 finalizar 2 DVD's. A FACA mantém o projeto Memória da Capoeira, que já contou com os Mestres Ananias (SP), Russo (RJ), Primo (MG), Bacalhau (SP), além do Contra Mestre Nino Faísca (PE) e o professor Cenorinha (SP).
Após me tornar um ayahuasqueiro e pesquisar a história de meus e de outros mestres, tornei-me dirigente de sessões de ayahuasca em 2008. Desde então, organizo sessões de ayahuasca, começando em Visconde de Mauá, onde já foram feitas 20 sessões, e outras cidades como Conceição do Ibitipoca, São Paulo e Belo Horizonte, onde faço sessões ocasionalmente. Chamo essa vertente de PES (AyA) Pesquisa e Experiências Subjetivas Anarkia e Ayahuasca Entre Parênteses. Nesses últimos 15 meses foram 27 sessões, nas quais distribui mais de 180 doses entre 96 pessoas, sendo que 48 pessoas beberam ayahuasca pela primeira vez comigo.
Curioso como é possível traçar outros paralelos históricos entre capoeira e ayahuasca, além dos citados no primeiro parágrafo. Há uma relação entre o momento atual e a historicidade, misturados à confusão causada pelas denominações em seus ambientes. A capoeira está um pouco a frente nessa comparação, vejamos o porque.
A capoeira nasce das tradições negras e vive um primeiro período, que aqui chamarei de PRÉ-HISTÓRIA, que engloba desde a vinda da África até seu uso no Brasil na década de 1930. A PRÉ-HISTÓRIA da ayahuasca começou há mais de 5000 anos, com sua ruptura também na década de 1930. Coincidência??!! A passagem para a fase da HISTÓRIA, em ambos casos, se dá no contexto das oficialidades. Na capoeira, o mestre Bimba, Manoel dos Reis Machado (no contato com pessoas de classes mais abastadas, principalmente acadêmicos) cria uma Academia, e leva a capoeira a sua expansão, através do ambiente desportivo. Na ayahuasca, a oficialização se dá com a criação de uma Igreja pelo mestre Irineu, Raimundo Irineu Serra (Santo Daime), expandindo a ayahuasca através do ambiente religioso. Seria forçar a barra das coincidências comentar que ambos mestres eram negros e de porte físico avantajado??!!
A meu ver, tanto a capoeira quanto a ayahuasca utilizaram meios que diferem da sua origem para se expandirem, o ESPORTE e a RELIGIÃO. Como memes culturais que buscam formas de se modificar para ampliar sua área de atuação (*2). Em ambos casos considero marcante a ruptura com o ambiente inicial (negros e índios) para um ambiente mais eclético, e a questão da fusão de novos elementos ritualísticos que modificam a estrutura original. Outra semelhança é a argumentação da “autenticidade” e crítica aos grupos de outra origem que não a sua, gerando um tipo de concorrência e argumentos de legitimidades próprios.
Na capoeira, na fase HISTÓRIA, nascem outros grupos buscando outras formas de praticá-la, como o mestre Pastinha, Vicente Ferreira Pastinha, que é anterior na prática da capoeira porém posterior na questão da oficialidade, e que nomeou sua capoeira de angola, pra diferenciar da capoeira regional de mestre Bimba (angola é o termo geral usado pra designar a capoeira de mestre Pastinha, porém ele buscava traduzir na sua época os elementos antigos, da PRÉ-HISTÓRIA da capoeira - ver meu texto Qual é A Sua ? Angola, Regional ou Contemporânea? (*3)). Na ayahuasca, também na fase HISTÓRIA, nascem outros grupos com outras formas ritualísticas, como mestre Daniel (Barquinha), Daniel Pereira de Mattos e mestre Gabriel (União do Vegetal), José Gabriel da Costa, que além de ayahuasqueiro era capoeirista.
No século passado ambas as culturas se expandiram, tanto na geografia, quanto no perfil de seus participantes. Geograficamente a ayahuasca sai da região da Floresta Amazônica, vindo para o sudeste e, atualmente, em inúmeros países; a capoeira angola sai do Recôncavo Baiano para o restante do Brasil, e também em inúmeros países (*4). No perfil dos participantes, não há como enquadrar os tipos de pessoas que bebem ayahuasca ou praticam capoeira, pois independente da cor de pele, crença religiosa, ou classe econômica, elas se tornaram culturas globalizadas, e quem quiser tem acesso a elas.
Neste século ambas se tornam Bem Imaterial, a capoeira tombada pelo IPHAN e a ayahuasca em trâmite de tombamento, sendo que no Peru já foi tombada. Nesta etapa, surgem rupturas com quem gerou as primeiras rupturas. Na capoeira isso se dá com a maioria dos grupos em atuação, que nomeiam sua prática de capoeira angola e regional, numa tentativa de unir o antigo ao moderno. Porém, essa capoeira se afasta da capoeira angola e da capoeira regional, gerando uma capoeira que eu e alguns autores chamam de contemporânea (tantos nomes gerando tanta confusão, pois é claro que tudo que é feito hoje é moderno, contemporâneo e faz parte da história, mas assim como existem esses parênteses explicativos, o viver é feito dessas confusões semânticas, e aqui procuro fazer um texto geral, para os leigos na história da capoeira e da ayahuasca).
Na ayahuasca essa confusão também se dá: pois, há os grupos chamam sua ayahuasca de Daime, Vegetal e Oasca, além dos recentes grupos que buscam juntar a brecha legal do uso da ayahuasca conseguida no viés das religiões, com o uso antigo (indígena), ou com novas experiências como simplesmente um uso recreativo e social da bebida. (*5) Importante ressaltar o atraso das Leis em relação aos costumes. Juridicamente, os costumes é que primeiro geram as Leis e oficialidades, e sempre os que buscam uma nova forma de viver, rompendo com regras rígidas e ultrapassadas, normalmente numa desobediência civil e legal, acabam gerando as Leis do amanhã. Assim, por exemplo, somente em 1976 os centros de culto afro-índios-brasileiros foram liberados da obrigação de se cadastrarem e se submeterem à fiscalização das delegacias de costumes, o que acarretava as maiores arbitrariedades.
Aqui volto ao ponto de a capoeira estar um pouco a frente nesta comparação: pois a maior parte dos praticantes são os que se enquadram no uso competitivo/esportivo (daqui a alguns anos entrará nas olimpíadas), sem a exclusão do uso da capoeira para outros fins como a ludicidade ou a vagabundagem (não-esportiva).
Já na ayahuasca, a maior parte dos atuais bebedores são os que se enquadram no uso de rituais religiosos, mas não questiona a arbitrariedade das leis proibicionistas, muito pelo contrário, e algumas vezes se utiliza dessas leis para tentar controlar outros grupos com outros rituais (não-religiosos). Assim, por essa lógica, os índios tradicionais que não se filiassem às religiões também estariam ilegais no uso da ayahuasca, caso não fossem inimputáveis pela Lei brasileira. Ou seja, vivemos um momento em que as religiões ayahuasqueiras tentam autoritariamente (com apoio do Estado) impedir outras formas de uso da ayahuasca. É como se os capoeiristas esportivos (capoeira contemporânea que mantém competições) tentassem impedir o uso da capoeira por quem não quer competir, simplesmeste a usa como seu prazer, ou como eu, também como desenvolvimento pessoal.
Nesse âmbito de morar num país em que a maior parte da economia é informal, e o Estado segue uma visão proibicionista e reacionária, mas com fachada democrática (veja Proibicionismo na página 5), é interessante como se permitiu o uso, desde que “religioso”, dessa bebida natural (*6). Para mim, mais um paradoxo legal, temos liberdade religiosa de usar a ayahuasca, mas não temos a liberdade pessoal de usar a ayahuasca. Como capoeirista é fácil ver como este critério autoritário era o mesmo que a cultura branca utilizava através de métodos legais para impedir o desenvolvimento do negro e sua libertação. Pois a capoeira como luta ameaçava o status quo, e não dando certo sua marginalização, a opção foi sua cooptação através do esporte. A ayahuasca com seu poder de ampliação de consciência também ameaça os donos do poder, e seu caminho tem sido o da cooptação das religiões, outra forma de doutrinação e controle. Se os ayahuasqueiros, mesmo religiosos, aprenderem algo com a história da capoeira, descobrirão o caminho do anti-proibicionismo.
Como nas Teorias da Somaiê buscamos SER e não TER, e nossa busca de poder é a busca da autonomia individual, optamos em nomear de anarkia o nosso caminho; com uma base biológica da percepção humana, colocamos um parênteses nessarealidade limitada das religiões e esportes. E decretamos que, ao invés das leis elaboradas por corruptos no Congresso Nacional, procuramos seguir a Lei da sociedade alternativa de Raul Seixas:
Faze o que tu queres, há de ser tudo da Lei! (ver capa deste jornal= www.jornaltesao.blogspot.com )
o b s e r v a ç õ e s :
(*1) Isso será tema em texto futuro, mas adianto que ambos mexem com a couraça neuromuscular do caráter. A capoeira com seus efeitos bioenergéticos, e a ayahuasca com sua bioquímica (principalmente a DMT - n -dimetiltriptamina) produzem uma reorganização energética, onde um sintoma comum é a ânsia de vômito, além de outros efeitos neurovegetativos.
(*2) Aqui comparo essas culturas com as idéias de Richard Dawkins, nas quais ele formula as teorias dos Memes, em comparação biológica com os genes: assim como somos somente envólucros para a verdadeira vida que são os genes, as idéias podem ser consideradas “vivas” e se utilizam de formas para se propagar. Mais detalhes ver o já clássico livro deste autor, O Gene Egoísta.
(*3)Pode ser acessado em http://brancalulaleone.vila.bol.com.br/qualeasua.html
(*4) Existiu na fase PRÉ-HISTÓRIA uma forte capoeira no Rio de Janeiro, porém sem o uso do berimbau e que não produziu uma descendência como a capoeira baiana, esta sim, gerando a capoeira como conhecemos hoje.
(*5) A antropóloga Beatriz Caiuby Labate cunhou o termo NEO-AYAHUASQUEIROS para definir os usos urbanos desta bebida que derivam das religiões do Santo Daime e da União do Vegetal, mas se afastaram dela conforme associam suas crenças ao movimento da nova era. Sendo um movimento constante de afirmação do seu caráter terapêutico, medicinal, lúdico, espontâneo e, sobretudo “alternativo”, procurando negar os conteúdos e práticas religiosos ou rituais, tidos como tradicionais. (A reinvenção do uso da ayahuasca nos centros urbanos, editora Mercado de Letras, 2004). Discordo da Beatriz Labate, pois considero que as religiões ayahuasqueiras é que deram um sentido NEO, rompendo com o uso tradicional (indígena), e limitando a uma cosmogonia religiosa européia ou européia/africana. O que ela chama de NEO-AYAHUASQUEIRO, categoria na qual se enquadra minha pesquisa (PES (AyA)), eu chamaria de PÓS-NEO-AYAHUASQUEIRO. Pois pra mim, AYAHUASQUEIRO seriam os índios que ensinaram os primeiros mestres no século passado, e estes que criaram as religiões ayahuasqueiras: Santo Daime, Barquinha e UDV, estas sim, para mim, NEO-AYAHUASQUEIRAS. Assim, finalizando essa confusão semântica (que eu vim pra complicar), os ayahuasqueiros fizeram parte da PRÉ-HISTÓRIA, e os neo-ayahuasqueiros geraram a HISTÓRIA (legalidade). E hoje em dia, o uso da ayahuasca é compartilhada pelos 3 tipos de ayahuasqueiros: os ayahuasqueiros, os neo-ayahuasqueiros e os pós-neo-ayahuasqueiros. Adoto essa visão, pois os índios em nenhum momento pararam de beber ayahuasca, e utilizam ela de uma forma muito mais ampla que o uso religioso, inclusive para rituais de guerra.
(*6) Inclusive, considero ser muita hipocrisia beber ayahuasca e condenar quem usa maconha, ou outras chamadas “drogas”.
Rui Takeguma, Jornal TESÃO 7, maio de 2009
